quinta-feira, setembro 12, 2013

excerto de "Truques e um golpe de sono"

"Naquela noite de ricos trajes, um homem, vindo da escuridão premente, vestido de forma infernal, cumprimentou-me sobejamente valendo-se de simpatia e elogiosa benevolência para com a minha conduta de poeta. Agradeci tal acto porque a minha poesia apenas mostrava dar a conhecer o que se podia imaginar do paraíso e do inferno, a desigualdade entre os dois encontrando semelhanças no nosso reino, este pelo qual tantas vezes ponderamos com ironia, sem nos interessar a cortesia, o respeito ou a hipocrisia. As suas palavras eram ditas com uma tal leveza não fosse o facto de o corpo conhecer a vermelhidão das brasas, os olhos trocando sinónimos com todas as trevas que se conhecia e só a partir do momento que lhe disse que ia descansar um pouco, o seu discurso mudou de tom.
− Oh ser cuja alma brilha, quem diria que iria defraudar a arte com o sono? Deveria criar e não adormecer!
− Se pretendo dormir é porque a poesia me gastou as forças e tudo o que deverá nascer de mim é uma riqueza que não poderei encontrar enquanto fraco.
− A poesia ou a loucura que bebeu? Se a vontade for muita, não haverá realidade que afaste a Arte!
− A loucura já nasceu em mim e a minha vontade é muita! É por isso que pretendo que seja a Arte a afastar a realidade…
− Sábias palavras que mereceriam aplausos… – disse, um longo silêncio surgindo depois.
− Mereceriam? Por qual razão não merecem? Será que o que disse tem menos valor a estas horas da noite? – perguntei, sorrindo.
− Porque só se aplaude a quem cria de forma inspirada e não a quem diz isto e aquilo embriagado, o sono cativando-o a empobrecer o espírito.
− As vossas palavras mereceriam uma vénia, mas perdoe-me se me sinto demasiado oprimido pelo cansaço para me levantar e abaixar. A loucura, a idade e o álcool sempre conquistam lugar no nosso corpo, apenas o meu espírito prenunciando altivez quando disposto perante tais agruras.
− Até o veneno que é mortal para o corpo de um humano, pode ser para a alma. Eu não enveredo por tais desencantos…
− Bem, não é muito estranho que, nesta festa onde a primazia seja dada à fantasia, um homem que se veste como um demónio diga que a Vida não lhe enlouqueceu um pouco, que suporta bem a idade e que ainda não bebeu. Mas duvido que sem a máscara o possa dizer…
− Nem todos podem dizer que com e sem uma máscara sejam verdadeiros, mas existe sempre quem o diga e seja. Eu, colocando-o sem rodeios, o digo e sou!
− Goza de um homem que nasceu poeta…
− Digo apenas a verdade.
− A verdade está em todos os pequenos prazeres da vida pois são eles que nos ensinam como podemos ser mais do que a soma dos preceitos divinos e demoníacos. Esses sendo apenas restos de uma antiga e virulenta insanidade, a corja mais entorpecida criada por quem desejava comandar aqueles que são fracos, sem alguma personalidade a enaltecer.
− Há maior riqueza para além do que vê, do que ouve e do que sente pois todas as verdades singram entre o Bem e o Mal! Acredite, o benfeitor e o malfeitor são lados que se cruzam várias vezes na Vida e a religião ajuda a distingui-los.
− O que diz é apenas uma das banalidades que se conhece enquanto se respira! Para mim, o que a religião mostra é uma forma ingrata de superar o medo, o desejo de não estarmos sozinhos. Infelizmente, descobrimos depois que somos escravos da sua vontade, que não podemos pensar e agir por nós próprios, que perdemos o nosso rumo.
− Pensa demasiado para quem está embriagado e com sono…
− Eu sou um poeta, um artista que preza mais a sua mente e o seu espírito do que ter de se agarrar a todas as vontades absolutas criadas por mentes sujas e espíritos cretinos.
− Não pense que por não temer não haja forma de apodrecer em meio a óbvias conclusões.
− Graceja demasiado para meu gosto mostrando que o seu vocabulário pode ser rico, mas a mente é mais baixa do que a minha. Vá embora e deixe-me dormir! Já não me importam as suas conversas!
− Uma vez mais, descubro que a vaidade, a ingratidão e a estupidez são as mortalhas que o Homem bem conhece. Que assim seja…"

excerto de "Um sonho lembrando o mar"



Ao vaguear por esse terreno encantado que é a alvura etérea do viajar, observei um recanto que meu não era, assente pela posse de todas as quedas e lamentos, talvez uma distante memória desabrigada pelo firmamento enquanto os passos eram dados. Sendo curioso e corajoso, firmei consentimento com a terra que à frente me esperava, passando por árvores, arbustos e flores como se o vento estivesse preso aos meus pés, um coração de fogo no meu peito batendo. A minha vontade seria descobrir o que existia neste jogo enevoado que é sentir-me desabrigado num mundo desconhecido onde nem a prosa nem a rima têm sabor.
Ecos de valorosos momentos passaram e todos eles de encanto me cobriram pois já se aproximava o fechar do dia e, com este, novas e flamejantes cores libertavam o seu perfume. A minha vida conhecendo um outro olhar, a libertação sem qualquer queixume a não ser ter de ver as estrelas, julgando-me só e mal acompanhado como se alguém ordenasse solidão como paga de tempos idos que já não sabem brilhar.
Uns outros passos e já me chegava aos ouvidos o som de um mar liberto, aquela melodia tão sedutora que é a dança das águas com a terra encantada. Nesse momento, lamentando o fugir da harmonia, fustigava-me a vontade de querer encontrar alguém que me desse a conhecer a razão de aqui estar, que me dissesse para onde deveria ir ou se teria uma casa onde dormir. Submetido ao desconhecido, sentia-me como se a felicidade tivesse duas asas quebradas que se arrastavam tal como os vermes, deixando, no seu dissoluto trilho, detestáveis marcas. O meu brilho era como a queda do sol ardente, o sorriso como a ponte entre o abismo e o céu, o meu cansaço desvirtuando a noite que não oferecia quaisquer momentos em que o sono pudesse estar presente. A impossibilidade de me lembrar das horas em que o sorriso tinha sido maior, sujeitava-me a estar perplexo, mas não iria deixar de caminhar pois talvez aquele perfume a mar fosse o início de uma outra vida. E assim foi…
Com o olhar sagaz, o espírito sendo um voar de ideias, o coração ardendo como fruto de sensações desiguais, vi então uma figura feminina. Talhada em finas formas, o encanto que é mulher disposta perto de uma enseada enquanto o mar era ríspido e dissoluto, como se procurasse recolher da terra o espaço e o tesouro que achava ser seu. Estendida na praia, desacordada, tristemente frágil, mas de um encanto que vagava pela celeste beleza do que me fez adorá-la, parecia uma deusa no seu leito preferido, a suavidade do éter que tinha descido à terra enquanto as ondas serpenteavam tais vales e montanhas que não queriam a calma.
Sorrindo, observei-a por longos momentos, tão majestosa quanto o amanhecer, a respiração sendo fruto de uma certa melancolia que a fazia pálida, desprotegida… Talvez, tal como eu, tivesse caminhado por longas horas, o cansaço tomando conta da sua doce forma, ou talvez esperasse por alguém, uma fagulha da sorte que tão bem conhecia. Enfim, a minha curiosidade era imensa e o único desejo que sentia nesse momento era fazê-la feliz, tentar arranjar uma cura para quaisquer males que a afligissem se, por acaso, os tivesse, esperando que fossemos os únicos neste recinto de encanto.
Com um leve toque na sua cara, os longos cabelos pretos cobrindo-lhe parte do corpo, a ninfa que tanto me adoçou o olhar acordou, os olhos azuis perscrutando o horizonte próximo como se não soubesse onde estava. De repente, agitou-se, gritou e levantou-se, a respiração sendo agora forçada, deixada ao mesmo ritmo que as ondas do mar. Acalmando-a, disse-lhe que estava tudo bem, que não lhe iria fazer mal, que só queria ajudá-la.
Olhando para mim com ar de espanto, perguntou-me quem era…
− Não tenho nome para lhe dar… desconheço quem sou… não sei quem era… Existo aqui… Apenas isso… E o seu?
− O meu nome é… é… não sei… Tudo em mim existe como névoa… sou apenas o que sinto e o que vê…
Por longos momentos, sorriu, a minha respiração tornando-se mais rápida, fazendo-me sentir a cortesia de ter encontrado uma mulher que em tudo em mim tocava, que tinha a beleza de mil paraísos e que talvez visse em mim um só, mas que muito poderia dizer-lhe. Infelizmente, para meu tão grande infortúnio, desapareceu. Atónito, fechei os olhos para depois os abrir, mas o mesmo vazio ainda lá se encontrava. Ela já não me fazia estremecer com o encanto de a ver, tendo deixado aquela dor que era a saudade…

A ninfa…

Supus um sonho… encontrei a beleza… um anjo… mas acordei… a minha realidade… a minha mais agreste certeza sendo que o homem com quem sonhei parecia comigo sonhar… a magia de um toque de ondas ao lado das quais adormeci, cansada, visivelmente enfastiada com o facto de que a beleza que procuro só em sonhos poderia encontrar…
A gentileza de um sopro que fizesse-me sorrir, pensar, sentir, desejar, vivia ainda dentro de mim…
Por anos, estive sozinha por minha própria vontade, por não sentir que havia riqueza em outras vidas, pois todas elas eram pálidas, materialistas, retorcidas… Na verdade, procurava apenas a poesia de um coração que quisesse em tudo me dar atenção e não apenas a palidez da luxúria, um momento pelo Tempo cansado em laivos de tentações onde não havia abrigo para um sorriso que fosse adornado pelo amor.
Passava o Tempo perdida entre livros, a casa e o mar… Olhava para tudo o que era lado, o céu sendo o meu confidente por possuir milhentas janelas por onde a minha alma podia voar. A inquietação induzida pelo que procurava fazendo-me sobressaltar, sabendo que nos sonhos, devido à mais gloriosa das magias, tudo poderia acontecer.
E aconteceu… Perdi-me nos seus olhos… Castanhos, vigorosos, cheios de fogo onde podia a alma aquecer, onde queria perder-me por serem olhos de anjo, de vontade divina, de apoteose merecida. Nunca esquecerei a sua tão bela face… Não lhe via qualquer cabelo, mas os olhos profundos diziam-me muito mais, vertendo uma ansiedade mútua, um respirar que podia tornar-se uno, se eu não tivesse acordado e deixado a triste e desiludida realidade fazer-me esvaecer em cansaço e agonia. Agora, com estes solitários passos em que faço o meu caminho, procuro apenas uma outra noite, um sonho onde possa encontrá-lo, sentir que tem mais do que beleza para me dar, a firme alvura de uma alma que, com a minha, rime.
E se encontrasse a felicidade em sonhos?
E se a eternidade me concedesse o desejo de viver?
Oh! Jocosa melodia que se firma como gloriosa vontade e faz-me feliz! Será que algum dia esse homem me trará a felicidade que há tantos anos desejo e nunca me quis?

O anjo…

Porque a poesia irrompe de onde e quando menos se espera, cobria-me um encanto que não sabia onde me iria levar, um soluço que me deixou imobilizado perante uma bela mulher. No entanto, os meus passos tinham agora uma força desigual como se ela, ao desaparecer, me tivesse deixado sem coração, levando toda a magia que poderia representar, deixando um frio que me cortava o corpo, se não fosse a alma, enquanto via as cores de um poente a terra cobrir.
Ainda olhei para o mar, a revolta de outrora sendo agora um murmúrio, sentindo-me como se o íntimo fosse um triste recanto que nada me trazia de sereno. Pensar que a tinha perdido mesmo antes dos seus lábios sentir, uma fagulha que não tinha conseguido como fogo viver…
O Tempo era uma distância que afugentava a ligeireza do encanto da Natureza, deixando uma torpe lágrima cair de um dos meus olhos. Um paraíso encontrado e perdido num piscar de olhos. Atordoado, deixando os pensamentos distanciarem-se para o divino horizonte de um outro momento, escutava o suave bater do mar na praia e não notei a aproximação de um outro ser, o toque de uma mão no meu ombro fazendo-me virar.
− Voltei… − disse a mulher, a ninfa, a deusa, que tanto me fascinara.
− Sim… Fico feliz por tal… − respondi, um sorriso abrindo-se na minha cara.
− Não o conseguia esquecer…
− Passou tanto tempo, a angústia tomando conta do meu ser… Para onde foi?
− Não sei bem… Lembro-me de certas partes, mas a minha memória queda-se enevoada, como se tudo o que não existisse aqui, fosse uma pálida existência antes de neste recinto nascer…
− Sim… entendo-a…
Por longos momentos, olhamo-nos. Os seus tão belos olhos azuis sendo mais cativantes, de uma serenidade delirante, do que todo o mar e as suas profundezas. Sorrimos… Talvez não houvesse um momento mais desejado do que este em que, a partir dos desenhos acariciados pelo olhar, houvesse um beijo ligando as duas bocas. Doce… Suave… Ternurenta… Tão divina era a sua boca unida à minha. A vontade desmedida de possuir a elegância do amor em tão carinhosos toques fazendo com que suspirássemos com a mais bela das emoções.
Ao beija-la, deixei a confusão desaparecer, sabendo que tudo o que desejava já tinha, pouco me importando se a ausência de outras recordações assombrava a minha mente pois era esta que almejava e não uma que espalhasse uma névoa ingrata ao meu redor. No entanto, vi-me outra vez só… A minha amada tinha desaparecido…

A ninfa…

Um outro sonho… Uma outra vida… Nós os dois… Tocados pelo mesmo destino… Fui levada pelo condão da tristeza, a patética desventura de, por duas vezes, ter encontrado um tesouro e tê-lo perdido com os meus passos pelo mais terrível dos cenários.
O primeiro sorriso tinha sido quase uma semana antes, tendo vivido os momentos de espera em inquietação e pálida nostalgia, em nenhum outro lugar encontrando a magia que tanto me tinha feito sentir viva. Fartava-me ter de, em voz alta, dizer que só tinha um sonho que pudesse aquecer-me.
Sim… Um sonho… O homem que tanto me tinha feito conhecer o verdadeiro amor tinha sido fruto de um sonho, uma espécie de acordo mágico entre dois mundos de modo a abrilhantar um e outro com a finura de tão brilhantes palavras, a doçura de inebriantes espasmos por entre céus e mares de magia.
A Vida…
Alguém devia estar a soltar gargalhadas ao fazer-me crer ser cinza e ilusão pois o único homem que gostaria de no meu recanto privado encontrar não estava ao meu lado e nem sabia se algum dia voltaria a estar. Mesmo assim, não esquecia o seu sorriso, o seu terno encanto, os olhos abrigando muita da luz que me faltava e muita da juventude que procurava.
A Felicidade tinha-me aberto uma porta, um segredo desvendado pelos etéreos caminhos da sedução onde tudo possuía uma tão maravilhosa certeza. Neste momento, neste recanto, sentia-me caída, tocada pela memória desses tão doces lábios e não podendo nem devendo a minha loucura gritar. Seria considerada louca se já não o fosse por ter vindo para aqui viver, longe de tudo e de todos, apenas eu e o mar… o sonho e o desejar. No entanto, tinha decidido afastar-me das afirmações e indagações de quem não é justo e sincero, de quem se impele a caminhar perante a lividez de espíritos doentes que dizem ser os correctos, que a Vida não deve ter o encanto do coração, mas que apenas o dinheiro e outras coisas materiais importam. Repugnava-me saber que o mundo onde tinha nascido tinha as cores da infâmia e devassidão, que já não existia oportunidade para o encanto, para o dia ser belo e a noite ter tudo menos as sombras de um vazio que não traz paz.
Oh, o meu amado… Ainda conseguia vê-lo… Os seus olhos tão belos ensinando-me as cores da harmonia, o seu toque de homem corajoso, de poeta orgulhoso, de suavidade sem par. Ao sonhar, tornei-me sua, descobrindo que mais ninguém me poderia fazer assim sentir. Uma mulher que lia um poema sem fim num mundo de nuvens que talvez tivesse sido criado unicamente para ela.
Eu… A afortunada…
Parecia-me que esse sonho tinha durado uma vida pois, enquanto sonhava, tinha conseguido esquecer a realidade e povoar uma outra com o mais belo que podia criar, não fosse, desde antes, uma aventureira que não tinha medo de desbravar o desconhecido.

- "De um encanto preso ao amanhecer" - excerto

"O que antes era um murmúrio, uma leve nota de grandeza, gradualmente se deu a conhecer como a doce voz da mulher que amava, a serenidade que antes conhecia abatendo-se com as palavras que expirou:
– Precisas de ajuda! Ainda não reparaste que estou morta?
Por longos momentos fitou-a, o silêncio contradizendo o turbilhão que troava pela sua alma. Vê-la tão bela quanto o primeiro dia em que a tinha conhecido, o seu longo cabelo ruivo adornando uma face oval onde os olhos azulados enunciavam elegância e cortesia. Entristeceu-lhe pensar que ela estava a ficar louca…
– Porque brincas? Acordo e em vez de um beijo, dizes isso?
– Mas é verdade! Estou morta! Já morri há muito tempo, mas não o sabes… Precisas de ajuda!
– Pára com isso! Já não estou a gostar da brincadeira!
– Não é brincadeira, amor… Tens uma vida para viver… Recomeçar a sorrir, esquecer este mundo… a mim…
– Pára! Se queres divorciar-te, então diz! Não me faças isto, desrespeitares-me com algo tão absurdo… Eu amo-te… Amo-te imenso, mas também saberei respeitar e compreender as tuas vontades se não mais quiseres estar comigo…
– O que digo nada tem a ver com o amor… É a verdade… Já não existo… Estou morta há muito tempo…
– Não! Pára com isso! Deixa-me… Deixa-me sozinho… Depois falaremos melhor…
– Sim, é o melhor… Irás descobrir que digo a verdade…
– Descobrir? Apenas quero que me trates como antes e não como se fosses louca, como se tudo o que considerava que eras nada tivesse de belo…
– Mas… Mas tudo mudou… O mundo muda, sabias? Não podemos controlar o Tempo… enfim… talvez… um dia…
E com estas palavras saiu da sala. Sentado no sofá, Vicente chorou por ter conhecido as palavras mais loucas que ela alguma vez tinha pronunciado.
Não sabia o que estava a acontecer, a veracidade do que dizia sendo posta claramente em causa porque, se a via respirar tão bela como a tinha visto em outros dias, algo de certeza devia ter acontecido para agir de forma tão estranha. Enquanto conversaram, não lhe tinha notado qualquer contusão na cabeça, uma pancada que mostrasse que algum acidente pudesse ter ocorrido. Então, que outra explicação poderia haver para agir assim?
A sua mulher não estava bem e algo tinha de ser feito para a ajudar. Tão jovem… Porque é que, quando se pensa que a Vida nos concede bons frutos, quando o futuro surge risonho, existe sempre algo que nos mostra as portas da Loucura? Só se tinham casado há um ano e meio e eram felizes após as agruras de pálidos momentos que não se mostraram tão belos assim para serem recordados, tempos difíceis em que eram marcados pela dor que apunhalava a harmonia e o sorriso que vivia destroçado, uma trágica relíquia enunciada pela áspera existência e que nem o amanhecer conseguia enriquecer. Tal como ele, ela conheceu a nostalgia das lágrimas, a injúria de ter feito planos sempre que uma relação amorosa começava, mas a verdade é que ninguém os merecia mais do que eles os dois descobriram merecer."

excerto da prosa poética "Da neblina, o espelho..."

"Os rabiscos que as fantasias constroem e que separam a carne de um outro prazer, instam os ímpios a procurar verdades quando a aparência peca por ser falsa e escurece o dia sem o entardecer. As cadeiras e mesas por vermes carcomidas que gastam o seu suor e"Os rabiscos que as fantasias constroem e que separam a carne de um outro prazer, instam os ímpios a procurar verdades quando a aparência peca por ser falsa e escurece o dia sem o entardecer. As cadeiras e mesas por vermes carcomidas que gastam o seu suor em "riquezas" e outros pálidos brilhos, não sabem que são poeira, antes concedem primazia às elevadas sociedades que nada constroem além de vestes e luzes tão ingratas quanto ver um moribundo e das suas dores não padecer.
Perdido, sinto que o pudor tem a marca do sangue, os restos de um depósito inquieto que recebe os detritos de tantas noites de loucura. As feridas brilham como ouro num deserto esfomeado, mas apenas os sorrisos ardem na noite que já espreita. Nesta, apenas trocam-se saudações, brinda-se a um novo começo com as mais elogiadas entoações, o renascimento que faça-nos caminhar. Seduzido pelos vales mais doces que a mão ligeira tem o condão de criar, nada mais peço do que palavras de nobre alento, o secar de todas as lágrimas, a quietude de um conforto onde não haja terra nem queda que queira a luz afundar."m "riquezas" e outros pálidos brilhos, não sabem que são poeira, antes concedem primazia às elevadas sociedades que nada constroem além de vestes e luzes tão ingratas quanto ver um moribundo e das suas dores não padecer.
Perdido, sinto que o pudor tem a marca do sangue, os restos de um depósito inquieto que recebe os detritos de tantas noites de loucura. As feridas brilham como ouro num deserto esfomeado, mas apenas os sorrisos ardem na noite que já espreita. Nesta, apenas trocam-se saudações, brinda-se a um novo começo com as mais elogiadas entoações, o renascimento que faça-nos caminhar. Seduzido pelos vales mais doces que a mão ligeira tem o condão de criar, nada mais peço do que palavras de nobre alento, o secar de todas as lágrimas, a quietude de um conforto onde não haja terra nem queda que queira a luz afundar."

excerto da prosa poética "Guardo a sede por desejos..."

"Como suspiro estendido numa cama sem pudor, onde nada o desejo e tudo se chama tentação, vemo-nos felizes, sonhos descobertos como espelhos acariciados pelo que de belo é fulgor quando se desperta a rica cor, a luxuriosa riqueza do teu sabor, um perfume que a inocência despe. Ah! Que me digas que já não há água nos teus olhos porque a minha sede busca somente os teus lábios, esse toque estonteante que troca solidão por prazer e reflecte paz ao adormecer, querendo a ti, elevando a mim, entrando em ti, respirando a mim, dentro e fora de ti…"

excerto de "Por caminhos arcanos errei" - o meu 4º livro ( ebook, download gratuito)

"Será que teria a ousadia necessária para levar em frente a missão de desvendar um mistério que me subjugava? Um simples artefacto, como um relógio de bolso, poderia não inspirar muito interesse mas o valor que lhe dava por ter sido o meu pai a oferecer como prova de honra e orgulho (e por conter as fotos dos meus progenitores, não tendo em conta que era feito em ouro), simbolizava um elo que não desejava desprezar.
Em justiça para com a abençoada memória, devia investigar o que podia ter acontecido ao relógio e, se não foi perdido mas sim roubado, faria o possível para que a miséria caísse sobre a cabeça do meu atacante. Apesar das circunstâncias atenuantes que Kirstin me tinha dado a conhecer, um cemitério é um lugar estranho para alguém ainda vivo habitar, não importando a pobreza da sua existência, fosse que tipo de ladrão fosse, a não ser que… Não…. Essa é uma ideia demasiado horrível para supor… Saquear as criptas, desonrar a memória de quem já não vivia, adulterar os túmulos à procura de valiosos saques que pudessem satisfazer a sua ganância. Não!!! Se tinha de acreditar em algo, não poderia acreditar que quem me tinha atacado fosse alguém cuja vida era ainda mais fantástica e iníqua. Não poderia pensar que existia alguém assim tão horrível, sem quaisquer escrúpulos, que não se importasse em respeitar a memória de quem muito passou enquanto vivo…
A dúvida, essa inquieta figura que percorria os meus sonhos como se de um mestre se tratasse, incomodava as minhas divagações enquanto acordado pois sabia que existia nesta região um mistério e esses sempre existem além da realidade a que estamos acostumados. Era necessário raciocinar de forma clara para não me deixar abater por quaisquer ignobilidades que a paisagem e as recordações pudessem induzir. Afinal, precisava de encontrar o relógio pois, sem esse tão valioso tesouro, sentia que me faltava um pouco da paz de espírito de outrora.
Em meio à estrondosa dissonância da tempestade, surgia a absoluta necessidade de adormecer, recuperar forças e preparar-me para as horas vindouras. Apesar de as janelas deverem estar fechadas, conseguia ouvir o som agreste do vento que teimava em resvalar por entre as brechas que cobriam a superfície desta imponente edificação. Parecia o grito de incontáveis almas em dor, a gélida carícia de um elemento que vagueava invisível. Era este o frágil sopro da vida ou apenas uma indistinta mancha no caos que rege o mundo?"

http://www.youtube.com/watch?v=FMZJtz8qWA8

excerto de "A noite e a minha procura por ti..."

"Soube antes escrever o que o céu desenha, os traços escorrendo pela tinta como fragmentos de um pincel desnivelado, as formas divagando sobre a natureza que os teus olhos transmitem mesmo a vários quilómetros da minha realidade. Embebido em leves nuances de paixão e alegria, vagueava pelos vales onde a tua alma brilhava, respirando os tons de névoa que faziam-me tremer, tais devaneios de outras noites que só eu e tu conhecíamos.
Éramos encanto e toda a luz reaparecia com a palavra entoada, o medo sacudindo as asas e conhecendo o abismo que nunca quisemos que fosse a nossa casa. Existiam doces sorrisos que revestiam as paredes do nosso lar com a esperança e a liberdade, embora soubéssemos que era preciso mais do que o amor para viver.
- Amanhã… Seremos felizes? – perguntaste, as faces coradas, a cabeça baixa, as mãos tocando os joelhos.
- Vivemos hoje. Amanhã também será um “hoje”, pois a nossa felicidade é maior do que o medo – respondi, beijando depois as tuas mãos, acariciando-as com o meu calor."

domingo, julho 07, 2013

Thought

I've given myself too many paths to walk through.
Some have been right, others wrong.
Many, I discovered afterwards what they were.
That's what I've always been, an adventurer, a free thinker.

Pensamento

Se não estou em erro, é porque estou quase.

Pensamento

Vivo em monotonia, nada me sabe a pecado!
Talvez um dia, conheça uma outra boca, o fascínio e a alegria e assim, ria, ria e ria sem alguma vez provar as intrigas que amargam o silêncio.

Thought

We may doubt that ghosts exist, not memories.
Yet, aren't memories the most horrible ghosts?

Pensamento

Hoje, tenho uma ténue memória de tudo que me tocou, talvez porque o que mais me importava ainda martele o seu esplendor na minha alma.
Sinto-me doente, o meu sorriso sendo acariciado pela ténebre sombra que gargalha como se a minha dor de nada importasse. Tal como se a felicidade fosse um terreno baldio sem orgulho, as minhas lágrimas caem arruinadas pela detestável promessa, aquela que o amor tanto quis conceder.
Penso demasiado na noite, no silêncio e na morte. Tento ser valente, caminhar como se este fosse o meu mundo mas… Que beleza conceder ao sol quando nada que seja luz importa?
Bem, talvez amanhã descubra que estava errado...

Pensamento

Pensar não dói. O que muitas vezes custa é raciocinar sobre causas, efeitos, prós, contras, sobre o que se deve criar ou destruir. Se não o fizermos, mais vale dizer que somos fantoches.

Thought

I gaze more into poetry when night is within me.
I gaze more into life when night is around me.
Night is my way of creating, of living.

excerto de "Resquícios de estranhas sinfonias"



Por entre as melodias das aves e a brisa que traz leveza ao coração, conseguia ouvir uma doce voz de mulher entoar palavras que traziam paixão e encanto acompanhada pelo toque sublime de uma harpa. Não sabia que a gentileza também morava por estes lados, que havia uma outra luz que satisfazia a juventude com a formosura renascida nas delícias de uma riqueza que espelhava a bem – aventurança.

Aos poucos e poucos, fui caminhando até onde a voz se ouvia melhor tentando não assustar quem pudesse estar a cantar. Escondendo-me por detrás de uns arbustos, pude espantar-me com o que de mais doce tinha sido criado…
Num cenário vestido de colunas brancas, diversas plantas que ornavam com sobriedade e bom gosto as paredes ao fundo, podia ver a mais bela mulher que a realidade ou os meus sonhos me tinham antes dado a conhecer.
Aparentava ter vinte e poucos anos, longos cabelos louros, levemente ondulados, desciam até à cintura, os olhos rasgados, e mesmo assim, grandes e brilhantes. Os lábios eram finos, invocando beleza com cada sopro, o corpo coberto por uma fina vestimenta de linho branco e que nada devia à deusa por quem artistas de todos os séculos enlouqueceram. Sim, até eu fui levado por aquela cascata de emoções que é ser encantado.
Não haviam adjectivos mais doces ou sinónimos mais sublimes que pudessem formar uma frase rica em conteúdo, uma única frase onde eu não visse a palidez de uma tentativa desafortunada. Para meu pesar, nem uma outra frase que pudesse apresentar-me de forma digna surgia… Afinal, que conseguiria dizer se até as minhas roupas possuíam o toque de uma sombria morada e se estavam todas inebriadas pela poeira e por um manto líquido?
Desejando saciar a fome de paz e harmonia, aproximei-me um pouco mais de modo a observar melhor a sublime beleza que regia este reino tão perto do paraíso quanto o outro que tinha visitado parecia estar perto daquele lugar macabro que até as próprias palavras temem descrever.
A mulher que observava surgia como o impulso que vibrava pelos poros do meu ser, o formar de um gesto cadenciado pelo sorriso, a voz divina que sustinha a imensidade de todas as jóias que a Natureza poderia oferecer. O embalo das notas musicais fazia-me guardar as carícias que nunca nenhuma outra mulher poderia ofertar, não parecesse este o canto mais especial que o Universo poderia ter criado, não fosse esta a brisa que inspirava as nuvens a dançar alegremente banhadas por um Sol que parecia saído da Primavera, em direcção ao jocoso Verão.
Não sei explicar a ânsia que sentia pois o fervor mais doce tocava-me a alma e tornava-me um pálido desconhecido, como se os segredos que regem a nobreza que transpira sentimento, me levassem para um quarto onde tudo seria mudo e apenas os olhos poderiam descrever toda a situação.
Ser-se mortal possui os seus princípios e, para além de todas as faculdades intelectuais e emocionais, temos de nos render, de vez em quando, ao quadro que pinta os nossos defeitos físicos. Sem conseguir suster um fim, pois as roupas molhadas e o calor que sentia assim me obrigaram, espirrei…
Parando de invocar a alma com os lábios e dedos, a rapariga perguntou, a voz tão bela quanto o seu canto:
- Quem aí está?
Envergonhado perante a nobreza do seu porte, adiantei-me, sentindo-me um vagabundo sem qualquer brilho perante o requinte de outra classe.
- Oh! Um homem!!! – exclamou, visivelmente espantada.
- Desculpe incomodá-la. O meu nome é Olivier Dean Pryce e não sei como vim aqui parar. Ouvi a sua voz e quis ouvi-la um pouco mais. Desculpe se a amedrontei… - afirmei, terrivelmente desolado por poder ter cometido alguma falha
- Oh, não se preocupe… Há muito tempo que não vejo ninguém…
- Quer dizer que está aqui sozinha? - perguntei, verdadeiramente intrigado.
- Sim… Há tanto tempo que aqui vim parar e tudo se resume a momentos que passam… Durmo e é dia, acordo e é dia… Não há noite que visite este paraíso. Mas, um homem…
- Há muito que não vê um?
- Oh… Existem esculturas mas há tanto tempo que não vejo um vivo. A artificialidade de tais objectos de Arte não conseguem relembrar-me como verdadeiramente os homens são…
- De carne e osso como vós, possuidores de um vasto leque de emoções e ideias que transmitem fogo onde apenas a matéria crua existe…
- Sim, acredito que sim… Este lugar é um paraíso no verdadeiro sentido da palavra e a Natureza não tem qualquer pudor em mostrar a sua magia. No entanto, se sou Eva, falta-me um Adão…
- Eva? É o seu nome?
- Não… Não me lembro de onde vim mas sei que o meu nome é Isanthya… Um nome já antigo, que deixa a alma rimar com a frescura das águas, a espuma do mar…

excerto de "A singular magia da devoção"

Apesar de não pertencermos às forças da Lei, Jonas entregou a mim e ao meu pai duas espingardas e levando connosco a coragem e a vingança lá fomos em direcção a onde tinha visto os dois malditos. Como não conhecia qualquer outra entrada para a caverna, embora de certeza devesse haver, decidimos não perder muito tempo a tentar encontrá-la. Além disso, entrando por aquela parte que conhecia, de certeza que os apanharíamos desprevenidos e assim mais facilmente os levaríamos à Justiça.
Cautelosamente, deixamos os cavalos um pouco mais longe da entrada da caverna e fomos a pé até ao lago. Aí, descemos a margem com o máximo cuidado e penetramos aquela protuberância rochosa que era o covil dos que fugiam à moralidade, um dos nossos tendo uma lanterna para guiar os passos que déssemos.
Era Jonas quem ia à frente, secundado por um homem mais novo mas de forte constituição e que parecia tão ansioso quanto eu. Ao longe, ouviam-se vozes de homens que se misturavam com gargalhadas e um choro de mulher, Elizabeth, que, a uma ordem dada por um deles, parou a sua melancólica dissertação.
Ao ouvi-la, quis aproximar-me o mais rapidamente possível mas o meu pai agarrou-me no ombro e, apertando-o, disse-me para esperar. Só os céus sabem o quanto tive de me controlar para não correr até onde estavam e vingar os justos… mas esperei, o coração batendo mais rápido, a respiração mais difícil.
Temendo o pior, percorremos o espaço que faltava até chegarmos a uma sala interior. Escondemo-nos atrás de uma grande rocha e foi daí que pude ver os dois que tinha visto antes conversando. Enquanto estes estavam de pé, cinco outros homens, que davam à infame corja um ainda pior nome, estavam sentados um pouco mais à frente a beber o que devia ser whiskey como se fosse água. Elizabeth estava encostada à parede, os joelhos encostados à cara enquanto os braços os rodeavam como se quisesse se proteger e esquecer o que lhe tinha acontecido.
Jonas olhou para nós e, com o dedo encostado aos lábios, pediu-nos para não fazer barulho. Com um outro gesto, ordenou a dois dos seus ajudantes para se aproximarem dele e, apontando, dispararam para os homens.
De imediato um deles foi morto enquanto os dois outros tiveram melhor sorte ao serem feridos. Os restantes, surpresos pelo que tinha acontecido, depressa tentaram se proteger, qualquer álcool que tivessem ingerido não parecendo ter algum efeito. Gritos de dor e de pânico inundaram o recinto enquanto o homem mais alto dava ordens aos seus companheiros para se apoderarem das armas e ripostar. Estes, conhecedores de intrujices e insensibilidades provaram ser também detentores da lamentável arte que destitui a humanidade da inocência e assim nos fizeram frente como tigres prestes a atacar a presa.
Lutamos bravamente, tentando sobrepor a nossa superioridade numérica à ácida falácia dos trastes que combatíamos mas tivemos a pouca sorte de, poucos minutos depois, um dos nossos ser morto e se estatelar no chão à minha frente, a cara sendo uma mancha de sangue.
O meu pai, homem com mais frieza do que eu, continuou a disparar, tentando vingar a honra do justo que tinha caído, enquanto eu sentia um ataque de enjoo e vómito. Resvalando pela ansiedade, ainda estive uns momentos parado como se de um espectador me tratasse mas, lutando para vencer a desolação e o medo, continuei a disparar contra a corja até que, de repente, ouvi um grito de mulher.
Atónito, pensei que um dos tiros tinha acertado Elizabeth mas quis a injustiça que o destino dela fosse um não menos trágico do que esse.
- A rapariga é minha refém e se não nos deixarem fugir podem ter a certeza de que ela pagará pelo vosso acto!!! – gritou o homem que se chamava Ceryl, a raiva transbordando em cada palavra proferida, o estranho sotaque cortando a nossa língua em trejeitos dissonantes.
- Não!!! – gritei também, o medo assomando à minha alma.

excerto de "Sentiam os meus passos na escuridão"

Normalmente era à noite que os levava a terminar a sua existência, firmando um contrato permanente com a realidade que comandava, um manto de espectros e inquietas sensações povoando o meu mundo que rivalizava em grandeza com toda a beleza que diziam pertencer a este tão singelo cenário. Adorava os gritos de pavor ou até mesmo aquela mudez que é descobrirem que já não existiam mais segundos a lhes conceder vida, que eu era o Mestre que lhes cortava a esperança quando, tempos atrás, tinham sido eles, a cortar a fé de maiores riquezas daqueles que não mereciam ser sacrificados pelo seu egoísmo.
O sabor a sangue, o refulgir de dezenas de serenatas à meia-luz onde a lâmina encantava a carne, toda aquela proximidade com um destino que nunca souberam tão perto mas que Eu, a Morte, lhes ensinava como receber. Eram todos assassinos, desmiolados que se assumiam como inteligentes mas cujos actos eram apenas migalhas, reles hóspedes da minha grandeza que já não mereciam continuar numa realidade longe da minha. No meu reino, a história seria outra pois lhes ensinaria que a Morte merece o respeito de tal posição…
Uma noite, muito tempo após o iniciar da minha demanda, caminhava por um longo e sombreado quarto, os meus passos sendo leves estertores na casa abandonada onde mais uma das reles criaturas se encontrava. A sua presença não transmitia qualquer encanto a não ser aquele que se repete pelos confins da rústica imensidão que é ter as desoladoras sombras como conforto, a tentadora brusquidão que delimita o corpo e empalidece a alma. Eu, pelo mérito que não me tinha sido dado, faria o possível para vingar a honra ao terminar a existência de mais um que entoava um mundano prazer ao saber que as raparigas que seduzia, violava e matava, eram apenas meros objectos condenados ao seu bel-prazer.
A corja de falsos seguidores que nenhum tesouro promete e que renega a cortesia de ter o meu nome como promessa final iria perder mais um dos seus pois tal homem não merecia mais anos para seguir o seu apego à ingratidão. Se antes, por vontade própria, não indicava que a sua conduta tinha o meu mérito, porque razão o iria desculpar, deixando-o ter uma existência sem o sabor da minha vitória? Nunca o fiz em relação aos outros e não o iria fazer agora!!!
Talvez me dissesse, tal como os outros o fizeram, que a sua disciplina era amortalhada pela minha existência, que não devia morrer só por não ter dito a quem matava que o fazia em nome da Morte. Mas de que me valeria isso??? Onde estaria o respeito e o valor que merecia, o crédito que é inspirar a conquista de outros terrenos, aqueles onde a minha glória é maior??? Não!!! Uma vez mais tudo acabaria e eu faria o possível para mostrar a todos que era a mim que deviam enaltecer e não o seu egoísmo!!!
Silenciosamente, desci umas escadas que levavam a uma cave, uma parte da casa onde o ingrato de certeza estaria. Se eu fosse um mortal como ele, não haveriam dúvidas sobre o medo que sentiria pois tudo isso era eu, o deus que conquista e se deixa levar pelas promessas que a Vida contém, sabendo que todos, ao nascer, terão de me conhecer.
Um certo sorriso brilhava em mim, talvez a ganância de me apropriar da rude energia que o Tempo tinha dado a certos dementes que pensavam que somente eles mereciam deter o direito sobre o término. Ele, o homem com um banal movimento de carne e ossos, depressa descobriria que não deveria brincar com coisas sérias, que o meu encanto era símbolo da mais divina riqueza.

excerto de "Que fortuna o mar esconde"



Para minha ruína, fui traído por em quem confiança tinha mas que mostrou ser a concórdia com tudo o que regia essa serpente primordial. Quão vil é a ganância, uma doença tão absurda quanto a peste que se deleita com o sofrimento de outros em nome de uma riqueza que corrói a alma! Uma noite e já tudo tinha sido esquecido…

Agora, como sentinela de uma espera há muito amaldiçoada, as lágrimas que cobriam o meu olhar tinham o riso de quem já não sabe como ser feliz, um coração espezinhado pelo toque de um sorriso que guardo no íntimo, o devaneio que uma cansada magia oferece ao pudor de nada poder fazer. Sejam leves ou pesadas, as lágrimas tinham sempre a mesma acidez que revoltava, um destino onde a mais pobre nobreza surgiu incauta e cortou todas as asas que nós, anjos, possuíamos para voar.
Após um sono onde toda a beleza me conquistava, acordei numa cama vazia, perdido entre os lençóis ainda quentes por antes terem coberto os corpos de dois amantes. Vários homens a rodeavam com espadas na mão e expressões de escárnio como se todos estes anos tivessem sido de lamentos e abusos.
O que tinham feito à minha rainha? Estariam os meus filhos bem? Que mal tinha feito a estes meliantes para ameaçarem o reino e a família regente? Será que detestavam saber que a maior harmonia que podia adornar a Vida seria dormir e acordar feliz? Será que o respeito, a compreensão e a felicidade não serão os mais valiosos sonhos que desejemos realizar?
Infelizmente, às minhas perguntas nenhuma resposta satisfatória surgiu, apenas insípidas ordens que cortavam ainda mais a vontade de sorrir. O ultraje era ser rei de todos e saber que existia quem não quisesse a sóbria conduta que nascia do meu desejo.
Humilhado, fui conduzido à sala do trono e conheci uma assembleia de meliantes, liderada por Daiken-Melchior, todos pretendendo deturpar tão estimada harmonia. Até então, esse era o meu mais nobre conselheiro mas, nesse momento, sentado no meu trono, me olhava com um ódio que nunca lhe conheci ao qual eu respondi com a perplexidade.
As suas palavras atingiram-me com a vileza da infâmia, aquela sensação de que não existe desespero maior do que saber que a vida que se conhecia já não mais existe, que a liberdade era um fôlego sem fulgor. Eu era agora um rei destronado porque não desejava adicionar à grandeza ao meu reino atacando os reinos vizinhos de modo a ter mais terras e fortuna.
- Prefiro ser o mentor do meu povo rumo à harmonia e não o causador da sua perda! – gritei, convicto da sabedoria das minhas palavras.
- O nosso povo não tem mais fortuna do que a que tinha no reinado do rei Alexis!!!
- Mentira! Somos agricultores, pescadores, arquitectos, artistas, comerciantes…
- Uma riqueza tão estável como a água de um lago onde nem a chuva nem o vento infligem a sua magnificência.
- Como tudo leva o seu tempo, ainda estamos a aprender a melhorar os dons que todos têm…
- E quanto tempo levará para chegarmos ao nosso auge??? Não merecemos ser mais do que ovelhas? Não merecemos ser lobos com sede de conquista???
- E fazer mal a quem nunca nos fez mal???
- Fazer bem ao nosso povo que merece muito mais!
- O nosso povo ou tu?
- Basta!!! Não ponhas a ridículo o que merecemos!!! Tragam a rainha!!!

Pensamento

Não me preenche aquele conceito de que parvo é o mudo, o surdo ou o cego. Parvo é aquele que pensa que manda o que quiser e que nunca sofrerá o que não quiser!

excerto de "A suave intriga"

− O mundo já é perfeito, não precisa da minha arte.
− O mundo nunca será demasiado perfeito para a Arte.
− Não acredito. Vejo-o, sinto-o e é tudo tão inalcançável para mim. Não o posso melhorar quando pinto.
− O mundo não pede para ser melhorado através da Arte. Apenas podemos descrevê-lo da melhor forma possível dado o facto de sermos tão falíveis.
− Erramos tanto quando descrevemos o mundo. Surgimos com uma visão tão alterada que até pensamos que não estamos a viver neste mundo, mas num outro, um tão estranho e corrupto que nos arrepia e consome.
− Então, o artista, quando cria baseando-se no que está a ver, mente?
− Todos os artistas mentem. Só assim é que conseguem ser originais…
− E por que não queres mentir?
− Eu queria poder descrever o mundo tal como ele é, mas, quando pinto, deturpo-o.
− Somos produtos de tentativas e erros. Desistir de algo só porque é difícil não nos faz bem.
− Eu nunca desisti! Apenas sujeito-me a outras experiências, a outras verdades que não sejam as que tento criar.
− Preferes observar do que criar?
− Sim.
− Isso não te prejudica?
− Como assim?
− Consegues observar o que os outros criam sem te sentires mal?
− Nunca senti inveja.
− Não falo disso. Nunca sentiste saudades de criar, de fazer algo por ti, vindo com uma arte só tua?
− Tento não pensar nisso.
− Porquê?
− Se pensar nisso, talvez recomece a pintar e depois descubra que não posso parar, que pintarei até ao final da minha vida e que serei sempre triste.
− Porquê pensas assim?
− A meu ver, o mundo é demasiado perfeito. Assim, tudo que nele existe é como deve ser. Há uma luta constante entre o Bem e o Mal. Há tanta beleza e tanta fealdade que nos faz sorrir e entristecer. Como é que poderia criar algo que fosse tão verdadeiro quanto o mundo é? Se voltasse a pintar, tentando e errando, até ao final da minha vida, não teria um momento de paz pois sempre pensaria que aquela flor, aquela árvore, aquele ser, tão vivos quanto me pareciam na altura, já não me transmitia a mesma energia e o mesmo encanto. Teria de admitir que eu o tinha morto.
− Se a pintura te faz sentir assim, porque não experimentas uma outra arte? Cinema, Fotografia… Os anos passariam e terias a certeza de que, por estarem ali, existiram, também a incerteza sobre o facto de estarem ou não vivos.
− Não penso na vida de forma tão simples.
− Nem eu. Se a vida fosse simples, de que valeria a pena viver?
− Há sonhos que caem e outros que começam.
− Não era um teu sonho, criar?
− Sim, era.
− Já não é porquê?
− Os anos passam e um pouco da nossa felicidade murcha porque descobrimos que não somos assim tão bons…

excerto de "A singular magia da devoção"

Era a primeira manhã de Primavera de 1858 após meses de solidão invernal. Tal como percorro o Tempo com o perfume agridoce da memória, percorríamos, com os nossos passos, uma floresta inusitadamente densa e coberta de milhentas cores que apenas a Natureza soube imaginar.
Era esta a época do nascimento, do renascimento, da inovação, da renovação, dos olhares que se cruzam, dos apertos no coração. Para nós um período festivo consagrado à amizade que nos unia desde a infân7cia ao mais platónico dos amores, a um acordo tácito que nos ligava além dos dotes de qualquer mundana paixão.
Éramos ambos ainda abençoados por tão bendita estação e não imaginávamos voar para além dos poucos anos que revestiam os nossos corpos. A Arte fizera-nos curiosos, a Vida aventureiros mas sabíamos que a nossa verdade nos dizia muito mais. Nunca deixaríamos a floresta que nos tinha sempre abrigado.
Com os sorrisos que nos enfeitavam a face, sentíamos que fervilhava uma maior alegria ao nosso redor, tudo por uma amizade ainda criança que sustinha as nossas almas abertas para o magnífico horizonte deposto pelos deuses para adoração dos simples mortais. Consagrado a pintores que bebiam da beleza, o cenário verdejante irrompia banhado pela esfera cintilante que assomava o céu diurno. O Tempo, que nos tinha feito nascer, nos tinha mudado de diferentes formas. Eu, do aspecto franzino e pouco interessante, tinha crescido em tamanho e robustez, em sensibilidade e cultura. Ela, do aspecto desengonçado e tímido, tinha adquirido alguns centímetros a mais e curvas voluptuosas, delicadeza e inteligência. Afinal, este era o prólogo da vida adulta e apenas tínhamos pouco mais de 17 anos.
Para que não haja sobressaltos, seduz-me a ideia de suster nas minhas lágrimas todas as memórias que contiveram a plenitude da juventude, um leito rico de frutuosas ilações que apenas o Tempo concebe e que nenhum rico ou pobre é impedido de conhecer.
Para além de reconhecer uma certa empatia em todas as maravilhas que contemplávamos, algo mais nos aproximava, algo que tinha desdém ao jocoso arabesco que os olhos enriquecem. Desde há vários anos que a infância nos tinha ensinado a partilhar pensamentos e sentimentos tal como um jogo que liberta a alma das correntes que a aprisionam à indesejada solidão.
Nos meus sonhos, ainda ocorrem imagens de espelhos líquidos que a Natureza soube plantar nas planícies desalinhadas encravadas em terra firme, falsas gémeas do mar. Não me sentia conduzido a um sentimento de empatia com a água, antes o fulgor que revestia as saudades de um amor e da memória do dia em que vi Elizabeth, sentada à beira de um lago, procurando o seu manto liquido tocar.
Foi nesse mesmo momento que o meu coração soube viver para além do corpo. Viesse dia ou noite, chuva ou sol, brisa ou vento e até um milhão de tempestades como prenúncio do apocalipse e nem de um milímetro de um tão perfeito amor poderia eu afastar-me!
A partir de então, fui cobiçado pelo nervosismo, regido por uma tal erupção de sentimentos que nenhum outro pensamento conseguiria idealizar além daquele em que declamava toda a prosa e poesia que a alma e o coração conseguem invocar. Éramos perfeitos no nosso diminuto reino de luz e alegria, conforto e bem-estar, a inveja de quem já perdeu a razão de viver nada tendo a ver connosco. Se estivéssemos a mil léguas de distância, tal não seria suficiente para separar as nossas almas, a certeza de que não existiria nenhuma forma verbal que corroesse os pensamentos da devoção que nos banhava.

excerto de "Os lamentos que a alma invoca"

Perdoem a minha falta de humildade e vejam as seguintes palavras como aquelas que surgem de um homem que se “perdeu” em divinas paisagens que foram o seu berço e, espero eu, o seu leito de morte. Se existe algum paraíso na Terra, este será, pelo menos para mim, o que mais direito possui, pois revela todo o significado da palavra Beleza, quando a pensamos no mais doce e profundo que contém. Afinal, não será a Beleza, a eterna deusa dos homens que procuram inspiração nos inocentes recantos deste nosso mundo? Oh! Quanto eu daria para que houvesse muitos mais paraísos na terra, pois, se algum dia Woodenthrone morrer à custa da ganância do Homem, perder-se-à a inocência de gloriosos tempos e uma nova e trémula alvorada nos esperará.
Embora o fenómeno da beleza ainda paire na minha mente, a minha alma contém ainda aquela estranha sensação que é sentir uma outra realidade pairando como um velho abutre que apenas sobrevive à custa da morte de outrem. Desculpem esta tão brutal queda após vos ter agraciado com tão sublimes adjectivos acerca da região onde nasci mas, tal como o dia termina, também a noite tem de começar. Como poderia suplantar a Natureza e dar-vos um tão grandioso espectáculo tal como o pôr-do-sol se um simples humano sou?
Já alguma vez se fartaram do mundo agreste que o ser humano criou? Já alguma vez ousaram enfrentar todas aquelas sombras que nos fustigam com medos, em simplesmente desejar conhecer? Lembro-me, talvez com um estranho sorriso, dos momentos em que o velho Grimm, mordomo do meu pai, tornava as noites de tempestade ainda mais aterradoras com os seus contos de seres perdidos nas sombras, maldições eternas, demónios que aterrorizavam aqueles que eram descuidados. Não sei se me contava tais histórias devido a um secreto desejo sádico em aterrorizar-me ou talvez tivesse um outro objectivo menos lúgubre e pretendesse apenas entreter-me, no entanto, enquanto crescia, sentia-me cada vez mais terrivelmente fascinado por essas histórias que exercitavam a imaginação e as emoções terrenas. A partir de um certo ponto da minha vida, deveria ter uns 16 anos, comecei a escrever sobre tais tópicos. Muitas foram as histórias que desde então escrevi e dei a conhecer ao mundo devido ao ímpeto de procurar a verdade além desse véu que nos confunde e aflige, chamado Vida. No entanto, aquela que vos vou narrar, surgiu na primeira metade do Sc. XIX e poderá ser considerada verídica. Se não me acreditam, peçam a qualquer habitante desta região que vos conte a história de John Reeves. Saberão então que um escritor pode criar do nada mas, por vezes, relata a verdade.

excerto de "E o mar guardou a minha alma"

Pintei os meus dias com as lágrimas da tua perda, o desenlace de memórias já idas que ainda me sabem aquecer com quem já não tem luz. O mar sempre foi a tua casa, a tua sina, um enorme jardim de novidades que pecava apenas pela amarga distância que desenhava.
Lembro-me de sermos crianças, de percorrermos a praia de São Tiago com os nossos pezinhos rosados brincando e sorrindo como quem não conhecesse outra vida. Sim, havia fome, mas estar ao teu lado fazia-me feliz. Afinal, que dizer do amor que nasce tão jovem, da ansiedade de ver os dias passar e ter a oportunidade de estar junto a quem a alma diz mais do que tudo o resto?
Passávamos noites observando as estrelas, fugindo da ânsia de se ser escravo de uma ordem natural, tomando apenas fôlego no ar que cada um respirava, libertando o desejo, tesouro mais valioso do que qualquer furtivo beijo. Cedia-se carícias ao desconhecido, palavras soltas que cada um arriscava tomar como suas, inflamando o peito com um sentimento mais valioso do que qualquer tesouro.
Tiveste de te afastar da escola para seguir as ondas do mar, mas o professor que tudo me ensinou, deixou-me vaguear pelas ondas dos seus livros, a inspiração de outros anos que perdurava no papel amarelecido das memórias. Aí encontrei, nos momentos de ócio, outros mundos que esta ilha jamais me poderia dar, embora soubesse que apenas o teu coração, apenas a tua alma, apenas os teus lábios sonharia para sempre tocar.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Febre


À noite, não há silêncio que me queira embora desdenhe as sombras que me pedem ajuda porque me fartam as esmolas de irmandades pútridas e sem qualquer riqueza! A alma, como se nunca tivesse sido jovem nem conhecido o prazer de um estonteante calor, é pintada com um cinzento-dor que lembra a angústia de promessas deixadas ao sabor de um reles vento, estas esvaziadas da sua glória pelos lamentos de fantasmas sem moradia.
            Aqui, neste reino que não conhece qualquer harmonia, troco tantas palavras com a pior das loucuras e perfuro o céu com gargalhadas porque não me interessa o que tenha a ver com o tédio, o que rima com a luz, o que professa beleza, encanto ou subtileza. Pois… Nada que interessa ao pudor me pode vestir pois já há muito o meu íntimo cedeu ao delírio que é nunca adormecer e eu, parco em orações, conduzo as nuvens a esconder o sol e a inocência. Que me importa o seu brilho se nada têm de valor para quem conhece mais da escuridão?
            Para que saibam, nasci entre demónios e poetas, cedo conquistei a luxúria com o descalabro dado a quem professa a sua glória entre os mortos e converti os sonhos de inocentes em pedaços entorpecidos de um só inferno. A minha caminhada, sendo aquela de quem não é servo de reis ou rainhas, de profecias ou dúvidas, mas de quem pretende o desbravar da terra humedecida pelas lágrimas de quem já sofreu. Hum… Talvez pensem que tal seja apenas uma demanda dada aos espectros mas, hoje, o quê sou eu? Afinal, o meu nome vagueia entre os vermes e depravados, a minha voz é ouvida em milhentos banquetes onde o asco e a podridão são celebrados, as minhas pegadas podem ser vistas entre tristes ruínas e detestáveis memórias.
            Oh abominável encanto que é proporcionar a existência com o mais reles desejo! Sempre o quis esquecer com as palavras de quem peca de mundo em mundo, de quem é demasiado atroz para com quaisquer sorrisos, de quem padece de deformidades que lembram as convulsões de redemoinhos sem fim. Se tenho os trejeitos de quem já está morto, é porque todo o sangue que antes corria nas minhas veias é agora um rio e o desconhecido, aquele mar que bebe de mim.


Jorge Ribeiro de Castro

(declamado aquando do Sarau MadCake Halloween no dia 31/10/12)

Petulância


Sou, provavelmente, demasiado estranho para adormecer
neste reino onde os mortais vagueiam.
A minha alma é um palco de batalhas insensatas
onde as sombras e as dores apregoam feitiços,
onde as memórias e as feridas regem discordâncias,
onde as tuas verdades e as tuas mentiras caem pelo meu hediondo riso.

Embriagado,
tenho trejeitos de insanidade e vocábulos de depravação,
suspiros que são lâminas ensanguentadas
e gritos que desenterram qualquer dor.

Deslumbrado,
caminho por estradas feitas de ossos de quem nunca me pôde ver,
cativo a noite a padecer de males nunca imaginados
e subscrevo um poema em que só a glória dos pecaminosos existe.

Sim, traço teoremas mal definidos,
árduos desenhos provocados por duras punições.
A minha arte sendo voos e quedas em que mal respiro,
feridas e dores que se juntam como prémios de quem está farto de tais lições.

Sim, há manias a mais no meu fôlego,
talvez porque há mundos a mais na minha imaginação
e pontes que se ligam de tantas maneiras à rebeldia,
que fazem-me procurar algo mais belo do que a simples ovação.

No meu peito, arde a sensação de que os meus actos
são de uma abominável genialidade que ferve, transpira e grita.
Talvez seja a noite, o álcool ou a droga que me impelem a ser assim.
Para uns admirável riqueza, para outros um palhaço vazio,
e eu, apenas confortado pelo papel e pela tinta,
em nada disso me fio!

Sabem, muitas vezes escrevo imaginando-me num patético esgoto.
Aquela habituação que faz o brilho cair
sendo o bater de um relógio descompassado
que impele a harmonia a ruir
e desfaz a certeza em filamentos sem cor.

A minha poesia é arrancada a lágrimas e lamúrias,
a tortuosa voracidade sendo uma fome que nunca preenche,
esta tão pérfida, resmungona e detestada,
que para nada serve e para nada servirá
a não ser para ultrajar a vida com a dor.

Podem pensar que estas estranhas ideias de um suposto altivo
são palavras desgastadas pela presunção,
mas, para mim, são apenas miseráveis paisagens descritas por pobres e podres meios
para que a virtude pondere procurar a riqueza que antes fugiu.
Se esta tinha medo?
Não sei, estou sempre tão além de tudo que nunca a conheci.

E assim vos digo que muitas vezes me esforço
por ser tanto quanto a alma me pede,
mas muitas vezes sou enganado pela mais estridente insensatez.
Se algo em mim fede?
Desculpai-me, sou humano.
 Por favor, enquanto eu não sair daqui,
que tapem o nariz.

por Jorge Ribeiro de Castro


(Declamado aquando do Sarau MadCake  no dia 08/09/12)

segunda-feira, junho 11, 2012

Não me sinto reles quando sonho, apenas a minha pele queima porque os teus beijos fazem-na arder, um sopro tão quente que o sol até cai e a manhã não chega e nunca chegará. Somos a noite, somos fervor, somos tudo o que quisermos, até um mistério que perfura a solidão e encontra sorrisos além da compreensão mundana. Nunca ninguém saberá quem somos, o que somos, o que fizemos e o que faremos. Nunca ninguém viverá ao nosso redor, falará connosco ou nos tocará. Não nos interessam as outras cores, tal como não nos interessa a manhã que nunca chegará. As carícias... sim... sim... sim...

- Promete-me uma coisa...
- O quê?
- Quando eu morrer, não chores.
- Porquê?
- Quero viver dentro de ti...
- Mesmo que eu chore, viverás dentro de mim.
- É que, mesmo que eu seja cremado, o mundo terá o meu corpo. Quero é que o meu espírito consiga agarrar-se ao teu, que nunca se afaste. Teria uma infinidade de tormentos por não saber onde estarias, por perder o amor que tanta felicidade me deu enquanto vivia.
- Nunca deixaria o teu espírito se afastar de mim! As minhas lágrimas seriam de dor por não te poder tocar mas de alegria por sempre te sentir.

Porquê a alma não se escoa por eu tanto escrever?
Talvez porque a alma não seja um lago mas um universo...
Enquanto procuro, outros descobrem...
Enquanto sorrio, outros choram...
Enquanto sonho, outros morrem...
Enquanto nos beijamos, não há universo mais belo do que o nosso...
A corrosiva imponência das palavras na boca de um poeta que morde, que rasga o silêncio com o arejar de madrugadas e penetra a fogosa sensibilidade de uma bela mulher...
Tantas esperanças passaram pelos meus olhos, queimaram a minha alma como se esta fosse de empréstimo.
Pensei demasiado, senti demasiado, sorri demasiado, chorei demasiado, caminhei mais do que algum dia pensava poder fazer.
Tantas personagens de outras histórias olham para mim como se eu fosse um renegado.
Não têm mais nada para fazer?
Se caminho e não lhes dou importância, pensarão que sou louco?
Não me importo!
Apenas escrevo, voo e vivo...
Sim, quero fazer mais do que sofrer!

segunda-feira, abril 09, 2012

- Blarghhhh
- Hey? Why did you say that?
- Blargh is my way of saying that I don't like!
- That's a very strange way of saying it.
- No, it isn't.
- Yes, it is. You could just say that you don't like.
- Yes, I could but it wouldn't express that I really don't like.
- Well, you could just say that you really don't like.
- Yes, I could but I really, really don't like.
- Why you really, really don't lik...e? Don't you want to get married?
- Well... ehhh... Yes... Yes!
- So?
- I just don't like that your father is pointing a gun at me...

sexta-feira, abril 06, 2012

Finalmente uma promessa arrepiada!
Atingi-a com o meu bafo quando a dor a mutilou...
Não sei quanto tempo queimou nem me interessa se das cinzas algo nasceu, apenas sorri e caminhei, a dura prova ficando para trás...
Amá-la?
Não sei se posso, mais parece uma prisão onde a miséria gargalha, onde a felicidade não quer entrar, onde parece que estou a mais...
Que não me considerem impecável!
Sou, por vezes, demasiado intratável para prestar para alguma coisa do que uma amena cavaqueira sobre os prós de um beijo.
Dado, não roubado, como já me aconteceu, uma noite que perfumou a minha alma com a loucura, que fez-me virar a alma num ângulo de 90º. Sorri, oh sorri por tudo que é belo, expressei-me em mensagens apaixonadas e apalermadas, respirei como nunca antes o fiz e vali-me de um inquieto charme pouco tempo atrás não descoberto.
Ainda me sinto abismado, capaz de me deliciar com a escrita mais estranha, mas, perguntarão, com menos sede?
Dizer que sim seria a pior mentira de um louco!
Enquanto o sono não vem, surgem-me desejos que são rasgos de tantas cores apanhadas pela mortalha da noite onde a minha língua desenha um rio de sinuosidades ofegantes nas tuas coxas. Sem nada a perder, enfio-me e grito-te como se um mundo quisesse vir, aberrante, tempestuoso e inquieto. Os teus olhos dançam como satélites à volta da terra e enrolas-te em mim como serpente afogada pelo fogo. Sem te pedir, contas histórias entre os gemidos, falas do prazer, soltas-te no futuro... ´
Ah! Idiotices! Nada me prometas! Nada me prometas!
As palavras de nada valem, são lâminas enferrujadas pelo momento que já caiu! O que importa é o que agora nos une, esta ponte que ainda não ruiu...

quinta-feira, março 15, 2012

Loucuras

Um pouco de mim corre nas tuas veias, um pouco de mim sangra no inferno, tudo porque ainda me lembro do paraíso mas vivo num lugar onde a incúria é veneno.
                Arrepiado, inconstante e, mesmo assim, feliz por amar e praguejar, voo com apenas uma asa, a outra tendo caído quando deixei de ser inocente. É por isso que me vêem atartamelado e as minhas palavras são ecos disformes de tudo o que navega na alma… Sim, são disformes porque nunca sei traduzir da melhor maneira o que é criado dentro de mim.
                Se estou calado e pensativo é porque me sinto longe da pálida realidade que não sabe convencer e disserto comigo mesmo sobre todas as ilações e hipóteses. Se aparento estar feliz, conquistado pela dissonância da ebriedade, acredita que uso uma máscara que confunde porque não quero pensar em algo mais do que o momento.
                Não sei se algum dia o que tenho desabará, se cometerei o erro de demonstrar que não sou assim tão certo, que a minha alma e o meu coração lutam contra a minha mente e o meu corpo. Várias vezes, são estas últimas essências que ganham, tal como a minha solidão ao esbracejar vitória e eu, dilacerado, culpo-me pelas quedas, por nunca aprender a calar todas as dúvidas e baboseiras quando é o verbo mais valioso, aquele que deverei sustentar!
                Cabe à alma e ao coração ensinar a mente e o corpo a viverem…
                Cabe ao que resplandece, fazer com que o opaco deixe de transmitir a sua doença, abrir todos os lados com a virtude que é o conhecimento…
Se algum dia te reencontrar, acredita que não serei o mesmo.
                Afinal, sem ti, sem essa fragrância que tanto me conquistou como me defraudou, saberás que não tive outra opção a não ser morar num outro reino.
Poderei pintar o mundo de muitas cores, afinal, as palavras também têm esse dom. No entanto, a minha alma continua de preto...
Já me disseram que sou demasiado simpático...
Bem, de certeza que certas personagens dos meus livros irão discordar ;)