segunda-feira, março 12, 2012

Conclusões...


É-me difícil transformar-te em algo mais do que a descrição da minha loucura, inverter o caminho que tão bem escolhi para que não deixes de ser pureza. Não, não sou assim tão magnânimo ao ponto de te dizer que sei inverter feitiços, passar da cerveja para a água, lacrimejar a sensacional vontade… a tua, que é caminhar com uma certa magnanimidade.
Por vezes, sou um tanto discordante co...m a serenidade que pretendo, um aprendiz que tenta não ser o bobo que antes vagueou petrificado e se a minha alma grita é porque não há qualquer tempestade que possa esconder as minhas falhas. Se me vingo da vida anterior arrepiando a minha carne com as lágrimas, é porque uma certa crença espalhou a sua bondade pelas minhas veias e me conquistou para além da monstruosa realidade.
Lembras-te daquele dia em que te disse que iria entrar num certo lugar que me fizesse bem? Talvez não pensasses nisso, mas já estava a falar em suicídio… Não, não me referia em acabar com a minha vida, mas deixar de me importar com a ténebre sociedade que muito procura afastar o indivíduo do seu caminho e deixar de procurar aquela patética glória que é me afirmar melhor do que os outros só porque sei escrever.
Ah como fui tonto naquela altura! Olhava para as pessoas de alto a baixo e, se nenhuma qualidade artística via, pensava logo que não eram interessantes. Claro que falava bem com elas, mas, por dentro, celebrava uma certa pomposidade porque sabia que não seriam conhecidas cem anos após a sua morte. Não como eu, claro, que já tinha uma certa reputação…
Foi preciso apareceres para eu “acordar”, para começar a pensar que estava totalmente errado. Uma mulher tão nova, bela e inteligente que me fez descobrir, durante o nosso relacionamento, que não sou melhor do que as outras pessoas, que todos temos a nossa sorte e a nossa burrice. Há que respeitar para ser respeitado e, se possível, deixar de pecar. Não é por eu ser escritor que devo andar por aí a me fazer de bom! Lembrando-me, isso só demonstrava o quão ridículo eu era, não achas? Ah, patetices…
Bem, vou sair agora do facebook… Agradeço-te por tudo e desculpa-me se desapareci durante algum tempo… Ainda não te tinha dito, mas tornei-me padre e daqui a pouco vou rezar a missa.

domingo, março 11, 2012

E os porquês…

Não compreendo!
Só porque tenho palavras e tu tens realidades, tenho sonhos e tu tens desejos, tenho loucuras que batem, rematem e explodem sem antes dar sinal de perigo, bebo desalmadamente sem pedir licença à dor, faço desenhos que tardiamente compreendes, conheço aquelas nuvens esvoaçantes que riem ao despejar droga, danço de forma cada vez mais estranha, canto hoje abusos já que o amanhã não existe, tento não ser escravo da apalhaçada apatia, rio sempre que me apetece não me importando com quem está ao lado, escarneço e complico o que tenta valer como subtileza, grito desalmadamente quando me dizes para ter calma, risco da memória coisas que não parecem ter importância e, mesmo assim, vais buscar a um passado onde não estiveste situações desconcertantes, extremamente irritantes e volta e meia discutimos.…
Caramba!
Só porque tu tens qualquer coisa que me fascina, que me lateja o corpo, que sacode a poeira do cansaço, será que devo continuar a sentir-te no meu coração, agora que te foste embora sem ao menos teres dito porquê?
Se assim for, serei burro?

Perguntas…


– Deduzo que a inspiração seja fácil de ter quando te vestes de preto.
– Deduzes isso porquê?
– Porque sempre que te vejo de preto, mostras-te taciturno, absorto nos teus pensamentos. Não falas, nada dizes do que te encanta ou corrói. Sais de casa e vais a um bar escrever num bloco. O que é que assentas que sejas tão importante?
... – Todos temos devaneios que pintam a nossa mente, glórias que desejamos, fantasias que nos agarram, encantos que nos beijam, pétalas enevoadas que já caíram, aquela procura incessante por um horizonte menos terrífico do que aquele que se vê à nossa frente, uma lisonjeada transformação da aberração que antes nos trucidou, uma ideia que nos comove a vaguear, uma lágrima que ainda corre, um sorriso que não nos desgrace, a selvagem inquisição de todos os preconceitos, a serenidade em luta contra a triste realidade, a leveza que é deixar de ser igual a todos os outros, a incansável força motriz que é correr descontroladamente além dos grilhões que nos tentam subjugar, um coração que sustém toda a alegria que nos importa, uma esperança que tenta não morrer…
– Escreves sobre isso tudo?
– Não, apenas sobre bife, cerveja e papel higiénico…

(escrito de madrugada, poucos dias atrás, no bar “Eclipse” (Bairro Alto), estando levemente tocado por certos líquidos…)

quarta-feira, março 07, 2012

O que de encantador se percebe...

Nasci numa tarde de sol altivo, preenchida por um vento que continha os cantos de outras eras. Despertei-me bem cedo, uma potência além de tudo o que atinava, concordava e se rebaixava à injusta notoriedade de um passado com muitos grilhões. Era jovem, obstinado e já o vento me conduzia ao grito! Sorridente, pus-me de pé, destemido, e gritei:
                “Não serei o que desejam que seja! Antes o asco, a tempestade e o abismo, do que o vosso tão plácido perfume!”
                Após isso, tentaram agarrar-me, abater todos os preceitos que consideravam imorais, arranhar esse iniciar de liberdade, sorver esse fôlego que era só meu e consagrar-me à sua maldita glória, mas eu fugi, saltando por cima de tudo e de todos, nada me importando se esbarrasse em ignorantes, religiosos ou ovelhas.
Abrindo os braços no alto de uma montanha, declamei toda a prosa e poesia que a minha alma pretendia, rasgando quaisquer cores que nada tivessem a ver com a minha satisfação. Os meus urros pareciam trovões que se reflectem na terra e voltam ao céu, tal era a hilaridade que ribombava de mim, até que, por fim, inquietei a Natureza.
Começou a chover, banhei-me em desvarios e necessidades, o frio apertava-me a carne ainda mais aos ossos e tiritava naqueles frémitos que se misturam ao coração. Tudo é uma consequência de uma inconsequência que nos faz abrir a consciência…
Faltava-me… Sim, faltava-me ela, uma dama que soubesse o que deveria ser, a profundidade de emoções e pensamentos que conseguisse aquecer o corpo para além de qualquer Inverno. Onde é que poderia encontrar tal ser? Em que parte do mundo existiria alguém assim, tão ideal para mim?
Foram longos os meses de deambulação, longas as noites de sonhos e distâncias, longas as manhãs em que acordava sozinho…
Um certo dia, cheguei a uma aldeia e dirigi-me para o centro da mesma. Ansioso, nervoso e latejante, a todos chamei para que soubessem que um poeta lhes iria presentear com as suas mais recentes obras. É claro que todas elas tinham aquele jeito tão irrequieto que é clamar pelo dia quando a noite aperta e sentir a noite quando o dia tem demasiado cansaço, mas a inspiração, aquela tão verdadeira que adoça o peito, não tardou a surgir pois vi uma mulher, entre as muitas que acorreram aonde eu estava.
Ela, de cabelos compridos e encaracolados, olhos brilhantes e sorriso divinal, parecia não perceber o que eu estava a dizer, talvez porque não sabia falar a mesma língua ou fosse meio surda.
Após mais ou menos meia hora de eloquentes divagações sobre os recintos de bom préstimo ao romance, à natureza e à disfarçada luxúria, cheguei ao final da minha exposição. Agradecendo os aplausos, sorrisos e dinheiro de quase toda a minha audiência, pois ela não se fez ouvir nem ver, aproximei-me dela e, perplexo, perguntei-lhe se as minhas palavras não lhe interessavam. Ela, num jeito tão peculiar, respondeu:
– Se tudo o que dissessem, aquecesse o meu coração, não seria única, mulher com uma boa alma, mas mais uma que se deixa levar pelas armadilhas de outros.
– E se eu te disser que, o que declamei, foi em nome de quem não conhecia, mas que desejava conhecer?
– Se não conhecias, declamarias para uma sombra, um espelho tão negro quanto um coração que não sabe a quem amar…
– Tudo o que um poeta cria é por necessidade, não por obrigação, e eu precisava de me conhecer, de saber o que o meu coração sentiria quando encontrasse a mulher dos meus sonhos...
– Um poeta que não sabe o que sentir quando ver a mulher dos seus sonhos? Como é que isso é possível? Acaso sabes tão pouco do que é o amor?
– Tem-se de descobrir o dia e a noite. Não há momento futuro que não seja um mistério… Sou apenas alguém que pretende conhecer a si próprio de modo a saber se reconheceria a mulher dos seus sonhos…
– Sonhas sempre com sombras?
– Os meus sonhos são enevoados, vejo figuras, nunca caras, sinto o toque, nunca acaricio, oiço palavras, nunca corações…
– Precisas de aprender… Tal leva o seu tempo…
– Tento ter o possível de paciência…
– Paciência… Sim, é preciso… Bem, desejo-te uma boa vida. Adeus.
– Não! Espera!
– Porquê?
– Quero conhecer-te melhor…
– Porquê?
– Porque… Bem… Intrigas-me…
– Em quê?
– No facto de que… Gosto de conversar contigo… Tal como em mim, vejo em ti muitos cenários que arrepiam…
– Sou apenas uma mulher que não gosta que a tentem conquistar em nome da futilidade.
– Não, também não o pretendo!
– Será preciso muito tempo para deixar-me levar…
– Não pretendo outra coisa…
– És assim tão paciente?
– Pela mulher dos meus sonhos, sim!
– Como sabe que eu sou?
– Como sabe que não é?
– Como sabe que é o meu?
– Como sabe que eu não sou?
E os anos passaram…


(escrito numa bela tarde de sol e muito vento, ao sabor de uma bica pingada, no miradouro de Sophia de Mello Breyner Andersen – Lisboa)

terça-feira, março 06, 2012

À noite e contigo…

Todos temos desvarios, curvas que não sabem como fechar, paredes que engolem as cores do passado, tremores que dançam como se fossem tempestades, cenários que gargalham onde a loucura já há muito entrou…
Eu tenho esta memória, que deslizo em ácido como diálogo provocante…
Se sou imprestável? Oh, apenas tenho as marcas que a vida trouxe, esse abismo que corre nas veias porque a luz que se vê é miséria quando o sonho é uma nódoa que pode ser limpa.
Deixo-me ir…
Eu gosto de me cortar com as palavras que se espalham no chão sem temer que deixem de ser virtudes! Prefiro a depravação, cuspir na cara de todas as tretas que me foram dadas e explodir qualquer universo que os distraídos, aqueles que prometem o que não podem, desejem criar.
Afinal, não tenho qualquer vontade de me desfazer da arte, de provocar qualquer eclipse em mim como se eu fosse uma folha amarrotada, adormecida pela hedionda mesquinhez! Oh! Quando me encontraste, já sabias que eu era um perdido…
Dizia a torto e a direito que a vida é para ser provada por nós mesmos, que não nos devemos julgar mal se criamos tantas personagens, se esbracejamos, corremos, gritamos e fodemos como se não houvesse amanhã…
Não, não há dilemas, combustível ou substantivos que me conduzam a procriar mentiras, por mais luminosas que sejam, na escuridão!!!
Existe apenas a vulgar constância que é me impedir de me ridicularizar, de deitar para o ar qualquer adjectivo que cubra a normalidade. Ah! Eu não quero nada com a normalidade!!! Pouco me importa se existem “cegos”, irão todos morrer vazios…
Monstruosos!!!
Esse é o nome que combina com quem não queira ver além do seu umbigo, aqueles que não são verdadeiros consigo mesmos, que não sabem dizer:
“Descobri que sou fútil.”
Toscos!!! Que não se deixem ser subjugados por preceitos tão ridículos quanto uma gota de chuva, ah preciosidade da Natureza, que não traga outra!!!
Se querem ser sombras, que façam o favor, que deitem para fora tudo o que lhes faz bem, mas, vá lá, que não me queiram levar. Tento ser preciso onde a riqueza guarda o seu maravilhoso desvario.
Sim, é bom ser insensato, tecer artimanhas que podem cair porque a lógica não as consegue aguentar, seduzir os problemas para que essa odisseia, que é naufragar, não nos leve a recantos menos libertinos. Será que se deve pensar os passos, sermos guiados pela nossa mente, fazer com que o espírito não possa deambular, que fique acorrentado num espaço tão obscuro quanto pequeno?
Chamas-me…
Esqueço a confusão…
Prefiro a ti…
Neste momento, tal como em muitos outros, gosto de cortar a placidez com o desejo, de me meter contigo, abrigar-me rodeado do teu perfume, acariciar qualquer suavidade que tenhas, de passar a minha língua pelos teus seios, beijá-los avidamente…
Não há melhor fogo que pudesse ter escolhido!
Por longos momentos, perfuro as tuas águas, aqueço-te com os traços do meu frutuoso esplendor, lembro-te que a tua noite é minha para que nunca te esqueças de deslizar sobre o meu ávido amor!
O teu sorriso e gemidos corrompem-me com a gratidão que é gritar que se tem asas.
Contigo, ninguém me conseguiria prender à terra e assim me elevo e me solto para além do horizonte.
Já em paz, vens comigo…


(texto escrito ao gosto de determinados líquidos numa passagem nocturna pelo bar “Eclipse”, um dos muitos do Bairro Alto – Lisboa)

sexta-feira, março 02, 2012

Acordar para este dia como uma pálida imagem e sentir o teu silêncio como faca que se crava na minha carne.
Se sangro, é porque as lágrimas já perderam a força...
Não, não preciso dessa miserável casa!
Apenas de vaguear, de recomeçar num lugar onde não haja sombras que queiram dançar comigo. As memórias daqueles tempos em que fomos tão felizes...
E há quem diga que posso continuar a viver...
E há quem não sabe que me sinto tão velho...
No entanto, se agora morrer, todos dirão que eu era tão novo.

Minto-me!!!
Preciso de ti, do sabor da tua boca, desse sorriso que espalha toda a escuridão da minha alma e transforma-me em luz.
Pena que, para ti, eu seja... nada.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Libertinagem!
É esse o segredo para não provocar o tédio...
Escorres a tua seiva para a terra que viu-te nascer e vês lampejos de um hábito insonso, cortejas o erotismo como se dançasses o tango e pouco te importas com o sono que concorda em ter-te como servo pois tu, de pijama, corres por entre os sonhos como se fosses um selvagem embriagado, cantando todas aquelas palavras que são meritórias de um pódio e sorrindo porque a única sessão onde pintas quantas cores quiseres é um golpe na pacatez, um desnorteado envolvimento entre as nuvens e o ópio. Se te viras para um lado e vês-te ao espelho como se fosses altivo é porque o outro, que está bem perto, está tapado com uma película leitosa. Nesse, se passasses algum tempo a limpá-lo, até poderias ver os teus defeitos, mas que importa? Queres continuar a saltar por cima das poças de água, brincar com aquelas folhas que ainda se agarram às árvores e cravar as unhas na terra húmida como se penetrá-la te desse gozo, enquanto imaginas o que é estar a sentir o corpo de uma mulher já nua, acariciá-la de uma forma que sabes que fica bem ao orgasmo, tudo porque os suspiros são sempre uma melodia inigualável e tudo porque te cativa uma solenidade iniciada pela erecção febril. Mal sabes que, ao longe, uma outra serpente, tão descuidada quanto tu, maltrata a planície sequiosa de certos movimentos incontroláveis, tudo para ao fim do dia gozar com o delicioso sabor de um... crepe!
... ou donut! O que ficar bem...
...
Acaso disse antes que hoje estava são? ;)

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Todas as palavras que te escrevi nunca tiveram o sabor desse teu beijo...
Hipnotizaste-me... Levaste todo aquele desejo de estar em qualquer outro lado...
Sim, já muitas vezes respondi à paixão com a esperança, para depois cair sem ter qualquer resposta que me fizesse brilhar. Só que, contigo, foi diferente... Talvez porque tivesse sentido que o meu toque tenha se distanciado do teu coração é que vivi todos estes anos onde ninguém existia.
Construí, preencido pela melancolia, rodeado pela glória da Natureza, um jazigo onde as minhas lágrimas enterrava, suspirando o teu nome vezes sem conta, pedindo ao vento para te levar este amor, gritando até ao universo que o mais importante é o fogo que arde dentro de quem vive sem nada destruir. No entanto, nenhuma resposta recebia... Sempre foste mistério... Apenas o teu olhar brilhava, a tua boca abria-se num majestoso sorriso e a tua voz acariciava-me com encantos que....
Não!!! Não!!! Não!!!
Não me quero lembrar!!!
Já basta a agonia deste sangue que corre nas minhas mãos... o meu... que ofereço à terra... por mais ninguém poder viver em mim.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Repara!
Eu não sou diferente de ti!
Apenas tenho uma determinada loucura que me faz escolher um agonizante momento para sorrir, divagar por todo aquele tremor que empalideceu o "ontem", que impele qualquer lágrima ao "hoje" seduzir e deixa-me vaguear por vales ansiando por voar quando a vida sobe montanhas.
Se canto toda uma imperfeita alegria, descobres que a minha timidez é frémito escolhido pelo vento.
Se grito mais alto do que um trovão, a tua alma ouve-me sem conseguir responder.
Por isso, quando eu estiver ao teu lado, olha-me nos olhos, talvez assim saberás porque o meu coração bate por ti...
Há uma parte de mim que sorri, outra que já há muito morreu.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Uma tempestade num copo de vinho

I

Uma terrível tempestade fustigava a cidade e nada me confortava neste recanto tão especial para o meu coração. A noite era ainda mais escura porque tinha faltado a luz e apenas uma vela iluminava a minha coragem no sótão onde vivia. A vela, tão cativante, profunda e misteriosa quanto um devaneio igual a uma alma estonteada, aquela que é pobre demais para compreender a arte, conquistava o irrequieto estertor de um arrepio; aquele desejo de escrever que sucumbe quaisquer sombras que o infortúnio conseguiria criar.
Não me importava que o vento bailasse assustadoramente através da cidade, a chuva retinisse em terríveis sons que levassem qualquer criança a esconder-se debaixo de um cobertor porque eu, intrépido, escrevia o que a alma fazia cair: todos aqueles desejos e sonhos, lembranças e conquistas, virtudes e sensações, sendo deixados a tinta negra num papel antes virgem.
Quem estima a literatura, bem sabe que não há palavras sóbrias quando se toca todas as impurezas de um juramento, este providenciando certas sinuosidades que a claridade não alberga. Talvez a inspiração possa ser como uma flor que se guarda na mão de uma mulher vistosa, que se abre, violenta e maliciosa, além de qualquer cenário escarrado pelo ser humano. As sombras, que passeiam em delírio, deambulando como num cortejo fosforescente, têm máscaras que nunca caem e um sorriso que só a loucura conhece.

II

Porque há que tentar ser um bom escritor, desenvolvo…
Este relato surge porque também há momentos em que a inspiração é motivada quando o espírito cambaleia, o sol é uma imagem longínqua e a lua se esconde por detrás de um manto arrepiante.
Enfim… A candura de um início já tinha passado e os contornos de várias experiências tinham-me adulterado a percepção pois compreendia a satisfação e a insatisfação, quaisquer extremos que levam a compreender o porquê de haver sentimentos que corroem o íntimo e o porquê de se pensar em tanto que nos enferruja a vontade de caminhar. Talvez pudesse brincar numa avenida quase vazia, exibir-me tal como vim ao mundo ou observar o que os outros fazem à beira-mar, ser um voyeur, um lamentador, tudo menos um pálido habitante de uma cidade ainda mais pálida.

III

Enrubescia…
Após mais um golo de um soberbo vinho, altivo reparador de maleitas, sentia a imaginação cortar amarras a uma solidez que a realidade tão bem conhecia. Enlevado pela situação, os meus sentidos eram tão desiguais quanto o meu espírito. Não me interessava escrever o que outros compreendiam, apenas fazer das palavras um caminho com muitos atalhos.
Lembro-me… Lembro-me de um cálice de vinho perfumado pela sensualidade, um sabor divinal espalhado pelos lábios de uma mulher que ainda me invade os sonhos, uma beleza vaidosa que induzia à ascensão de maravilhas onde a riqueza queimava qualquer negação que pudesse ter. Era esta a poesia desenhada para adornar qualquer reino, sorte a minha que adornava o meu.

IV

Ofuscado pelo prazer do ambiente, envolvido pela luz da vela que dançava de forma extenuante neste quarto que antes estava às escuras, sentia que o cálice de vinho brilhava como se quisesse conceder o condão de entrar em outros mundos. Estes, tão febris quanto os que desejava conhecer, talvez não fossem inocentes mas o desconhecido nunca me apoquentou. Afinal, sempre quis descobrir algo mais interessante do que a palidez de uma rotina bem desenhada e a presença de sombras sempre me fizeram bem. Digo isto porque a fantasia não deverá ser apenas deixada para quando se sonha mas há que molhar a paciência, apartarmo-nos de quaisquer contrariedades e deixarmos uma porta aberta à investigação, à experiência, à elevação e à queda. Se apostarmos demasiado em floreados, talvez percamos muito do que reluz e as coisas que realmente interessam envelheçam antes do tempo, deixando-nos sozinhos, como se apenas um quarto escuro fosse a nossa realidade. A verdade é que a sombra é a beleza já caída quando o ser padece de todas as dores…
Não! Nunca fui amigo de lugares insonsos, preferindo a alegre ebriedade dos artistas que conhecem mais do que o dinheiro, cuidando do desenvolvimento do intelecto mesmo que a vida providencie insensatos balanços. As minhas pretensões eram o cuidar da minha arte com o requinte dado às palavras, quer sejam a fineza de uma sexualidade enrubescida, quer sejam uma mistura de loucura com selvajaria.

V

Que nunca se esqueçam…
Há momentos em que a vela é uma bendita inspiração que faz os aventureiros percorrer mais do que os cobardes pretendem porque estes últimos gostam de ficar sentados em cima da vã glória que conquistam, remoendo os seus muitos falhanços e detestando os que partem para longe. Se estes dão notícias, pode-se não saber, também quem morre nunca o dá… a não ser que volte como uma miserável imagem do que foi. Por vezes, os sonhos mostram que tudo é melhor do que parece mas nem sempre se pode contar com a fantasia. Para quê, dizem uns? Viver é preciso! Sim, claro que é mas viver sem sonhar não é vida que se deseje. Afinal, para quê passar de um dia para outro se nada de diferente se espera?

VI

Magoa-me viver sozinho, ser um poeta criado pela nostalgia, suspirar as ténebres teias de um reles caminho onde não há alegre feitiço nem vontade de ver o dia…

VII

 Toldado pela embriaguez, tenho a dor de não ter qualquer fortuna. O meu sangue tem o sabor de um vento que conduz os mortos, porque eu, cativado pela ilusão de ser criador, caminho com hábeis passos, adornado apenas pela boémia do bom bebedor. Tal e qual um patético malabarista, brinco com a alegria e a tristeza, a mediocridade e a nobreza, mas fujo da apatia que é não saber chorar. Tenho apenas um sorriso ingrato, esse que não conhece a pureza de viver sem amar a dor…
Chamam-me louco, mas não sou mais de quem se esconde por detrás de absurdos, de quem esgrima pela vida como um bruto e traduz amor por dinheiro. Se minto, é porque não quero que conheçam a minha alma. Esta, sempre foi rasgada pela ténebre elegância que o dia nunca quis ter…

VIII

Não! Não sei ser pacato… Desde que nasci que grito para que o universo saiba que estou vivo embora as minhas façanhas nada tenham que respirar o mesmo ar de outros. Afinal, porque deveria contar as mulheres que já aqueceram o meu corpo, as bofetadas que já levei na cara, as lágrimas que já fizeram-me cair? Todos temos sonhos que despertam o apetite, uma história de amor gravada numa árvore, apenas o peso da madrugada podendo fazer-nos adormecer. Mesmo assim, nunca saciamos o esquecimento porque existem aqueles delírios que actuam como fotografias desfocadas que nem o nevoeiro consegue imitar. Se certos beijos não nos interessam, tal é porque são demasiado frios para o coração, vagas impressões desconcertadas acabadinhas de sair de uma volúpia visceral que nos aperta o âmago. As melodias que criaram para nós acabando sozinhas, quase esquecidas, ondulando levemente rumo ao vazio…

IX

Apreendendo como véu a estranha conformidade da chama dançante, as figuras que formava na parede sendo tapeçarias de cores sombrias, sentia a tempestade como se fosse um eco revitalizador. A minha sede exigida pela inspiração nada significava além de um prémio que rugia em prol da arte. Todos os artistas moram à beira de um precipício e, se não caem, é porque há demónios a desejar vê-los sofrer…

X

Sim… Nesta noite de espelhos sombrios, provava um líquido que apertava menos o íntimo, que refulgia o meu querer com a vontade dos neurónios embriagados que nada de cansados ficam quando cobertos por uma insanidade temporária. Bem, chamar isso de insanidade e, ainda para mais, de temporária, é esquecer que o escritor resvala em sinuosidades nada benéficas para a harmonia. Pois, o artista que não sabe que é mais rico do que tudo o que o ouro poderá comprar, deve ser comparado a rosas já murchas e prestes a se tornarem cinzas. Não tem ideias apesar da grandeza da arte que lhe convém, segue os outros porque é preguiçoso e não quer lutar. Finge… Sim, finge que sabe muito mas não sabe inventar, não como, por exemplo… eu, que, quando bebo um trago desse delicioso néctar, assumo que a tempestade tem propriedades revitalizantes porque são os fantasmas que despejam as suas lágrimas numa terra encolhida pela evolução.

XI

Que acordem! O dinheiro não faz a alma crescer! É pálido, ignóbil, actua como vírus e mata qualquer sensibilidade. O que importa é saber sentir, criar, aprofundar o conhecimento, destituir a indiferença do seu trono. Fazer com que o sorriso volte a ter o seu lugar…
Podem pensar que muito do que crio é devido à perda de sanidade, àquela fragrância inusitada que se liberta de um certo copo e que me faz desenvolver um faro específico para procurar temas que têm a ver com o íntimo. No entanto, que outra enlouquecida propriedade além da inspiração ficaria bem a uma noite de tempestade em que a cidade ficou às escuras e só uma vela, uma caneta, um papel e um copo de vinho me separam do aborrecimento?

XII

Bem… Pondo de parte qualquer memória de manhãs adormecidas, cativado por uma sonolência conturbada, apago a vela e, querendo descansar de tudo, despeço-me.
… … … … … … … … … …
Adeus.

(texto que surge no vídeo-arte com o mesmo nome que fez parte da exposição "Toma-te o Vinho" concebida pelos "Mad Space Invaders" no IVBAM de 27/01 a 17/02.
Devido a ter quase 16 minutos, teve de ser dividido em duas partes de modo a poder ser visualizado no You Tube:

Uma tempestade num copo de vinho - Parte I
http://www.youtube.com/watch?v=vl-WUTQOPd8

Uma tempestade num copo de vinho - Parte II
http://www.youtube.com/watch?v=jRb6nQw2Z4I&feature=related

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

III – Tempestade

Escrevo-te num papel manchado pelo vinho, inquieto pela sofreguidão da ebriedade, conquistado por palavras que roçam espinhos, que deixam traços de luxúria e mistério na alma. Os pensamentos laterais correm ali ao lado, têm os cintos apertados, a luminosidade invertida, as bordas estropiadas e um olhar sem remédio. Aqui, onde estou, é tudo directo, até a flecha que me trespassa o coração, que me pede para deixar um mundo adoentado, que me ensina a ser teu. Sim, sou um tanto avariado! Tenho poesia como um pranto enlouquecido, o meu coração toca melodias envergonhadas, aqueles cenários de mistérios prometidos ao futuro mas é hoje que te desejo, é hoje que não quero que vás! Aturdido, deixo o papel voar arrepiado e tremeluzente, como sentinela de um episódio delirante. Tem as nódoas de um ontem em que a fartura se acostumou a rir. E eu… Encantado, contemplativo e cheio de versos arrepiados pela sedução, hesito em divagar ainda mais sobre a minha loucura. Afinal, a harmonia é demasiado nobre para ser incomodada, e tu… Serás sempre parte da minha frutuosa devoção. Jorge Ribeiro de Castro Declamado pela 1ª vez a 16/02/12 na sala de exposição dos "Mad Space Invaders" no IVBAM

II- Incendiado

Que não me colem às coisas mundanas! Não sou espelho triturado pela hipocrisia, patético manjar dissimulado pela inquieta simpatia, qualquer convicção desgastada pela rude altivez. Sou somente um grito confuso, um estropiar libertino da tranquilidade, a ousadia de correr por terrenos enevoados, a necessidade de sorrir quando o sol adormece, a viajem de todas as personagens desamparadas, a urgência de criar no que antes estava em branco, de ridicularizar o presente com o abrir de asas. Não, não é para fugir! Não é para remeter a esperança ao mundo da cobardia, para me rebaixar ao nível da discórdia, para me lamentar dos dias de chuva em que a solidão me abraça, para chorar a mágoa traduzida em devaneios ou ser uma ingloriosa nota de rodapé na memória de uma dama. É apenas para não me deixar morrer, apenas para que não se diga: “Ela voltou e o poeta já tinha deixado de viver aqui…” Jorge Ribeiro de Castro Declamado pela 1ª vez a 16/02/12 na sala de exposição dos "Mad Space Invaders" no IVBAM

I - Perfume

O vinho, caros visitantes, é o capataz desta obra, a cortina de veludo que nada esconde do coração. Se não sou de promessas, por tudo em mim serem dissonâncias, a verdade é que as minhas palavras, arrepiadas por uma venenosa devoção, aquela de tapetes carcomidos pela terrível virtuosidade de querer apagar o passado, têm a doença de não conseguir esquecer a saudade… Ontem, escrevi o que a alma pedia mas não foi isso que me fez tremer. Foram os olhos dela que acariciaram a minha alma, a febre que o meu coração quis seduzir, todas as carícias que o meu corpo se lembrou. Hoje, caminho embrenhado nas névoas da entoação, tento abusar demasiado da serenidade, sorrir pela grandiosidade que anseio ter, a solenidade de um devaneio que me remeta à luz. Dizer ao dia: “Nunca de um outro me esquecerei…” Sabem… Diverte-me saborear os embaraços dos maldizentes, responder com bom humor aos reparos dos quase caídos. No entanto, satisfaz-me muito mais a paixão sem pudor, cortejar a boémia que o momento inquieta, Dizer à noite: “Se vivo, é pelo mais grandioso calor!” Jorge Ribeiro de Castro Declamado pela 1ª vez a 16/02/12 na sala de exposição dos "Mad Space Invaders" no IVBAM

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Se de mim parte aquela ansiedade por movimentos e gargalhadas, se de mim ruge aquela investida de carvão e sombras, se de mim estende-se a prosa desmaiada e a poesia caída, qual será o momento para alcançar o êstase, preferir um mundo onde a dor não conheça a minha alma? Talvez nunca... É preciso sofrer e ser louco para a bela arte criar...
- Porquê estás aqui?
- Porque é que um rio começa numa nascente? Porque é que a terra se abre para a água? Porque é que o sol aquece o nosso corpo? Porque é que as aves voam em sintonia? Porque é que as nuvens deixam-se levar pelo vento? Porque é que o sorriso de um bebé nos alegra? Porque é que a adolescência nos faz cometer tantos erros? Porque é que a velhice é por vezes venerada e outras vezes renegada? Porque é que dormimos melhor quando não temos problemas? Porque é que os sonhos nos fazem acordar cansados? Porque é que podemos dar uma volta ao mundo para conhecer tantas maravilhas e mal conhecemos o nosso vizinho? Porque é que o dinheiro é tão importante quando deveria ser a doce melodia da Natureza a nos inspirar para um melhor dia?
- Não entendeste... Pergunto porque é que estás em frente à entrada da minha casa desde a noite passada?
- Porque o frio não me importa. Porque não conseguiria dormir mesmo agasalhado na minha própria casa. Porque o meu coração arde desde o nosso primeiro beijo, aquele dado há tantas semanas atrás numa noite de euforia. Porque sei que hoje vais embora para longe e eu não conseguiria viver sem te dizer que te amo.
Hoje, colo-me à turva dimensão de um desconforto impertinente em que vagueia uma lágrima desvirtuada. Não brilha! Não geme! Apenas deambula por um recinto incolor e ri-se de todos aqueles soluços que me enfraquecem. A noite sujeita-me à provação, à banalidade que é estar sozinho, ao ilustre perfume que é estar cansado, ser uma alma querida que tem muito de reles... Hoje, tentarei guardar o coração nos sonhos...
Tenho o direito de adormecer, de querer viver séculos atrás, de me afastar deste momento, de sorrir sem que haja qualquer sombra a esfaquear...
Há que ser um poeta que gosta de esconder o que é, debaixo de máscaras tão brilhantemente engendradas, que nunca ninguém saberá que o romance se esconde debaixo de um olhar perdido e a tragédia se esconde debaixo de um sorriso tremido.
Nem tudo o que eu digo é a verdade! Escondo-a tão bem por detrás de um sorriso valente, rio-me da proposta que é mostrar o que é um belo sonho quando não estou contente, faço um drama da apatia, mostro que sou simpático e louvo o vento como se fosse a mais maravilhosa melodia e, no entanto, sinto que estou debaixo da terra, não muito confortável mas no meu espaço, onde desejo que apenas os sons menos ríspidos cheguem, ansiosamente esperando por aquele momento em que me tirem e me digam que não vale a pena lamentar, não vale a pena chorar, não vale a pena dormir para a vida! O que vale a pena é sorrir porque é a Arte que nunca deixa de me amar!!!
Há que haver aquela graça que nos seduz a repelir todas as sombras que nos fazem mal. Apenas as virtuosas solenidades que enlouquecem é que merecem o nosso sorriso!!! ^_^
I'm not here to be stable! I'm here to let a dark poetry slip from my veins and impress reality with a different kind of lunacy!!!
Há algo em mim que se parte a todo o momento... Talvez seja a lágrima já gélida que se solta lentamente porque o coração ainda quer bater.
Tudo o que já fiz, tudo o que faço e tudo o que farei são fragmentos da minha alma que brilham... embora não brilhem da maneira a que a vossa alma está acostumada a perceber.
Há sempre um sorriso à nossa espera quando nos olhamos ao espelho e a alma quer voar além de todos os obstáculos que surgem. :)
Tenho uma grande dificuldade em ser directo... Avanço pela narração como quem caminha por diversas sinuosidades sem alguma vez descansar, se gaguejo é porque encontro algo que não estava à espera, uma altura deveras insinuante que me diz algo mais do que estou a descrever. É como quando nos sentimos inebriados por uma certa bebida ou vemos um ser muito especial à nossa frente e o cérebro desliga-se da matéria. No meu caso, tento sempre ter o meu "espaço" mesmo quando estou fora do meu quarto. Não digo que seja sempre mas é bom quando o barulho que ouvimos não nos impede de ter uma certa harmonia. Não digo que seja aquela que muita boa gente conhece, afinal, a minha harmonia tem laivos de loucura. Isso talvez seja porque se me entendo como louco é porque me faz bem. Afinal, não tenho qualquer vontade de deixar de escrever aqueles textos menos.... hum... comerciais só porque dizem que assim não ganho dinheiro. Bem, para quem não sabe, eu tenho trabalho e ganho dinheiro! A escrita é para mim um grande prazer e isso só mudará quando não tiver a liberdade de escrever sobre o que sinto que tenho de escrever... ahhh O_o ufffffff
Nunca serei igual ao meu passado! Enlouqueci demasiado para voltar a ser tão inocente...
E enquanto me dizem para ficar, desligo-me da fala, rasgo a minha carne com o olhar, solto aquela lágrima que nunca quis conter, sorrio por conseguir silenciar os desafortunados lamentos que me tornaram aberrante. Afinal, sou uma verdade que nunca soube que era mentira...
Sim, sou eu, aquele que está estupidamente perdido para o dia! Talvez eu seja um poeta que adora a noite porque há sempre aquela luz enigmática que ilumina o pensamento, aquele romancear bravio que descarrila a segurança para além de quaisquer andanças sobre as belas nuvens que não tremem. Sinceramente, gosto quando elas, velozes e sombrias, permanecem no hemisfério divino dardejando volúpia, sucumbindo áquele crepitar de chama estonteada que sorri por ainda não ser alvorada. E eu também sorrio porque, com a noite, sou mais do que um zé-ninguém! Ah que tenho em mim os sonhos pela loucura conduzidos enquanto deixo a imaginação febril matar o aborrecimento com pesadas estocadas. Não! Não me levem para a cadeia pois o tédio é a dor da alma e nada melhor do que enriquecer com a descoberta daquelas belas paisagens enlouquecidas. Afinal, a vida é mais do que todas as joias e metais preciosos que se possa ter e preferia ser pobre se só assim pudesse libertar a alma! Ahhhh Quero lá saber o que o povo diz! Que se segure à luz do dia, que vá pelo mesmo caminho, pois eu vou pelo meu porque, se sou assombramento, o descarrilar de terra nas montanhas do pensamento, vivo mais por mim, pelo que penso, sinto e escrevo... Sim, vivo mais pela Arte cuja magia não tem fim!!!
Tive um dia alucinado e, por isso, estou demasiado cansado para escrever qualquer coisa de jeito... A verdade é que hoje caminhei sobre brasas, sustive a respiração devido ao fumo, gritei com o raio dos trabalhadores que estavam a arranjar a estrada pois quase que ficava surdo devido ao barulho das máquinas e até tropecei num pedregulho maior que talvez tivesse sido deixado de propósito para me chatear. Claro que cai e magoei-me, tendo quase de ir para o Hospital devido a várias escoriações!!! Caramba! Até parece que me ouviram a discutir com o dono do bar da esquina!!! Tenho lá culpa se foi eu que arranjei o abaixo-assinado de modo a alcatroarem a rua onde vivo e, enfim, tal aconteceu no dia de aniversário do dono??? Era preciso ele obrigar-me a pagar a minha dívida antes de lhes vender as cervejas que queriam???
- Alto aí! Quem és?
- Sou apenas um aventureiro que não se mantém por ninguém!
- Se vens aqui tens de te submeter à lei deste lugar!
- Então volto para trás e vou por outro caminho!
- Custa-te submeteres à lei? ...
- Sim!
- Porquê?
- Porque nunca estou do lado dela! ~
- Então, isso só pode significar que és um criminoso! Estás preso!
- Não, não o sou! Sou apenas alguém que idealiza mais do que outros!
- Não segues a lei, então só podes ser um criminoso. É tão fácil saber isso quanto se sabe que sem comida e bebida ninguém sobrevive.
- Sou um filósofo. Isso é ser criminoso?
- Sim, é, quando não se segue a lei. Mas diz-me... Porquê é que te custa isso?
- Sou um príncipe! Vivi rodeado de patetas, capangas da sociedade normalizada por regras insensatas, machos e fêmeas de índole submissa que não sabiam o que é seguir um caminho sem ter outras pessoas à frente. Que me importa estar numa carruagem de idiotices se eu, a luz cicatrizada, tenho ideias que vão além do que acham certo? Se me ordenarem algo que não está em conformidade com o que penso ser certo, grito: "Onde é que está a justiça?" Se me pedirem sangue, esmurro-lhes até sair do seu corpo esse líquido precioso. Se me pedirem dinheiro, faço um furo nas suas carteiras, ponho-me a contar as moedas e enfio-lhes na boca. Se me pedirem a minha terra, cavo uma cova para eles, tendo o cuidado para tapar cada oríficio do seu cadáver. Como ser pensante, ovelha de ninguém, faço o possível para fazê-los cair, beijar as minhas botas como bons escravos que deverão ser. Se tiver necessidade até poderei verter na sua boca a água que se guarda dentro de mim. Afinal, se se afogarem não me importo, o importante é que seja eu o último a morrer...
- E porque pensas que não morrerás primeiro? Ah, maldito! Por tudo o que disseste, estás pr...
- Oh ser desafortunado, porque a minha faca encontrou o teu pescoço...
Sou demasiado funesto para o sol! Tenho aquela desgraça bem disfarçada que é sorrir mas, por dentro, queimo a alma com os ácidos tão necessários à minha arte, aqueles devaneios vomitados de um qualquer negrume estupidificante que muitos podem não entender mas que afunda qualquer comentário menor com que possam vir. Afinal, imagino demasiado as patetices e irreverências de qualquer solitário que, tal como eu, pouco se importa com o palpável quando é nos sonhos que mais se mata. Sim, também se cria, tem-se aquela vontade de não se deixar de lado a Primavera, mas é quando ninguém nos pode ver, ouvir e tocar que nos sentimos livres. E eu, saído ainda há pouco de um sono reconfortante, comecei a sorrir quando me lembrei que tinha acabado de destruir um universo. Se sou culpado? Ninguém me poderá incriminar pois são apenas palavras, certo? Não há testemunhas, não há provas, não há nomes, não há sequer a certeza de que esse universo tenha alguma vez existido! É tudo a minha imaginação ou se calhar sou apenas um louco, certo? Um escritor... Um louco... Ah! Tão bom ser de ambas as coisas um pouco, poder isto fazer e aquilo dizer sem nada temer! Por isso, sorrio, esfrego as mãos e anseio por mais um sonho. Talvez nesse possa sentir a carne de uma vítima, talvez tu que lês, ser rasgada pelas minhas mãos, beber um pouco do seu sangue, pintar-me de outra cor... Gritando, talvez dê a conhecer que não é o crepúsculo que tem força, que não é a súplica que desarma mas que aquela fatalidade de estar aborrecido, nada mais ter para fazer, impulsiona a minha mente a desvirtuar a normalidade. Impregnado pelo fétido odor da morte, serei carrasco, assassino, vampiro, um delirante adivinho que se espalha como febre por sonhos assombrosos e de certeza que todos os esqueletos daquelas pessoas que já matei dançarão à minha volta. Afinal, ser rei, senhor dos meus próprios sonhos é uma maior alegria do que todas as irritantes blasfémias, errantes tonalidades e afogadas esperanças, que surgem nesta realidade.
Ser de uma lágrima e de um sorriso, ter aquela gentileza divina que as nuvens tão bem conhecem, deixar o coração bater mais rápido, a alma dançar apaixonada, rasgar o tédio ouvindo o vento cantar, pedir que brilhe para mim aquele delicioso luar, consentir a liberdade de uma chuva miudinha, reconhecer que sou um conquistador mas que sou também um conquistado! Oh! Ser poeta afortunado, embora por vezes escreva os sentimentos entorpecidos de um naufragado, levantar-me boémio e triunfante, repetir cantigas sem reparar nas virtudes, envolver-me numa carne deliciosa sem me importar com o desfecho, gemer enlouquecido por saber que a felicidade está tão perto, que tudo o resto nada importa, é um deserto, o paraíso iniciando-se com o primeiro beijo que aquela que amo deu a mim! ♥
Hoje, consegui um sorriso! Só precisei de incendiar a alma com um pouco de encanto, dizer àquela dor de cabeça, que tanto já me aborreceu, que hoje não me interessava para nada, apertar as bochechas para que ficassem avermelhadas, esfregar os lados do nariz com os dedos indicadores, saltar durante meia-hora, correr quinze minutos, fazer algumas flexões que quase me arrebentaram os braços, fazer uns ...abdominais que quase fizeram com que a barriga se encostasse às costas, cantar um misto de ópera e death-metal (nada de death-core... só se for death-pera), sentar-me e tocar a minha bateria imaginária durante uns vinte minutos, levantar-me e fazer headbanging, depois, claro, veio a vénia, o vento, a chuva, a roupa completamente molhada, o fugir para casa de modo a tomar um banho quente e mudar de roupa, o deitar-me na cama, abafar-me com o lençol e cobertor, o tentar dormir, o conseguir dormir, o sonhar com bobos da corte, cavaleiros, damas e dragões e... Bem, já riram? É que agora é a minha vez de sorrir... :)
Não me importo com o estado das coisas! Há sempre diamantes que reinam acima das futilidades, glórias que se espalham além das dores, vontades que brilham sem convidarem a negritude de tudo o que magoa o coração... Por isso, vou-me daqui e desenharei um sorriso nas nuvens para que todos saibam que sou feliz! Talvez assim já não me atormentem com comentários excessivamente absurdos e os meus olhos já não conheçam as lágrimas.
Sou, seguramente, tão estranho quanto a chuva que aparece logo após o sol se esconder... Tenho aquele jeito tão especial de escrever algo que transforma uma folha em virtuosidades enlouquecidas que fazem as dores de cabeça parecerem brincadeiras no jardim do paraíso. Aquele onde os outros dois não existem, onde a Natureza é brilhante, a fulgurosa majestade de uma música que ludibria a alma e sacia a solidão. Pois... sou tão traquinas que, ao passear pela floresta num dia de Outono e ver, ao longe, dois montes, imagino... as reconfortantes ondulações que o mar dá a todos a conhecer e aquelas outras com que a minha amada me presenteia. E, se me deixo levar pelo seu toque, é porque não há maior glória do que sentir o seu amor, a radiosa alegria por saber que, podem vir sombras, tormentos, maldições e a mais desprezível nostalgia, tudo isso desaparece ao descobrirem que, se sou dela, minha ela é! O mundo não importa, o tempo muito menos, a vida é um grão de poeira nesta magia que nos abraça, a elegância de uma maravilhosa verdade onde o sorriso é a a nossa pátria!!!
Com muita pena digo que não sei o que dizer!!! Sim, por vezes isso acontece e esses são momentos em que o melhor a fazer será dormir, esquecer a vida e sonhar ou... hummmm talvez deva ficar acordado e brincar com a mulher que já marcou o meu corpo. Pois, a vontade de soldar a carne é uma riqueza que se quer profunda e nunca disseram que eu detestava cavernas! Aliás, adoro esse beijo que abre comportas, que ambiciona gritos e façanhas, que rasga tempestades e manhas, que desmancha a palidez e blasfema contra a languidez! E, no entanto, perco-me em demasia, regido pela convição de que a luxúria é uma porta para a sabedoria e que eu, poeta inusitado, trago fúria como bálsamo, alegria como penhor e a agradável esperança de que o tédio já não me tenha amor! Porque tudo isto é monotonia e eu, ávido e sem melodia, um planger cacofónico, uma ruidosa devoção, embriagado por frases sem qualquer apetite, a insolência bucólica que desprestigia as cidades... sou um trago de escuridão! Não tenho maldade, sou apenas o que podem considerar um dos terríveis que pensa e sente, convence e desmente, pondera sem alguma vez estar contente e... Basta!!! Implacável, deixo-me dessas dores pois, vez ou outra, estas surgem como espadas e espinhos, negros rochedos e desavergonhados labirintos que devoram a alma que não tem luz. Talvez deva pedir que a chuva caia e banhe este recanto amaldiçoado pela sociedade que me entorta os dedos, enlouquece a alma e desvirtua a poesia com a pujança de um olhar infernal. Pode ser que assim relaxe o suficiente para que a vida não me aborreça e acabe a noite sem a condição que todos querem que eu tenha. Aquela que é ser... normal.
Conto-vos uma história mirabolante de um extasiante malabarista que usava roupa extravagante e maquilagem brilhante. Este, vez ou outra, dançava com garrafas, bolas e taças sem alguma vez as deitar ao chão. Umas continham vinho, outras ar e as últimas cerveja. Não sei de qual é que gostava mais, no entanto, não passava uma noite sem que dormisse com a mulher que amava. Sim, eram sonhos a pernoitar na sua cabeça porque o malabarista, tão cansado estava de trabalhar todos os dias para ganhar uns trocos que nem sequer tinha tempo para cortejar. Assim, ganhava dinheiro de dia fazendo os outros divertirem-se e divertia-se à noite como se fosse isso o mais belo viver. No entanto, pouco antes de acordar, o extasiante malabarista tinha sempre aquela lágrima que é saber que era tudo um sonho, que a mulher que amava não estava mesmo ao seu lado, que o dia iria começar e, com ele, a máscara que teria de usar. Chegou o dia em que, tão velhinho e cansado, foi para o céu. Aí, todas as pessoas que se tinham alegrado com a sua arte, e que já tinham ido para esse lugar, se alegraram ainda mais porque sabiam que iriam ter a companhia do extasiante malabarista. Este alegrou-se muito mais porque sabia que a mulher que amava, e que o amava também, estaria consigo para toda a eternidade.
Na tua cor faz falta o sangue, faz falta a vela que na alma seja ardor. Sou, de resto, o menos importante quando és tu que cais latejada, a sombra rindo por mais uma alma desanimada e um pobre que padece da perda que é já não ter fervor. Talvez me agarre à noite, talvez uive todos aqueles lamentos que imperam na minha alma, para que haja um sorriso, um breve momento de perdição, que me traga o paraíso e não me deixe em maldição. No entanto, se eu continuar a ser um poeta caído, que bravura encontrar nas palavras toda a loucura que exalte o ébrio enfeite, que transpire a luxúria desta carne que se mete num lugar tão perto do coração!
Chora leve, amargamente, como se concordasses que não sou daqui. Suspira, atormentada e carente, fabrica as lágrimas que não sentes em mim. Talvez este sorriso seja preciso numa noite maldita em que a dor é mordida e sente a bravura do meu calor...
Apetece-me discorrer sobre a vida, quebrar em milhentos pedaços todas aquelas sombras qie fazem cócegas, até começar a planar sobre as dúvidas que riem. que riem? Sim, elas bem sabem o que me faz pequenino. Pena é que não sabem que o sarcasmo nasceu comigo. ;)

Por caminhos arcanos errei - 4º livro - Vídeo

sexta-feira, dezembro 30, 2011

4º livro - "Por caminhos arcanos errei"

Este é o meu 4º livro. Um romance de mistério/suspense/​erotismo/tragédia cujo enredo desenrola-se no final do séc. XIX num castelo alemão. Um jovem inglês procura conhecer os descendentes da família Wolkesnacht, separada da sua devido a atritos entre dois irmãos no séc. XVIII. É agraciado pelo encanto e o amor mas descobre um segredo que melhor seria nunca ter sido conhecido. É editado gratuitamente em formato e-book ( http://www.mediafire.com/​?aqz6cgpiq9b6u5p ).

quinta-feira, setembro 08, 2011

Vídeo do livro "O cortejo das virtuosas solenidades"

O download do livro "O cortejo das virtuosas solenidades" pode ser feito em:

O meu 3º livro, O cortejo das virtuosas solenidades", disponível como e-book gratuito. São 8 contos sobre romances e tragédias, mistérios e descobertas, sonhos e pesadelos, inícios que são interessantes, meios um tanto estranhos e fins que dão meia pirueta estrambólica. A quem desejar ler algo que acompanhe bem a manhã, a tarde e a noite (a madrugada é por vossa conta...). http://www.mediafire.com/?v3b6d75usc4r1zb

O meu eco para além do vento (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Penava pelos acontecimentos do dia enquanto caminhava… Este sabia-me a amargo, o esvair de dúvidas a cada passo, a solidão esmagando o sorriso, o brilho da harmonia sendo um fogo por queimar pois acariciava-me uma cegueira imperdoável, um coração sem eco. Não me sentia feliz pois se a vida me quer bem tem um jeito tão estranho de o demonstrar. Já estava farto de ter apenas contas a pagar, do cansaço que se apoderava do corpo sem desejo de o fazer dormir, daquela insonsa melodia que dizia à alma que mais valia estar morta. Não tinha um emprego a tempo inteiro e sei que mal me alimentava mas desejava dar a conhecer o que surgia do meu íntimo o mais depressa possível, as horas passando quando não trabalhava porque a escrita era aquele lampejo de sanidade que me distanciava do sinuoso trilho que é ter uma facada no coração. Aquela dor que só surge pelo facto de já não haver um amanhã que valha a pena…
Que faria aos minutos se estes se compunham de desprezíveis momentos em que a inspiração e a imaginação tardavam, os meus suspiros sendo apenas cansadas banalidades? Talvez nada mais do que desenhar no vazio com as palavras que o tormento faz cair…
Este era mais um dia e apenas um livro e uma capa com alguns dos meus escritos na mão esquerda perfaziam parte da pouca riqueza de que me podia orgulhar. Pretendia desanuviar, esquecer todo o mal que me tinha acontecido, e que, se não é uma maldição, é uma tragédia que a poucos acontece, talvez devendo sentir-me orgulhoso de ter algo mais para dizer do que contar as lágrimas que caem.
A esplanada a onde ia habitualmente não era luxuosa mas tudo que a rodeava fazia parte de um todo que muito me interessava; duas margens de uma mesma realidade que detinham magia e loucura. As pessoas e os seus hábitos peculiares, um jardim com frondosas árvores pintadas com as cores garridas da Natureza, os edifícios gritando ruína como se houvesse aquela necessidade de apagar o que era belo e criar uma outra beleza, esta mais fria, mecânica, sem qualquer encanto que a alma pudesse louvar.
Para quem ainda não sabe, tinha já escrito contos… Alguns tinham sido publicados numa revista de segunda categoria que poucas pessoas liam. Preparava o meu primeiro livro, um romance sobre o desespero que é vivermos para nós próprios, a interacção com o vazio, a confluência entre a sombra e a escuridão, talvez como a minha vida, talvez aquilo que era e o que ainda podia ser.
“Eram paredes de mar salgado que tingiam o meu caminho… e tudo o que me deixava contente estava no passado… as sobras de uma manhã sem abrigo…“
Enfim… Os meus passos eram de uma tal nostalgia que apenas me alegrava o facto de estar sentado perante um café e poder traçar o papel com uma caneta, desenhando no vazio com o que de mais valioso, ou não, podia traduzir da alma. Como alguns, a minha inspiração também surgia dos sonhos e apesar de, por vezes, sentir que tudo estava bem, os que tive em criança, de tão ridículos que eram, ainda me doíam. Isso talvez porque a solidão ainda me magoava, o facto de ter caminhado por vários anos muito bem acompanhado sendo a beleza que agora me faltava. Infelizmente, o inclemente desespero surgiu e o Tempo soube mostrar-me o que é ter de viver demasiado cansado sem o desejar.
Apesar de ser tão normal quanto os outros homens já me fartava ser palhaço nesta vida miserável em que a ruína é uma praga envenenada que dita que já não posso mais sorrir, em que as dívidas parecem ser gotas de angústia que retalham o meu aspecto franzino, a resposta a uma lágrima já sem sabor que corrói o íntimo… e tudo porque sofrer é uma arte.

A rosa e a madrugada (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Apesar de o dia já ter fenecido, de os ramos das árvores bailarem irrequietamente e de a chuva banhar a terra de forma perturbante havia certas circunstâncias que me faziam bem.
O facto de estar dentro de uma sala e ter a vibrante sensação de abrigo, uma esperançosa fuga para além de todo o dramatismo criado pela tempestade. A luz de vários candelabros dispostos em locais estratégicos que parecia saudar-me com a boa aventurança que apenas o requinte de um certo romantismo poderia elevar. Por último, observava uma formosa mulher de cabelos louros e olhos castanhos que se distanciava da agreste envolvência da Natureza e regia o ar com deliciosas figuras estilísticas, a voz e o piano discorrendo sobre cenários de belos tons onde tudo o que era sublime transmitia serenidade.
A sua voz soava como a mais doce melodia de um anjo, a alegre sensação de cortesia perante a suave pintura de sorrisos e expressões de riqueza num véu de sensações inebriantes. Mal a tinha visto e já me sentia seduzido pois cantava uma alegre composição enquanto os seus dedos desenhavam contornos harmoniosos nas teclas do piano, tal sonho de moradias esfusiantes onde se regista a sensação de conforto. Não me lembrava de alguma vez ter ouvido tão majestosa obra mas tocava-me o coração conhecê-la e à sua intérprete, sentindo-me como se não houvesse um outro recanto que merecesse tal divina iluminação.
Parecia-me feliz, a sua expressão levando-me a sorrir, a desejar viver a sua alegria com as palavras que somente a concordância entre artistas poderia disseminar. Sim, também eu o era embora tocasse um instrumento cujas cordas tinham outro dinamismo.
O violino sempre foi o meu instrumento de eleição, os sons que dele se podia tirar tendo a liberdade de criar alegria ou tristeza, serenidade ou raiva. Sem pudor, dizia sempre que este elevava a alma a um recinto impermeável a todas as propriedades que a crua realidade poderia invocar. Além disso, havia maior liberdade para um artista por este poder tocar as mais belas peças mesmo sendo um andarilho sem casa.
Longos momentos passaram e tudo o resto parecia distante, a voz e o piano sendo figuras impressionantes num recital que não precisava de qualquer outro interveniente. Sentia-me feliz por ser um espectador, poder ser contagiado por tudo o que dela era, considerando uma honra estar perante tão grande nobreza e não desejando estar em algum outro lugar ou momento do que esse.
Sendo conhecedor da frutuosa emancipação que reveste o espírito, a minha ousadia pelo devaneio rasgava também este momento. A verdade é que o íntimo pode aprender com a harmonia a ser altivo, a libertar delicadeza atrás de delicadeza mas, mesmo assim, o que nos atrai também pode consumir o conforto quando existe uma certa conformidade com o que de mais trágico a Natureza concede. Ao silenciar a voz e o piano, o seu choro foi também a angústia no meu peito…
Abrindo os olhos, senti um aperto que me constrangiu e deixei as lágrimas escaparem, a minha face sendo banhada pela mesma dor que cortava a serenidade em tão divina mulher como se tudo o que me apercebia nela encontrasse eco em mim. De modo a que se sentisse um pouco melhor, decidi-me a tocar uma rica melodia no meu violino, uma forma de mostrar que existia algo mais do que a importância dada à mágoa. Primeiro, a sua expressão teve laivos de surpresa, depois aproximou-se da confusão e, finalmente, de um certo arrepio.
– Charles?! – disse, espantada – Charles, és tu?
Não me conhecia por tal nome. Aliás, não havia nome para mim mas deixei de tocar e, após colocar o violino e o arco em cima de uma mesa, aproximei-me dela.
– Não pode ser!!! – gritou, uma expressão de incredulidade desenhada na sua face.
– Desculpai-me, bela dama, mas não conheço quem me julga ser. Infelizmente, não me lembro do meu nome.
– Sou… Mas… não te lembras de mim? Mas… Não pode ser! Charles! Sou eu… Béatrice… Mas… isto é impossível… Charles não mais existe… está… morto…

Tenho um sonho como consorte (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Acordei para um outro momento e parecia-me ter visitado séculos de que ninguém tinha memória, um sono com o louvor de jardins encantados onde pintar a fome, o desejo de cortejar as paredes da harmonia e do descanso com os olhos fechados, a cor de outrora sendo um ligeiro bem-estar que reluzia os lábios com o sorriso. Já não me lembrava de quando tinha dormido assim tão bem, o corpo conhecendo os trejeitos da mais viva substância onde não havia qualquer dor, os meus passos sendo tão leves quanto o ar, a alma insuflada pela alegria de ser este o mais maravilhoso dos dias que a minha jovem existência conheceu.
Iria-me casar… O belo homem que tanto seduzia cada sinuosidade da minha condição de mulher e me elevava o espírito a ser inundado de luz, sendo pródigo de uma arte tão maravilhosa que poderia dá-lo a conhecer como um anjo que o mundo viu nascer. Assim, com toda a vaidade elogiava os seus actos como sendo os mais próprios de quem sentia a riqueza que é lutar por sonhos e vê-los concretizados. Ele era a epítome de quem eu tinha sonhado para meu esposo…
A minha felicidade era tão grande que nem me importava que a inveja levasse certas pessoas a pensar que o estatuto que ele tinha me dava a inaudita sensação que inflama. Eu e o meu amado éramos mais do que elas poderiam alguma vez sentir pois o amor que nos conduzia era a divina concepção materializada em solo mortal. E alegremente vivia, a liberdade de traduzir o que de pitoresco inebria a Arte sendo as formas mais doces e luzidias de agraciar a vida com um valioso requinte.
Oh, não é por dizer isto que se deverá achar que me sinto mais do que todos os que aqui vivem! Apenas verto tamanha felicidade por as ricas cores pintadas no meu ser serem cenários incandescentes que surgiram com o mais elegante verbo que o linguajar acariciou. E assim elevo a minha voz a pronunciar que hoje é definitivamente o dia mais belo de toda a minha vida! Apetece-me dançar, cantar, sorrir e rir como se louca fosse porque louca me sinto de tão verdadeiro é este sentimento! Estaremos finalmente unidos ao fim do dia pela mais bela das poesias, o entoar do verdadeiro perfume que embevece a felicidade.
Sim, hoje o meu sorriso é dos mais sublimes que já tive e se não me importam as manhãs de outros dias em que olhava para o verdejante horizonte da propriedade pertencente ao meu pai, é porque todas elas tinham uma riqueza menor. Mesmo assim, antes de o meu escolhido ter-me dado a conhecer o seu encanto por mim todos os outros momentos tinham uma riqueza ainda menor e, estes, menor ainda do que a ocasião em que fez valer o desejo de se unir a mim para além da alma e do coração, a ponte mais íntima que apenas o matrimónio poderá suster.
Ah, tenho a louca vontade de gritar que tudo farei para que os momentos que surjam sejam ainda mais belos, nada de desencanto nos levando a guardar as sombras como paródia de outros sonhos. Essas, torpes nuvens baixas onde a melancolia ensina a viajar, já não farão parte da minha vida pois este dia, o mais belo de todos, terá ecos de louvor em outros momentos porque eu e o meu amado uniremos as nossas vidas e toda a magia que o amor celebra fará parte de nós. E, como o sonho está prestes a ser concretizado, sinto-me cada vez mais forte, rica, uma sede e uma fome insurgindo-se pelo meu ser como se apenas esse momento fosse o mais divino. Afinal, será conhecida a chama que o corpo de cada um possui, reparando qualquer mal que possa ter surgido com o desejo e a privação.
Sentindo-me carente, caio outra vez na cama e, tocando o meu corpo com aquela vontade que tão bem conheço, sinto já as suas mãos a fazerem-me sentir um ávido ardor, a presença de uma arte que enfeita o que é ensinado pela luxúria, as contorções de um glorioso prazer deliciando-se com o que é sublime. Deixando-me sorrir, recordo os seus beijos vibrando pelo meu pescoço, tal poética espalhando-se por mim como as ondas que o mar conhece, aquela suavidade que traz ao corpo fortuna.

Um brilho incerto em meio ao pó (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Muitas vezes desejei ter nascido num outro lugar, num outro tempo e ser um homem livre que regesse o seu próprio destino. Outras vezes desejei que a divina essência se tivesse esquecido de entregar a minha alma a este corpo pois, por um odioso azar, sou fruto de um país envolto em singulares perdições tais como a negligência, a imoralidade e a guerra.
Nascido em meio a uma nobreza escondida pela bafienta cortesia, a meu ver o doloroso naufrágio de todas as virtudes disfarçado pela sumptuosidade, ensinaram-me as odiosas maquinações e pérfidas acções que enrubesciam os vitoriosos feitos de outrora. No entanto, essas detestáveis proezas não tinham qualquer mérito pois se o sangue de inocentes mancha um reino então o amaldiçoa para todo o sempre. E porque quereria viver amaldiçoado? Sem qualquer medo, digo que preferiria ter nascido numa rocha qualquer do que neste lugar tão verdejante onde nem a chuva ou o vento conseguem as nódoas limpar!
Após tantos anos, ainda penso o quão aviltante é a menção de que um simples pedaço de terra, ou uma honra maculada pelo egoísmo, possa ser mais importante do que o surgir da bem-aventurança, a cura para aquela miséria que é não ter melhores sonhos para sonhar. Afinal, que proveito traria à alma assassinar homens e mulheres, crianças e velhos, se o seu sangue tinha tanto valor quanto o nosso? Como seres dados ao sentimento e pensamento, vivemos o melhor que podemos por um determinado tempo, tal não devendo ser conspurcado pela cáustica doença de outros. O pior é que essa doença fazia os menos elevados em matéria de justiça a julgar-se de maior préstimo em tudo quando, a meu ver, por serem tão menores nem a uma larva poderiam ser comparados.
Passo a explicar… Apesar do que se considera correcto, a vida não é feita apenas de luz. Enquanto certas pessoas, estas detestáveis e arrogantes, não sentem a frieza da fome; outras, de menos sorte e maior virtude, têm de penar com o pouco que lhes é dado pelo fruto do seu trabalho. Da minha parte, e sem deixar de sentir um nó na garganta, tive o desprazer de conhecer certos aristocratas, donos de propriedades rurais. Se o maior requisito para a desumanidade é se considerar superior a quem provém das classes mais baixas, então posso dizer que tive a boa fortuna de não advir delas porque a tacanhez e a arrogância vestiam detestavelmente esses nobres. Se não fosse filho de um rei, um déspota que ridicularizava qualquer moral, de certeza que seria tratado como subalterno ou seja, um mero farrapo que só serviria para limpar o chão.
Sendo o mais novo de três irmãos, era diferente em diversas atitudes. Desanimado pelo que via e sabia era, infelizmente, sujeito a agir de determinada maneira devido a um nome e a um posto. Não me lembro de haver um segundo em que o verdadeiro sorriso tocasse o meu âmago tão grande era o peso de ter de viver consoante determinados requisitos. Como príncipe, a minha vontade era limitada, pois se afirmasse o meu descontentamento haveria quem dissesse que a ingratidão formava o meu ser, e tudo o que eu era não mais existiria. Isto como se apreciar os benefícios da Arte e desejar o bem a todos fosse um perigo para quem detinha o poder.
Foi através da minha mãe que descobri as maravilhas que existem além do toque funéreo das espadas e do asqueroso manto da depravação. Assim, comecei a apreciar a literatura, a música, a pintura e a escultura, uma grandiosa proeza que está longe de qualquer princípio passível de envergonhar o espírito. Não passava um dia que não escrevesse sobre os terrenos incongruentes das diversas realidades a que estava sujeito. Aquela que tinha de vivenciar, aquela que era dada a conhecer por outros e aquela com que sonhava. Sim, foram duros os anos em que a minha juventude viveu atormentada por ásperos toques mas sobrevivi pois, sendo a noite o meu único momento de sossego, conseguia desbravar de forma mais convicta essa riqueza que ia além do sangue.
Nesse espaço de tempo que devia ser o belo florescer de tudo o que se aprimora na vida adulta, os dias e noites latejavam sem o brilho da serenidade pois era a tristeza que marcava muito dessa vivência. Embora não fosse alheio aos prazeres carnais, não era raro sonhar com o verdadeiro amor. Desejava descansar abraçado ao corpo de uma mulher cuja essência trouxesse-me felicidade, a esplendorosa convicção de que era permitido renascer cada poro do meu corpo com as virtudes mais apetecíveis.
Para que serve ter um fardo que é sinónimo de loucura e ao mesmo tempo antónimo de tranquilidade? Por que razão se deve guerrear com estes e aqueles em busca de glórias, toscas riquezas que não servem para brilhar além do tempo de vida que nos é dado? Acaso serve mais a um homem saber que deixa uma herança adulterada por sangue e lágrimas? Por o reino do meu pai ser maldito, nunca a receberia…
Sabendo apenas que este só era fiel a si mesmo e que não se preocupava com a minha mãe, a sua esposa, desconhecia como agia com as outras mulheres com quem se relacionava. No entanto, ao descobrir no inicio da adolescência que a minha mãe tinha um amante, passei a tê-lo ainda menos em conta. Afinal, que podia dizer de negativo em relação à escolha da minha mãe se o meu próprio pai não se preocupava com o bem-estar dela? Uma união sem amor é o pior dos desertos, a mais vil iniquidade para quem só deseja a carícia do suave verbo.
Porque respeito a quem me respeita, prometi à minha mãe não dar a conhecer o seu segredo e, com o passar dos anos, desabafávamos sobre muito do que nos encantava e afligia. Ela era a única que me compreendia, sabendo que não me interessava a glória que advém de ser filho de um rei mas aquela que surge da Arte, neste caso a poesia, a criação de majestosidades regendo o que inebria a alma. A verdade sendo que, no meu íntimo, fervilhavam sentimentos contraditórios e palavras virtuosas seduzidas pela necessidade de expressão…
Com o passar do tempo, veio o findar do reinado do meu pai. Já que não era o primogénito e após uma conversa com o meu irmão, este mais benevolente, foi decidido que partiria. Precisava de aliviar o espírito de todas as falhas dos anos anteriores…
Não sei precisar quanto tempo se passou ou quantos lugares visitei mas surgiu o momento em que adormeci em paz e aquele em que acordei desorientado. Tudo era diferente do que conhecia e, mesmo assim, melhor… À minha frente, estava a mulher mais bela que alguma vez tinha avistado…

A arte das sombras aprisionadas (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Como fruto maduro de uma desvirtuada sina, a noite em que dei os passos para realizar um certo plano era cativada por sombras dançantes, aquela firmeza trepidante que separa a calmaria da tempestade. Não me importava que chovesse, que o céu se aliviasse da sua virtude, porque a confiança era algo que estava sempre do meu lado e esta noite não havia qualquer dúvida ou medo nos passos a dar.
Fustigava o meu pensamento o facto de estar prestes a desvendar a arte de um pintor, Christopher Wilton Leonard, que apareceu como tal poucos anos atrás e cujos quadros tinham uma bizarra riqueza. Era um tanto interessante a forma como pintava os objectos e as pessoas, a sua extravagância vertendo traços fincados num estilismo soturno que a todos fazia vibrar. As cores usadas eram dispostas em tons tão estranhos, as poses para os elementos fulcrais dos quadros surgindo desequilibradas, pairando a divagação sobre o seu método e o advir dos temas.
Leonard tinha já algum reconhecimento no mundo das artes, considerado um fenómeno em crescimento que levava certos museus de mérito a querer expor a sua obra, mas agia de uma maneira tão estranha quanto o que criava porque não expunha em galerias sobejamente conhecidas. Recusava-as considerando que o enquadramento ideal para as suas criações era em sítios mais pequenos, mais rústicos e com uma iluminação menos activa, uma forma de estar mais próximo das suas raízes.
O seu trabalho tinha sido referenciado em artigos de diversos jornais e revistas que também tinham dado a conhecer alguns dos seus quadros. Numa determinada noite, tive a sorte de ver na televisão uma reportagem acerca dele e posterior entrevista. Reparei que não parecia muito atraído pelos incessantes elogios à sua obra e que não respondia de forma apelativa às perguntas que lhe eram feitas. Tal percepção era devido à sua pose rígida perante as câmaras como se elas criassem um mundo ao qual não estava acostumado. Se pensarmos bem, não era estranho assumir que ele se sentisse desenquadrado já que, como excêntrico pintor, pouco se importava com a realidade preferindo criar o seu próprio mundo.
Aquando da minha visita à sua última exposição percebi que tinha mesmo de levar a sua obra para a minha modesta galeria. Embora as suas pinturas não me atraíssem assim tanto, não podia descurar a oportunidade de ganhar algo com isso. Infelizmente, não me foi possível falar com quem desejava pois um artista tem de ser necessariamente caprichoso e Leonard nunca era visto de dia. No entanto, deixei as informações necessárias para um eventual contacto com um seu representante.
Foi através de muito suor e expectativas que cheguei a esta noite, várias semanas após a ida à exposição. O caminho sendo difícil, por vezes parecendo inatingível mas nunca, nem por um segundo, fazendo-me deixar de acreditar que iria conseguir. Afinal, já passei por muito na vida e sempre pude alcançar os meus objectivos.
Para meu desagrado, o céu revestia-se de melancolia, as nuvens emparelhando-se como se quisessem impedir um mero mortal de sonhar com as estrelas, de descobrir no seu pálido iluminar os traços de outras realidades onde nada nem ninguém se importava com este mundo imperfeito e poluído, tristemente vocacionado para a destruição.
Tinha deixado o carro um tanto ou quanto longe do lugar onde me encontrei com um homem de aspecto rubicundo, Dawson, que me levaria até à casa de Leonard. Segundo ele, assim havia menos oportunidade de alguém descobrir exactamente onde Leonard morava, de o incomodar ou até roubar, dessa forma ultrajando a sua arte com a ganância de quem não compreende o que é o fundamento da criação. Pois… Esse tão enigmático pintor parecia suspeitar de todos, as suas nuances psicológicas inferindo a afronta de perder a sua arte sem o desejar, o medo desta estar com quem não a compreendia, quem não sentia que ela precisava de uma atmosfera especial para ser verdadeiramente apreciada. Reflectindo ainda mais sobre o assunto, julgo que quem adquirisse a obra de Christopher Wilton Leonard seria louco ou pretendia não dormir muito…

Sob a neblina que me corta o sangue (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Tinha onze anos quando a velha criada me contou o que pareceu ser demasiado estranho para ser verdade. No entanto, algo no seu bizarro olhar dizia-me que devia ter em conta as suas palavras: que a minha existência se devia a acontecimentos peculiares.
Segundo ela, o tempo anterior ao meu nascimento teve o despudor de malefícios, a minha mãe, Mireille, sendo sujeita a alucinações advindas do estado febril que lhe tocou durante a maior parte da gravidez. Nem a minha vinda a este mundo foi mais calma pois tal aconteceu numa noite de tempestade, prova de maus agoiros, em que se ouviam os uivos de lobos como se tivessem sido escorraçados de um qualquer recanto mais apaziguador e, famintos, lamentassem a sua desfortuna.
Foram muitos os cuidados para com ambos pois estávamos demasiado fracos após o parto. Por momentos, até pensaram que eu estivesse morto, mas, ao mesmo tempo que uma palmada no meu rabo foi dada, o mais feroz dos trovões foi ouvido, a tempestade aumentando de fulgor até que amainou para depois desaparecer.
O meu choro era a prova de que estava vivo mas a perda vitimou a minha mãe pois esta deixou de ser a mesma, a sua lucidez tendo desaparecido para dar lugar a um mutismo inquebrantável.
“ – Talvez a causa da sua silenciosa melancolia tenha sido o choque de ter o parto em tão odiosa noite”, disse a criada, mas não consegui deixar de pensar que talvez tenha sido eu a lhe tirar a voz de modo a dar a entender que vivia.
Não sei se teria uma infância normal se ela não me dissesse como tinha nascido mas, nos anos que se seguiram, tornei-me demasiado introspectivo, talvez devido ao respeito para com a minha mãe. Várias vezes, era toldado pela apatia, tomado por um certo distanciamento das horas claras, dos sorrisos e risos que cuidavam da harmonia. Em outras, mostrava maior interesse no que me rodeava, podendo até apresentar um ar mais arrogante e impulsivo. Para descrédito da minha condição de ser sensível, essas eram formas de abreviar a empatia com aqueles que me conheciam desde o meu nascimento.
Sendo o rebento mais jovem de uma família rica, tinha sempre alguém ao meu lado que me ensinava os assuntos mais pertinentes, dando-me linhas com as quais traçar os caminhos que levavam à intelectualidade. No entanto, tal como vinha, tão depressa ia, talvez já farto das minhas mudanças de humor e do aspecto um tanto leviano com que levava a aprendizagem. Tal não queria dizer que os meus professores não me considerassem inteligente pois até os surpreendia ao refutar certas das suas opiniões com argumentos que lhes pareciam válidos. Afinal, uma coisa é saber o que nos ensinam, outra é sentir um certo aborrecimento com a matéria dada e pretender mostrar que até somos capazes de raciocinar.
Já na minha adolescência mostrava um grande conhecimento sobre muitas coisas e, se não fosse assim tão estranho, talvez tivessem menos medo de mim. Bem, não sei se era mesmo medo mas o que pensar quando olham para nós com uma certa estranheza e ouvimos murmúrios quando pensam que não estamos a escutar?
Apesar do que queriam incutir-me, os meus hábitos privilegiavam afinco por certas matérias que sempre me tinham interessado, realçando todo o fulgor que é acariciar um conhecimento mais consentâneo com uma identidade própria. Com tal, pretendo dizer que não desejava saber apenas o que uma pessoa elevada pela “normalidade” iria saber mas algo mais: aquilo que escapava à compreensão mundana.
Um certo dia, quis afastar-me da mansão e recolher-me numa casa que ficava no final de um extenso jardim de modo a ter a minha paz e, aqueles que não me entendiam, a sua. Disse apenas que precisava de ponderar sobre certos conceitos elementares mas uma outra razão é que já estava farto de escutar que a minha vida era moldada por lamentos, devaneios e fantasias em relação ao mundo. Afinal, porque não deverei indagar acerca dos propósitos que nos definem e que a sociedade impede de visualizar? Será mais importante seguir os caminhos traçados pela tradição? Será melhor ser uma cópia barata de quem formulou ideias e ideais embora nada tenham a ver comigo?
Quantas vezes a minha voz seguiu a intensidade da do meu pai que me perguntava porque não podia ser como os meus irmãos, frutos de um casamento anterior, que tinham os olhos postos num futuro que ele designou. Rever-me em alguém, descobrir que não tenho identidade, enriquecer o ego de quem me fez nascer com a convicção de que eu não serei melhor, livre até, mas apenas um cuja vontade é muda… Caramba!!! Não o desejo para mim!!!

As carícias de uma magia enfraquecida (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Os meus passos levavam-me para onde um aliciante recanto regia uma disfarçada riqueza, não me importando que a miséria pingasse sob os lamentos que encobriam uma tórrida graça. A minha alma, menos cândida do que a primeira das estações, padecia perante a cortesia do maldizer por pensarem que eu era louco quando apenas desejava afastar-me dos gritos que sufocavam e de uma paisagem que a ninguém verdadeiramente saudável importaria.
Desde criança que apenas encontrava descanso quando disposto perante as cores de outras eras, um manjar de intrépidas belezas que apenas com os mais belos sonhos condiziam. Não conhecia maior conforto do que lembrar que não era mais um dos que tornam a noite fria com os seus sarcasmos e afirmações pueris pois no meu peito revolvia aquele encanto já esquecido com o passar do Tempo, aquele cavalheirismo que é entoar prodigiosas melodias com o coração.
Devido aos dias serem frios, padecia de uma palidez que em nada fascinava, a chuva adulterando o que é ser belo quando se dá mais valor ao conforto de uma noite de harmonia. No entanto, apesar de sozinho, não desejava a presença de outras cores na minha vida quando era o amor que cortava a memória com o ácido sabor da tragédia…
O Sol estava prestes a distanciar-se quando entrei na floresta pois pretendia esconder-me do mundo e assim saciar a vontade com o encanto da solidão, sentindo aquele conforto que dissipa a cruel sociedade. Talvez muitos não o soubessem mas todos os minutos que passam sem desejo perdem a sua graça, um repetido desencanto que solta fraqueza e vazio quando se desperdiçam forças com quem não se importa connosco. Já estava farto de ter tão grande sofrimento e não o conseguir esquecer! A minha solução era apenas de este mundo partir, fugir para uma outra realidade onde tudo o que fosse luz pudesse adornar-me…
Sentado em frente a um lago, vendo o Sol morrendo, as suas cores se espalhando, olhava para a faca que tinha trazido. Seria ela o meu alívio, o meu bilhete para levar a minha vida a ser menos prisão…
Inspirando e expirando profundamente, deixei-me levar pela resolução final e, com um esgar de dor, senti a carne ser estraçalhada, o sangue jorrando dos meus pulsos como um rio que sabe para que lugar será conduzido. Era o fim de uma época de desencantos nascidos da esperança, o desejo de poder conhecer a liberdade que é não existir numa realidade tão cruel.
Súbito, um grito percorreu o ar e o meu ser foi tragado pelo que de inexplicável volteia na escuridão! As trevas encontravam-me e eu padecia por aparentar ser um servo, um dos caídos que tocavam langor atrás de cada desapontamento, um pálido respeito para com a eternidade.
Se alguma vez tinha conhecido a beleza, todos os sinónimos se tinham perdido ao avistar o que entonteceria até o mais febril e inspirado dos poetas, essa tão distinta riqueza sendo mais do que qualquer sonho que qualquer artista pudesse dar a conhecer… Ela, de pele tão branca como a neve e uns longos cabelos desenhados pelo rubor da chama, os olhos de tons azulados como se cortejassem o mar distante e uma boca tão sensual que se abria espantada pelo meu acto como se nunca tivesse conhecido a morte nem quaisquer propósitos que impeliam ao abismo. Uma mulher perfeita, não fosse o facto de que, a partir da sua cintura, podia ver um caule coberto de folhas e espinhos.
– Não se pode conhecer o paraíso cortando o elo que nos une à Vida – proferiu, a voz doce.
– Por vezes, temos demasiadas cicatrizes e não conseguimos suportar outras mais – respondi, o cansaço toldando-me a vontade, o espanto pintando-me a alma.
– As cicatrizes são feridas que choram sem poderem gritar e estas sempre temos. No entanto, existem luzes para além das que viajam pela noite…
– Se existem, nunca as encontrei… Sempre fui demasiado farrapo, ou assim me impeliam a acreditar, para que fosse possível as encontrar.
– Encontraste uma…
– Uma luz que se mostra estranha. Nunca pensei que um ser assim pudesse existir… Será que, prestes a morrer, é isto um dos sonhos que se pode ter quando moribundo?
– O que vês é a realidade. Por ser estranha não significa que seja menos verdadeira. Sou como sou porque assim quiseram…
– Estranho o elo que nos une quando sob diversas representações. Também sou como sou porque assim quiseram…
– E qual verdade é essa?
– Uma que talvez já não importe…

Como nuvens de seda na minha carne (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

As primeiras palavras de um relato devem ser sabiamente inspiradas de modo a chamar a atenção e criar interesse para que depois sejam lidas privilegiando um atributo inerente à curiosidade. No entanto, se o início é belo, não tem necessariamente de apresentar um cenário ou uma personagem em que a felicidade exista sem quaisquer remendos. Assim, para que este começo seja verdadeiro digo sem qualquer vergonha ou ironia que eu, o desafortunado, censurava o meu nascimento. Não sei se já o fizeram ou se encontraram alguém que o tenha feito, mas, acreditem-me, não me importava de não ter nascido.
Acalmem-se, esqueçam o choque, passo a explicar o porquê do meu descaramento…
Desde há muitos anos que padecia da má sorte que era viver onde a adversidade tem uma dilacerante voz. Embora nunca consentisse que o meu âmago fosse assolado pela iníqua abstracção, uma vil tempestade que ataca, desfigura e sentencia, esta sempre me fazia sofrer. Claro que sonhava com a beleza de melhores momentos, afinal há que haver um certo rubor de vez em quando, mas isso não era o suficiente para que me sentisse bem.
Porque a realidade deverá ser pintada com cores que afaguem a harmonia, seria bom que qualquer desejo pudesse ser concretizado, mas, se tal acontecesse, a ansiedade não existiria, o que poderia aborrecer aquela entidade que está além das
questões mundanas. Digo isto por achar que talvez tivesse nascido para ser um fantoche onde várias cordas estão partidas, qualquer coisa sem nexo ou crédito deambulando ao bel-prazer desse incómodo celestial.
Como já devem ter percebido, fui sempre dado a lastimar e não a profetizar, mas, como tudo na vida é estranho, o espanto sacudiu-me uma certa noite em que a minha alma era nervosamente escavada pela penúria…
Tinha ido para o meu quarto após mais um dia de melancólicos devaneios pois o arrepiante desenvolvimento de uma doença fazia o entusiasmo desaparecer e a solidão apenas aumentava a minha dor. No entanto, apesar de a mente compreender que o sono é preciso, a alma pode ser ingrata e não deixar o esquecimento surgir. Assim, sofria enquanto estava deitado na cama, virando-me incontáveis vezes de um lado para o outro, os lençóis e o cobertor envolvendo o corpo com uma tal frieza como se também conspirassem para o meu nervosismo. Se estes soubessem o quanto os detestava…
Silenciosamente, rogava pragas perguntando-me por qual razão nem a fadiga me fazia dormir. Será que os devaneios são maldições que infligem os pobres, os azarados e os doentes, o descanso sendo uma preciosidade sem graça que não sabe fazer sorrir? Se assim fosse, de que valia a pena viver?
Como sempre, o meu delírio era o absurdo de mais uma noite ansiando por um paraíso longínquo, aguardando uma simples viagem que me afastasse destes cinzentos sem graça e relíquias sem brilho. Não queria acordar para um mesmo reino, aquele que me conhecia há muito tempo, pois sabia que ninguém estaria ao meu lado. Sentindo-me como se tivesse sido amaldiçoado pelo desprezo, nada esperava que me pudesse agradar mas a incerteza é uma liberdade que afunda o momento e nos arrepia em trejeitos desconcertantes.
Surpreendi-me ao ouvir barulho quando o silêncio acobertava as noites passadas. No entanto, não tendo a leveza da fantasia, julguei depois que um vento mais forte tinha feito com que um qualquer objecto embatesse numa parte incerta do jardim que rodeava a casa. Pois… A realidade nunca espanta a quem está acostumado a tantas certezas, a verdade sendo que nunca senti que pudesse haver alegria em meio ao meu pranto, uma dança que enriquecesse o íntimo e transformasse as lágrimas em frutuosa esperança

quarta-feira, abril 14, 2010

A sinfonia do abandono

Sou mestre…
e como peste vagueio sozinho, perdido, desanimado,
os meus passos sendo réplica de solidão detestada.
A pútrida corja que forma indecorosos pensamentos
sendo rasgos de dor, banalidades e lamentos
pelas lágrimas de uma vida amaldiçoada.

O fogo que me queimava já lá foi
e aqui nada possuo de benévola santidade,
apenas aquela carência que ruge a cor de triste nome,
a conquista de um lugar no trono da maldosa infelicidade.

E assim chove nesta vastidão em que me encontro desleixado,
a pronúncia de uma tempestade que me corta o coração.
Chora-me a derrota em sombrio e solitário pecado
que impede o sorriso de vencer a morte sem paixão
porque sou toda a maldição que quiserem,
só não sou um deslumbre libertado.

Faça o que quiser, caio e ainda sou mestre…
e tal como a peste, um trilho sangrento resvalando a negra melodia
por uma alma aterrorizada onde a ode não tem lugar.
O arrepio tornando-se a mancha que devora,
a sinfonia já quebrada por falta de um miserável…
ahhhh quem me dera que fosse um despertar,
mas é apenas a ensanguentada Morte que grita para depois me beijar.

O meu caminho é tão negro como a mais profunda das águas,
para sempre a pálida vítima de uma agonia enriquecida.
Os meus sonhos trilhando as trágicas mágoas de uma noite passada
onde a dor dormiu cansada, a saudade nunca mais adormecida,
onde a merda de uma rima jaz no meu coração em pus desvanecida.

Na mesquinhez da vida, sou a penumbra personificada,
um cego murcho pela inquietude sem razão,
tímido esboço em que a alegria nasceu petrificada,
onde a inocência não teve caridade nem perdão
pois sou mestre…
O mestre da sinfonia cortejada pela envelhecida desilusão!

De um gélido e amaldiçoado grito

Daqueles ousados calafrios que a sombra inveja,
do fogo incolor de um recanto amargamente desbravado.
dos prantos de mil dores que a solidão não deseja,
surgiu a pobreza, perdeu-se o encanto adorado.

Entorpecido pelo mais doce sofrimento que o peito queima,
resguardado daquela virtude que era sentir a inocência amar.
Dos olhos a lágrima caía enquanto da luz o calor fugia
porque a alma só tinha cinzas e saudades a queimar.

Sem encanto, sem paixão, sem esperança a adoçar
a vida, triste e indelicada sina a acariciar os meus lamentos,
dava os meus frágeis passos enquanto a doença amaldiçoava.
E eu… tão só… em confusão morrendo ainda cantava.

“Tortura-me a noite,
a miserável calúnia que nem os espectros quis perdoar,
que berra tristeza e ri como a velha dona de uma altivez caída.
Tortura-me o dia,
a peça já fria que nem para o meu drama tem um feliz final,
porque os males já mortos são folhas de Inverno que entram num beco sem saída.”

O meu adeus a toda a felicidade desprezava a beleza
e o pensamento era apenas um abismo caído em meio ao tormento.
Suportaria eu a vida adormecendo em meio à amargura?
Não sabia… Apenas via o meu sangue conhecer a brisa
e a respiração ser um vil e ténebre desfraldar
das velas de um reles barco prestes a partir
enquanto a dor... Ah! A dor me iria naufragar...

Desculpem, lamento quem me lê e me conhece…
A luz que antes havia em mim fugiu porque a escuridão tem fome
e eu sou agora o vazio sem vontade
neste labirinto perdido em que a minha alma nasceu.
Mas não se preocupem!
A morte, doce morte, deste fardo me irá levar,
se a vida, que antes existia em mim, já não morreu...