sexta-feira, dezembro 30, 2011

4º livro - "Por caminhos arcanos errei"

Este é o meu 4º livro. Um romance de mistério/suspense/​erotismo/tragédia cujo enredo desenrola-se no final do séc. XIX num castelo alemão. Um jovem inglês procura conhecer os descendentes da família Wolkesnacht, separada da sua devido a atritos entre dois irmãos no séc. XVIII. É agraciado pelo encanto e o amor mas descobre um segredo que melhor seria nunca ter sido conhecido. É editado gratuitamente em formato e-book ( http://www.mediafire.com/​?aqz6cgpiq9b6u5p ).

quinta-feira, setembro 08, 2011

Vídeo do livro "O cortejo das virtuosas solenidades"

O download do livro "O cortejo das virtuosas solenidades" pode ser feito em:

O meu 3º livro, O cortejo das virtuosas solenidades", disponível como e-book gratuito. São 8 contos sobre romances e tragédias, mistérios e descobertas, sonhos e pesadelos, inícios que são interessantes, meios um tanto estranhos e fins que dão meia pirueta estrambólica. A quem desejar ler algo que acompanhe bem a manhã, a tarde e a noite (a madrugada é por vossa conta...). http://www.mediafire.com/?v3b6d75usc4r1zb

O meu eco para além do vento (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Penava pelos acontecimentos do dia enquanto caminhava… Este sabia-me a amargo, o esvair de dúvidas a cada passo, a solidão esmagando o sorriso, o brilho da harmonia sendo um fogo por queimar pois acariciava-me uma cegueira imperdoável, um coração sem eco. Não me sentia feliz pois se a vida me quer bem tem um jeito tão estranho de o demonstrar. Já estava farto de ter apenas contas a pagar, do cansaço que se apoderava do corpo sem desejo de o fazer dormir, daquela insonsa melodia que dizia à alma que mais valia estar morta. Não tinha um emprego a tempo inteiro e sei que mal me alimentava mas desejava dar a conhecer o que surgia do meu íntimo o mais depressa possível, as horas passando quando não trabalhava porque a escrita era aquele lampejo de sanidade que me distanciava do sinuoso trilho que é ter uma facada no coração. Aquela dor que só surge pelo facto de já não haver um amanhã que valha a pena…
Que faria aos minutos se estes se compunham de desprezíveis momentos em que a inspiração e a imaginação tardavam, os meus suspiros sendo apenas cansadas banalidades? Talvez nada mais do que desenhar no vazio com as palavras que o tormento faz cair…
Este era mais um dia e apenas um livro e uma capa com alguns dos meus escritos na mão esquerda perfaziam parte da pouca riqueza de que me podia orgulhar. Pretendia desanuviar, esquecer todo o mal que me tinha acontecido, e que, se não é uma maldição, é uma tragédia que a poucos acontece, talvez devendo sentir-me orgulhoso de ter algo mais para dizer do que contar as lágrimas que caem.
A esplanada a onde ia habitualmente não era luxuosa mas tudo que a rodeava fazia parte de um todo que muito me interessava; duas margens de uma mesma realidade que detinham magia e loucura. As pessoas e os seus hábitos peculiares, um jardim com frondosas árvores pintadas com as cores garridas da Natureza, os edifícios gritando ruína como se houvesse aquela necessidade de apagar o que era belo e criar uma outra beleza, esta mais fria, mecânica, sem qualquer encanto que a alma pudesse louvar.
Para quem ainda não sabe, tinha já escrito contos… Alguns tinham sido publicados numa revista de segunda categoria que poucas pessoas liam. Preparava o meu primeiro livro, um romance sobre o desespero que é vivermos para nós próprios, a interacção com o vazio, a confluência entre a sombra e a escuridão, talvez como a minha vida, talvez aquilo que era e o que ainda podia ser.
“Eram paredes de mar salgado que tingiam o meu caminho… e tudo o que me deixava contente estava no passado… as sobras de uma manhã sem abrigo…“
Enfim… Os meus passos eram de uma tal nostalgia que apenas me alegrava o facto de estar sentado perante um café e poder traçar o papel com uma caneta, desenhando no vazio com o que de mais valioso, ou não, podia traduzir da alma. Como alguns, a minha inspiração também surgia dos sonhos e apesar de, por vezes, sentir que tudo estava bem, os que tive em criança, de tão ridículos que eram, ainda me doíam. Isso talvez porque a solidão ainda me magoava, o facto de ter caminhado por vários anos muito bem acompanhado sendo a beleza que agora me faltava. Infelizmente, o inclemente desespero surgiu e o Tempo soube mostrar-me o que é ter de viver demasiado cansado sem o desejar.
Apesar de ser tão normal quanto os outros homens já me fartava ser palhaço nesta vida miserável em que a ruína é uma praga envenenada que dita que já não posso mais sorrir, em que as dívidas parecem ser gotas de angústia que retalham o meu aspecto franzino, a resposta a uma lágrima já sem sabor que corrói o íntimo… e tudo porque sofrer é uma arte.

A rosa e a madrugada (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Apesar de o dia já ter fenecido, de os ramos das árvores bailarem irrequietamente e de a chuva banhar a terra de forma perturbante havia certas circunstâncias que me faziam bem.
O facto de estar dentro de uma sala e ter a vibrante sensação de abrigo, uma esperançosa fuga para além de todo o dramatismo criado pela tempestade. A luz de vários candelabros dispostos em locais estratégicos que parecia saudar-me com a boa aventurança que apenas o requinte de um certo romantismo poderia elevar. Por último, observava uma formosa mulher de cabelos louros e olhos castanhos que se distanciava da agreste envolvência da Natureza e regia o ar com deliciosas figuras estilísticas, a voz e o piano discorrendo sobre cenários de belos tons onde tudo o que era sublime transmitia serenidade.
A sua voz soava como a mais doce melodia de um anjo, a alegre sensação de cortesia perante a suave pintura de sorrisos e expressões de riqueza num véu de sensações inebriantes. Mal a tinha visto e já me sentia seduzido pois cantava uma alegre composição enquanto os seus dedos desenhavam contornos harmoniosos nas teclas do piano, tal sonho de moradias esfusiantes onde se regista a sensação de conforto. Não me lembrava de alguma vez ter ouvido tão majestosa obra mas tocava-me o coração conhecê-la e à sua intérprete, sentindo-me como se não houvesse um outro recanto que merecesse tal divina iluminação.
Parecia-me feliz, a sua expressão levando-me a sorrir, a desejar viver a sua alegria com as palavras que somente a concordância entre artistas poderia disseminar. Sim, também eu o era embora tocasse um instrumento cujas cordas tinham outro dinamismo.
O violino sempre foi o meu instrumento de eleição, os sons que dele se podia tirar tendo a liberdade de criar alegria ou tristeza, serenidade ou raiva. Sem pudor, dizia sempre que este elevava a alma a um recinto impermeável a todas as propriedades que a crua realidade poderia invocar. Além disso, havia maior liberdade para um artista por este poder tocar as mais belas peças mesmo sendo um andarilho sem casa.
Longos momentos passaram e tudo o resto parecia distante, a voz e o piano sendo figuras impressionantes num recital que não precisava de qualquer outro interveniente. Sentia-me feliz por ser um espectador, poder ser contagiado por tudo o que dela era, considerando uma honra estar perante tão grande nobreza e não desejando estar em algum outro lugar ou momento do que esse.
Sendo conhecedor da frutuosa emancipação que reveste o espírito, a minha ousadia pelo devaneio rasgava também este momento. A verdade é que o íntimo pode aprender com a harmonia a ser altivo, a libertar delicadeza atrás de delicadeza mas, mesmo assim, o que nos atrai também pode consumir o conforto quando existe uma certa conformidade com o que de mais trágico a Natureza concede. Ao silenciar a voz e o piano, o seu choro foi também a angústia no meu peito…
Abrindo os olhos, senti um aperto que me constrangiu e deixei as lágrimas escaparem, a minha face sendo banhada pela mesma dor que cortava a serenidade em tão divina mulher como se tudo o que me apercebia nela encontrasse eco em mim. De modo a que se sentisse um pouco melhor, decidi-me a tocar uma rica melodia no meu violino, uma forma de mostrar que existia algo mais do que a importância dada à mágoa. Primeiro, a sua expressão teve laivos de surpresa, depois aproximou-se da confusão e, finalmente, de um certo arrepio.
– Charles?! – disse, espantada – Charles, és tu?
Não me conhecia por tal nome. Aliás, não havia nome para mim mas deixei de tocar e, após colocar o violino e o arco em cima de uma mesa, aproximei-me dela.
– Não pode ser!!! – gritou, uma expressão de incredulidade desenhada na sua face.
– Desculpai-me, bela dama, mas não conheço quem me julga ser. Infelizmente, não me lembro do meu nome.
– Sou… Mas… não te lembras de mim? Mas… Não pode ser! Charles! Sou eu… Béatrice… Mas… isto é impossível… Charles não mais existe… está… morto…

Tenho um sonho como consorte (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Acordei para um outro momento e parecia-me ter visitado séculos de que ninguém tinha memória, um sono com o louvor de jardins encantados onde pintar a fome, o desejo de cortejar as paredes da harmonia e do descanso com os olhos fechados, a cor de outrora sendo um ligeiro bem-estar que reluzia os lábios com o sorriso. Já não me lembrava de quando tinha dormido assim tão bem, o corpo conhecendo os trejeitos da mais viva substância onde não havia qualquer dor, os meus passos sendo tão leves quanto o ar, a alma insuflada pela alegria de ser este o mais maravilhoso dos dias que a minha jovem existência conheceu.
Iria-me casar… O belo homem que tanto seduzia cada sinuosidade da minha condição de mulher e me elevava o espírito a ser inundado de luz, sendo pródigo de uma arte tão maravilhosa que poderia dá-lo a conhecer como um anjo que o mundo viu nascer. Assim, com toda a vaidade elogiava os seus actos como sendo os mais próprios de quem sentia a riqueza que é lutar por sonhos e vê-los concretizados. Ele era a epítome de quem eu tinha sonhado para meu esposo…
A minha felicidade era tão grande que nem me importava que a inveja levasse certas pessoas a pensar que o estatuto que ele tinha me dava a inaudita sensação que inflama. Eu e o meu amado éramos mais do que elas poderiam alguma vez sentir pois o amor que nos conduzia era a divina concepção materializada em solo mortal. E alegremente vivia, a liberdade de traduzir o que de pitoresco inebria a Arte sendo as formas mais doces e luzidias de agraciar a vida com um valioso requinte.
Oh, não é por dizer isto que se deverá achar que me sinto mais do que todos os que aqui vivem! Apenas verto tamanha felicidade por as ricas cores pintadas no meu ser serem cenários incandescentes que surgiram com o mais elegante verbo que o linguajar acariciou. E assim elevo a minha voz a pronunciar que hoje é definitivamente o dia mais belo de toda a minha vida! Apetece-me dançar, cantar, sorrir e rir como se louca fosse porque louca me sinto de tão verdadeiro é este sentimento! Estaremos finalmente unidos ao fim do dia pela mais bela das poesias, o entoar do verdadeiro perfume que embevece a felicidade.
Sim, hoje o meu sorriso é dos mais sublimes que já tive e se não me importam as manhãs de outros dias em que olhava para o verdejante horizonte da propriedade pertencente ao meu pai, é porque todas elas tinham uma riqueza menor. Mesmo assim, antes de o meu escolhido ter-me dado a conhecer o seu encanto por mim todos os outros momentos tinham uma riqueza ainda menor e, estes, menor ainda do que a ocasião em que fez valer o desejo de se unir a mim para além da alma e do coração, a ponte mais íntima que apenas o matrimónio poderá suster.
Ah, tenho a louca vontade de gritar que tudo farei para que os momentos que surjam sejam ainda mais belos, nada de desencanto nos levando a guardar as sombras como paródia de outros sonhos. Essas, torpes nuvens baixas onde a melancolia ensina a viajar, já não farão parte da minha vida pois este dia, o mais belo de todos, terá ecos de louvor em outros momentos porque eu e o meu amado uniremos as nossas vidas e toda a magia que o amor celebra fará parte de nós. E, como o sonho está prestes a ser concretizado, sinto-me cada vez mais forte, rica, uma sede e uma fome insurgindo-se pelo meu ser como se apenas esse momento fosse o mais divino. Afinal, será conhecida a chama que o corpo de cada um possui, reparando qualquer mal que possa ter surgido com o desejo e a privação.
Sentindo-me carente, caio outra vez na cama e, tocando o meu corpo com aquela vontade que tão bem conheço, sinto já as suas mãos a fazerem-me sentir um ávido ardor, a presença de uma arte que enfeita o que é ensinado pela luxúria, as contorções de um glorioso prazer deliciando-se com o que é sublime. Deixando-me sorrir, recordo os seus beijos vibrando pelo meu pescoço, tal poética espalhando-se por mim como as ondas que o mar conhece, aquela suavidade que traz ao corpo fortuna.

Um brilho incerto em meio ao pó (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Muitas vezes desejei ter nascido num outro lugar, num outro tempo e ser um homem livre que regesse o seu próprio destino. Outras vezes desejei que a divina essência se tivesse esquecido de entregar a minha alma a este corpo pois, por um odioso azar, sou fruto de um país envolto em singulares perdições tais como a negligência, a imoralidade e a guerra.
Nascido em meio a uma nobreza escondida pela bafienta cortesia, a meu ver o doloroso naufrágio de todas as virtudes disfarçado pela sumptuosidade, ensinaram-me as odiosas maquinações e pérfidas acções que enrubesciam os vitoriosos feitos de outrora. No entanto, essas detestáveis proezas não tinham qualquer mérito pois se o sangue de inocentes mancha um reino então o amaldiçoa para todo o sempre. E porque quereria viver amaldiçoado? Sem qualquer medo, digo que preferiria ter nascido numa rocha qualquer do que neste lugar tão verdejante onde nem a chuva ou o vento conseguem as nódoas limpar!
Após tantos anos, ainda penso o quão aviltante é a menção de que um simples pedaço de terra, ou uma honra maculada pelo egoísmo, possa ser mais importante do que o surgir da bem-aventurança, a cura para aquela miséria que é não ter melhores sonhos para sonhar. Afinal, que proveito traria à alma assassinar homens e mulheres, crianças e velhos, se o seu sangue tinha tanto valor quanto o nosso? Como seres dados ao sentimento e pensamento, vivemos o melhor que podemos por um determinado tempo, tal não devendo ser conspurcado pela cáustica doença de outros. O pior é que essa doença fazia os menos elevados em matéria de justiça a julgar-se de maior préstimo em tudo quando, a meu ver, por serem tão menores nem a uma larva poderiam ser comparados.
Passo a explicar… Apesar do que se considera correcto, a vida não é feita apenas de luz. Enquanto certas pessoas, estas detestáveis e arrogantes, não sentem a frieza da fome; outras, de menos sorte e maior virtude, têm de penar com o pouco que lhes é dado pelo fruto do seu trabalho. Da minha parte, e sem deixar de sentir um nó na garganta, tive o desprazer de conhecer certos aristocratas, donos de propriedades rurais. Se o maior requisito para a desumanidade é se considerar superior a quem provém das classes mais baixas, então posso dizer que tive a boa fortuna de não advir delas porque a tacanhez e a arrogância vestiam detestavelmente esses nobres. Se não fosse filho de um rei, um déspota que ridicularizava qualquer moral, de certeza que seria tratado como subalterno ou seja, um mero farrapo que só serviria para limpar o chão.
Sendo o mais novo de três irmãos, era diferente em diversas atitudes. Desanimado pelo que via e sabia era, infelizmente, sujeito a agir de determinada maneira devido a um nome e a um posto. Não me lembro de haver um segundo em que o verdadeiro sorriso tocasse o meu âmago tão grande era o peso de ter de viver consoante determinados requisitos. Como príncipe, a minha vontade era limitada, pois se afirmasse o meu descontentamento haveria quem dissesse que a ingratidão formava o meu ser, e tudo o que eu era não mais existiria. Isto como se apreciar os benefícios da Arte e desejar o bem a todos fosse um perigo para quem detinha o poder.
Foi através da minha mãe que descobri as maravilhas que existem além do toque funéreo das espadas e do asqueroso manto da depravação. Assim, comecei a apreciar a literatura, a música, a pintura e a escultura, uma grandiosa proeza que está longe de qualquer princípio passível de envergonhar o espírito. Não passava um dia que não escrevesse sobre os terrenos incongruentes das diversas realidades a que estava sujeito. Aquela que tinha de vivenciar, aquela que era dada a conhecer por outros e aquela com que sonhava. Sim, foram duros os anos em que a minha juventude viveu atormentada por ásperos toques mas sobrevivi pois, sendo a noite o meu único momento de sossego, conseguia desbravar de forma mais convicta essa riqueza que ia além do sangue.
Nesse espaço de tempo que devia ser o belo florescer de tudo o que se aprimora na vida adulta, os dias e noites latejavam sem o brilho da serenidade pois era a tristeza que marcava muito dessa vivência. Embora não fosse alheio aos prazeres carnais, não era raro sonhar com o verdadeiro amor. Desejava descansar abraçado ao corpo de uma mulher cuja essência trouxesse-me felicidade, a esplendorosa convicção de que era permitido renascer cada poro do meu corpo com as virtudes mais apetecíveis.
Para que serve ter um fardo que é sinónimo de loucura e ao mesmo tempo antónimo de tranquilidade? Por que razão se deve guerrear com estes e aqueles em busca de glórias, toscas riquezas que não servem para brilhar além do tempo de vida que nos é dado? Acaso serve mais a um homem saber que deixa uma herança adulterada por sangue e lágrimas? Por o reino do meu pai ser maldito, nunca a receberia…
Sabendo apenas que este só era fiel a si mesmo e que não se preocupava com a minha mãe, a sua esposa, desconhecia como agia com as outras mulheres com quem se relacionava. No entanto, ao descobrir no inicio da adolescência que a minha mãe tinha um amante, passei a tê-lo ainda menos em conta. Afinal, que podia dizer de negativo em relação à escolha da minha mãe se o meu próprio pai não se preocupava com o bem-estar dela? Uma união sem amor é o pior dos desertos, a mais vil iniquidade para quem só deseja a carícia do suave verbo.
Porque respeito a quem me respeita, prometi à minha mãe não dar a conhecer o seu segredo e, com o passar dos anos, desabafávamos sobre muito do que nos encantava e afligia. Ela era a única que me compreendia, sabendo que não me interessava a glória que advém de ser filho de um rei mas aquela que surge da Arte, neste caso a poesia, a criação de majestosidades regendo o que inebria a alma. A verdade sendo que, no meu íntimo, fervilhavam sentimentos contraditórios e palavras virtuosas seduzidas pela necessidade de expressão…
Com o passar do tempo, veio o findar do reinado do meu pai. Já que não era o primogénito e após uma conversa com o meu irmão, este mais benevolente, foi decidido que partiria. Precisava de aliviar o espírito de todas as falhas dos anos anteriores…
Não sei precisar quanto tempo se passou ou quantos lugares visitei mas surgiu o momento em que adormeci em paz e aquele em que acordei desorientado. Tudo era diferente do que conhecia e, mesmo assim, melhor… À minha frente, estava a mulher mais bela que alguma vez tinha avistado…

A arte das sombras aprisionadas (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Como fruto maduro de uma desvirtuada sina, a noite em que dei os passos para realizar um certo plano era cativada por sombras dançantes, aquela firmeza trepidante que separa a calmaria da tempestade. Não me importava que chovesse, que o céu se aliviasse da sua virtude, porque a confiança era algo que estava sempre do meu lado e esta noite não havia qualquer dúvida ou medo nos passos a dar.
Fustigava o meu pensamento o facto de estar prestes a desvendar a arte de um pintor, Christopher Wilton Leonard, que apareceu como tal poucos anos atrás e cujos quadros tinham uma bizarra riqueza. Era um tanto interessante a forma como pintava os objectos e as pessoas, a sua extravagância vertendo traços fincados num estilismo soturno que a todos fazia vibrar. As cores usadas eram dispostas em tons tão estranhos, as poses para os elementos fulcrais dos quadros surgindo desequilibradas, pairando a divagação sobre o seu método e o advir dos temas.
Leonard tinha já algum reconhecimento no mundo das artes, considerado um fenómeno em crescimento que levava certos museus de mérito a querer expor a sua obra, mas agia de uma maneira tão estranha quanto o que criava porque não expunha em galerias sobejamente conhecidas. Recusava-as considerando que o enquadramento ideal para as suas criações era em sítios mais pequenos, mais rústicos e com uma iluminação menos activa, uma forma de estar mais próximo das suas raízes.
O seu trabalho tinha sido referenciado em artigos de diversos jornais e revistas que também tinham dado a conhecer alguns dos seus quadros. Numa determinada noite, tive a sorte de ver na televisão uma reportagem acerca dele e posterior entrevista. Reparei que não parecia muito atraído pelos incessantes elogios à sua obra e que não respondia de forma apelativa às perguntas que lhe eram feitas. Tal percepção era devido à sua pose rígida perante as câmaras como se elas criassem um mundo ao qual não estava acostumado. Se pensarmos bem, não era estranho assumir que ele se sentisse desenquadrado já que, como excêntrico pintor, pouco se importava com a realidade preferindo criar o seu próprio mundo.
Aquando da minha visita à sua última exposição percebi que tinha mesmo de levar a sua obra para a minha modesta galeria. Embora as suas pinturas não me atraíssem assim tanto, não podia descurar a oportunidade de ganhar algo com isso. Infelizmente, não me foi possível falar com quem desejava pois um artista tem de ser necessariamente caprichoso e Leonard nunca era visto de dia. No entanto, deixei as informações necessárias para um eventual contacto com um seu representante.
Foi através de muito suor e expectativas que cheguei a esta noite, várias semanas após a ida à exposição. O caminho sendo difícil, por vezes parecendo inatingível mas nunca, nem por um segundo, fazendo-me deixar de acreditar que iria conseguir. Afinal, já passei por muito na vida e sempre pude alcançar os meus objectivos.
Para meu desagrado, o céu revestia-se de melancolia, as nuvens emparelhando-se como se quisessem impedir um mero mortal de sonhar com as estrelas, de descobrir no seu pálido iluminar os traços de outras realidades onde nada nem ninguém se importava com este mundo imperfeito e poluído, tristemente vocacionado para a destruição.
Tinha deixado o carro um tanto ou quanto longe do lugar onde me encontrei com um homem de aspecto rubicundo, Dawson, que me levaria até à casa de Leonard. Segundo ele, assim havia menos oportunidade de alguém descobrir exactamente onde Leonard morava, de o incomodar ou até roubar, dessa forma ultrajando a sua arte com a ganância de quem não compreende o que é o fundamento da criação. Pois… Esse tão enigmático pintor parecia suspeitar de todos, as suas nuances psicológicas inferindo a afronta de perder a sua arte sem o desejar, o medo desta estar com quem não a compreendia, quem não sentia que ela precisava de uma atmosfera especial para ser verdadeiramente apreciada. Reflectindo ainda mais sobre o assunto, julgo que quem adquirisse a obra de Christopher Wilton Leonard seria louco ou pretendia não dormir muito…

Sob a neblina que me corta o sangue (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Tinha onze anos quando a velha criada me contou o que pareceu ser demasiado estranho para ser verdade. No entanto, algo no seu bizarro olhar dizia-me que devia ter em conta as suas palavras: que a minha existência se devia a acontecimentos peculiares.
Segundo ela, o tempo anterior ao meu nascimento teve o despudor de malefícios, a minha mãe, Mireille, sendo sujeita a alucinações advindas do estado febril que lhe tocou durante a maior parte da gravidez. Nem a minha vinda a este mundo foi mais calma pois tal aconteceu numa noite de tempestade, prova de maus agoiros, em que se ouviam os uivos de lobos como se tivessem sido escorraçados de um qualquer recanto mais apaziguador e, famintos, lamentassem a sua desfortuna.
Foram muitos os cuidados para com ambos pois estávamos demasiado fracos após o parto. Por momentos, até pensaram que eu estivesse morto, mas, ao mesmo tempo que uma palmada no meu rabo foi dada, o mais feroz dos trovões foi ouvido, a tempestade aumentando de fulgor até que amainou para depois desaparecer.
O meu choro era a prova de que estava vivo mas a perda vitimou a minha mãe pois esta deixou de ser a mesma, a sua lucidez tendo desaparecido para dar lugar a um mutismo inquebrantável.
“ – Talvez a causa da sua silenciosa melancolia tenha sido o choque de ter o parto em tão odiosa noite”, disse a criada, mas não consegui deixar de pensar que talvez tenha sido eu a lhe tirar a voz de modo a dar a entender que vivia.
Não sei se teria uma infância normal se ela não me dissesse como tinha nascido mas, nos anos que se seguiram, tornei-me demasiado introspectivo, talvez devido ao respeito para com a minha mãe. Várias vezes, era toldado pela apatia, tomado por um certo distanciamento das horas claras, dos sorrisos e risos que cuidavam da harmonia. Em outras, mostrava maior interesse no que me rodeava, podendo até apresentar um ar mais arrogante e impulsivo. Para descrédito da minha condição de ser sensível, essas eram formas de abreviar a empatia com aqueles que me conheciam desde o meu nascimento.
Sendo o rebento mais jovem de uma família rica, tinha sempre alguém ao meu lado que me ensinava os assuntos mais pertinentes, dando-me linhas com as quais traçar os caminhos que levavam à intelectualidade. No entanto, tal como vinha, tão depressa ia, talvez já farto das minhas mudanças de humor e do aspecto um tanto leviano com que levava a aprendizagem. Tal não queria dizer que os meus professores não me considerassem inteligente pois até os surpreendia ao refutar certas das suas opiniões com argumentos que lhes pareciam válidos. Afinal, uma coisa é saber o que nos ensinam, outra é sentir um certo aborrecimento com a matéria dada e pretender mostrar que até somos capazes de raciocinar.
Já na minha adolescência mostrava um grande conhecimento sobre muitas coisas e, se não fosse assim tão estranho, talvez tivessem menos medo de mim. Bem, não sei se era mesmo medo mas o que pensar quando olham para nós com uma certa estranheza e ouvimos murmúrios quando pensam que não estamos a escutar?
Apesar do que queriam incutir-me, os meus hábitos privilegiavam afinco por certas matérias que sempre me tinham interessado, realçando todo o fulgor que é acariciar um conhecimento mais consentâneo com uma identidade própria. Com tal, pretendo dizer que não desejava saber apenas o que uma pessoa elevada pela “normalidade” iria saber mas algo mais: aquilo que escapava à compreensão mundana.
Um certo dia, quis afastar-me da mansão e recolher-me numa casa que ficava no final de um extenso jardim de modo a ter a minha paz e, aqueles que não me entendiam, a sua. Disse apenas que precisava de ponderar sobre certos conceitos elementares mas uma outra razão é que já estava farto de escutar que a minha vida era moldada por lamentos, devaneios e fantasias em relação ao mundo. Afinal, porque não deverei indagar acerca dos propósitos que nos definem e que a sociedade impede de visualizar? Será mais importante seguir os caminhos traçados pela tradição? Será melhor ser uma cópia barata de quem formulou ideias e ideais embora nada tenham a ver comigo?
Quantas vezes a minha voz seguiu a intensidade da do meu pai que me perguntava porque não podia ser como os meus irmãos, frutos de um casamento anterior, que tinham os olhos postos num futuro que ele designou. Rever-me em alguém, descobrir que não tenho identidade, enriquecer o ego de quem me fez nascer com a convicção de que eu não serei melhor, livre até, mas apenas um cuja vontade é muda… Caramba!!! Não o desejo para mim!!!

As carícias de uma magia enfraquecida (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

Os meus passos levavam-me para onde um aliciante recanto regia uma disfarçada riqueza, não me importando que a miséria pingasse sob os lamentos que encobriam uma tórrida graça. A minha alma, menos cândida do que a primeira das estações, padecia perante a cortesia do maldizer por pensarem que eu era louco quando apenas desejava afastar-me dos gritos que sufocavam e de uma paisagem que a ninguém verdadeiramente saudável importaria.
Desde criança que apenas encontrava descanso quando disposto perante as cores de outras eras, um manjar de intrépidas belezas que apenas com os mais belos sonhos condiziam. Não conhecia maior conforto do que lembrar que não era mais um dos que tornam a noite fria com os seus sarcasmos e afirmações pueris pois no meu peito revolvia aquele encanto já esquecido com o passar do Tempo, aquele cavalheirismo que é entoar prodigiosas melodias com o coração.
Devido aos dias serem frios, padecia de uma palidez que em nada fascinava, a chuva adulterando o que é ser belo quando se dá mais valor ao conforto de uma noite de harmonia. No entanto, apesar de sozinho, não desejava a presença de outras cores na minha vida quando era o amor que cortava a memória com o ácido sabor da tragédia…
O Sol estava prestes a distanciar-se quando entrei na floresta pois pretendia esconder-me do mundo e assim saciar a vontade com o encanto da solidão, sentindo aquele conforto que dissipa a cruel sociedade. Talvez muitos não o soubessem mas todos os minutos que passam sem desejo perdem a sua graça, um repetido desencanto que solta fraqueza e vazio quando se desperdiçam forças com quem não se importa connosco. Já estava farto de ter tão grande sofrimento e não o conseguir esquecer! A minha solução era apenas de este mundo partir, fugir para uma outra realidade onde tudo o que fosse luz pudesse adornar-me…
Sentado em frente a um lago, vendo o Sol morrendo, as suas cores se espalhando, olhava para a faca que tinha trazido. Seria ela o meu alívio, o meu bilhete para levar a minha vida a ser menos prisão…
Inspirando e expirando profundamente, deixei-me levar pela resolução final e, com um esgar de dor, senti a carne ser estraçalhada, o sangue jorrando dos meus pulsos como um rio que sabe para que lugar será conduzido. Era o fim de uma época de desencantos nascidos da esperança, o desejo de poder conhecer a liberdade que é não existir numa realidade tão cruel.
Súbito, um grito percorreu o ar e o meu ser foi tragado pelo que de inexplicável volteia na escuridão! As trevas encontravam-me e eu padecia por aparentar ser um servo, um dos caídos que tocavam langor atrás de cada desapontamento, um pálido respeito para com a eternidade.
Se alguma vez tinha conhecido a beleza, todos os sinónimos se tinham perdido ao avistar o que entonteceria até o mais febril e inspirado dos poetas, essa tão distinta riqueza sendo mais do que qualquer sonho que qualquer artista pudesse dar a conhecer… Ela, de pele tão branca como a neve e uns longos cabelos desenhados pelo rubor da chama, os olhos de tons azulados como se cortejassem o mar distante e uma boca tão sensual que se abria espantada pelo meu acto como se nunca tivesse conhecido a morte nem quaisquer propósitos que impeliam ao abismo. Uma mulher perfeita, não fosse o facto de que, a partir da sua cintura, podia ver um caule coberto de folhas e espinhos.
– Não se pode conhecer o paraíso cortando o elo que nos une à Vida – proferiu, a voz doce.
– Por vezes, temos demasiadas cicatrizes e não conseguimos suportar outras mais – respondi, o cansaço toldando-me a vontade, o espanto pintando-me a alma.
– As cicatrizes são feridas que choram sem poderem gritar e estas sempre temos. No entanto, existem luzes para além das que viajam pela noite…
– Se existem, nunca as encontrei… Sempre fui demasiado farrapo, ou assim me impeliam a acreditar, para que fosse possível as encontrar.
– Encontraste uma…
– Uma luz que se mostra estranha. Nunca pensei que um ser assim pudesse existir… Será que, prestes a morrer, é isto um dos sonhos que se pode ter quando moribundo?
– O que vês é a realidade. Por ser estranha não significa que seja menos verdadeira. Sou como sou porque assim quiseram…
– Estranho o elo que nos une quando sob diversas representações. Também sou como sou porque assim quiseram…
– E qual verdade é essa?
– Uma que talvez já não importe…

Como nuvens de seda na minha carne (excerto de um conto que pode ser lido no livro "O cortejo das virtuosas solenidades")

As primeiras palavras de um relato devem ser sabiamente inspiradas de modo a chamar a atenção e criar interesse para que depois sejam lidas privilegiando um atributo inerente à curiosidade. No entanto, se o início é belo, não tem necessariamente de apresentar um cenário ou uma personagem em que a felicidade exista sem quaisquer remendos. Assim, para que este começo seja verdadeiro digo sem qualquer vergonha ou ironia que eu, o desafortunado, censurava o meu nascimento. Não sei se já o fizeram ou se encontraram alguém que o tenha feito, mas, acreditem-me, não me importava de não ter nascido.
Acalmem-se, esqueçam o choque, passo a explicar o porquê do meu descaramento…
Desde há muitos anos que padecia da má sorte que era viver onde a adversidade tem uma dilacerante voz. Embora nunca consentisse que o meu âmago fosse assolado pela iníqua abstracção, uma vil tempestade que ataca, desfigura e sentencia, esta sempre me fazia sofrer. Claro que sonhava com a beleza de melhores momentos, afinal há que haver um certo rubor de vez em quando, mas isso não era o suficiente para que me sentisse bem.
Porque a realidade deverá ser pintada com cores que afaguem a harmonia, seria bom que qualquer desejo pudesse ser concretizado, mas, se tal acontecesse, a ansiedade não existiria, o que poderia aborrecer aquela entidade que está além das
questões mundanas. Digo isto por achar que talvez tivesse nascido para ser um fantoche onde várias cordas estão partidas, qualquer coisa sem nexo ou crédito deambulando ao bel-prazer desse incómodo celestial.
Como já devem ter percebido, fui sempre dado a lastimar e não a profetizar, mas, como tudo na vida é estranho, o espanto sacudiu-me uma certa noite em que a minha alma era nervosamente escavada pela penúria…
Tinha ido para o meu quarto após mais um dia de melancólicos devaneios pois o arrepiante desenvolvimento de uma doença fazia o entusiasmo desaparecer e a solidão apenas aumentava a minha dor. No entanto, apesar de a mente compreender que o sono é preciso, a alma pode ser ingrata e não deixar o esquecimento surgir. Assim, sofria enquanto estava deitado na cama, virando-me incontáveis vezes de um lado para o outro, os lençóis e o cobertor envolvendo o corpo com uma tal frieza como se também conspirassem para o meu nervosismo. Se estes soubessem o quanto os detestava…
Silenciosamente, rogava pragas perguntando-me por qual razão nem a fadiga me fazia dormir. Será que os devaneios são maldições que infligem os pobres, os azarados e os doentes, o descanso sendo uma preciosidade sem graça que não sabe fazer sorrir? Se assim fosse, de que valia a pena viver?
Como sempre, o meu delírio era o absurdo de mais uma noite ansiando por um paraíso longínquo, aguardando uma simples viagem que me afastasse destes cinzentos sem graça e relíquias sem brilho. Não queria acordar para um mesmo reino, aquele que me conhecia há muito tempo, pois sabia que ninguém estaria ao meu lado. Sentindo-me como se tivesse sido amaldiçoado pelo desprezo, nada esperava que me pudesse agradar mas a incerteza é uma liberdade que afunda o momento e nos arrepia em trejeitos desconcertantes.
Surpreendi-me ao ouvir barulho quando o silêncio acobertava as noites passadas. No entanto, não tendo a leveza da fantasia, julguei depois que um vento mais forte tinha feito com que um qualquer objecto embatesse numa parte incerta do jardim que rodeava a casa. Pois… A realidade nunca espanta a quem está acostumado a tantas certezas, a verdade sendo que nunca senti que pudesse haver alegria em meio ao meu pranto, uma dança que enriquecesse o íntimo e transformasse as lágrimas em frutuosa esperança

quarta-feira, abril 14, 2010

A sinfonia do abandono

Sou mestre…
e como peste vagueio sozinho, perdido, desanimado,
os meus passos sendo réplica de solidão detestada.
A pútrida corja que forma indecorosos pensamentos
sendo rasgos de dor, banalidades e lamentos
pelas lágrimas de uma vida amaldiçoada.

O fogo que me queimava já lá foi
e aqui nada possuo de benévola santidade,
apenas aquela carência que ruge a cor de triste nome,
a conquista de um lugar no trono da maldosa infelicidade.

E assim chove nesta vastidão em que me encontro desleixado,
a pronúncia de uma tempestade que me corta o coração.
Chora-me a derrota em sombrio e solitário pecado
que impede o sorriso de vencer a morte sem paixão
porque sou toda a maldição que quiserem,
só não sou um deslumbre libertado.

Faça o que quiser, caio e ainda sou mestre…
e tal como a peste, um trilho sangrento resvalando a negra melodia
por uma alma aterrorizada onde a ode não tem lugar.
O arrepio tornando-se a mancha que devora,
a sinfonia já quebrada por falta de um miserável…
ahhhh quem me dera que fosse um despertar,
mas é apenas a ensanguentada Morte que grita para depois me beijar.

O meu caminho é tão negro como a mais profunda das águas,
para sempre a pálida vítima de uma agonia enriquecida.
Os meus sonhos trilhando as trágicas mágoas de uma noite passada
onde a dor dormiu cansada, a saudade nunca mais adormecida,
onde a merda de uma rima jaz no meu coração em pus desvanecida.

Na mesquinhez da vida, sou a penumbra personificada,
um cego murcho pela inquietude sem razão,
tímido esboço em que a alegria nasceu petrificada,
onde a inocência não teve caridade nem perdão
pois sou mestre…
O mestre da sinfonia cortejada pela envelhecida desilusão!

De um gélido e amaldiçoado grito

Daqueles ousados calafrios que a sombra inveja,
do fogo incolor de um recanto amargamente desbravado.
dos prantos de mil dores que a solidão não deseja,
surgiu a pobreza, perdeu-se o encanto adorado.

Entorpecido pelo mais doce sofrimento que o peito queima,
resguardado daquela virtude que era sentir a inocência amar.
Dos olhos a lágrima caía enquanto da luz o calor fugia
porque a alma só tinha cinzas e saudades a queimar.

Sem encanto, sem paixão, sem esperança a adoçar
a vida, triste e indelicada sina a acariciar os meus lamentos,
dava os meus frágeis passos enquanto a doença amaldiçoava.
E eu… tão só… em confusão morrendo ainda cantava.

“Tortura-me a noite,
a miserável calúnia que nem os espectros quis perdoar,
que berra tristeza e ri como a velha dona de uma altivez caída.
Tortura-me o dia,
a peça já fria que nem para o meu drama tem um feliz final,
porque os males já mortos são folhas de Inverno que entram num beco sem saída.”

O meu adeus a toda a felicidade desprezava a beleza
e o pensamento era apenas um abismo caído em meio ao tormento.
Suportaria eu a vida adormecendo em meio à amargura?
Não sabia… Apenas via o meu sangue conhecer a brisa
e a respiração ser um vil e ténebre desfraldar
das velas de um reles barco prestes a partir
enquanto a dor... Ah! A dor me iria naufragar...

Desculpem, lamento quem me lê e me conhece…
A luz que antes havia em mim fugiu porque a escuridão tem fome
e eu sou agora o vazio sem vontade
neste labirinto perdido em que a minha alma nasceu.
Mas não se preocupem!
A morte, doce morte, deste fardo me irá levar,
se a vida, que antes existia em mim, já não morreu...

terça-feira, março 30, 2010

A queda e a saudade…

Sonhei com a misteriosa vida!!!

E, como sempre, chorei por ser aquela que espanta a muitos,
que dança sem rumo para a mágoa poder fugir,
mas a mim não canta ou adoça
nem faz o coração sorrir...

Nesse momento, a minha alma era cruelmente desanimada
por viver na vã glória da saudade,
gritar a guerra sem qualquer pudor
e culpar-me a turbulência de uma mesquinha realidade…

Tirando vergonha dos segundos já sem sal,
quis morrer num horizonte onde a lágrima não surgia.
Um vil leito onde o sorriso em ilusão se apaga,
terrivelmente longínquo por o sonho se ter esvaecido,
triste por só ter eu que rudemente conte,
as ricas maravilhas em que eu queria ter nascido...

Tal como a dissoluta peste que invoca silêncio e febre,
a mais negra das sombras me invade.
Rindo, clama não haver dó nem piedade,
qualquer entardecer que elogie a melodia que é viver,
apenas o tropeçar da velhice que a boca adorna com fel…

É esta a minha alma,
a tortura e o amargo sabor de quem já muito chorou,
uma desafortunada pintura que cobre a luz que antes vivia
e sonha com as folhas mortas na Primavera,
com o sombrio terror que vence o dia na beleza interior...

Sendo estátua, deponho as cinzas ocas e sem orgulho
porque rimo com o mais solitário dos esquecidos,
um poeta que cobre a noite sem magia ou triunfo.
Desesperado por ser rei de sonhos perdidos,
fecho os olhos e enlouqueço por ainda haver vida
pois sonharia com a morte para esquecer a dor...

"O mar profundo dos meus olhos" (Conto- Excerto)

Num só momento, senti que a minha vida eram passos desorientados à chuva, um rasto invisível deixado em palavras que me tornaram frágil, uma estátua de cristal que chorava pela morte dos meus pais. Qual é a perfeita descrição para um estúpido acidente de automóvel e o rasgar de insanidade que a infância não quer conhecer? Pobre e latejando pelo que já não podia voltar, a partir desse dia, tinha eu 13 anos, tive o conforto de uma terrível sombra, o terno desencanto de um suspiro agarrado a memórias onde havia febre e a matéria mais insalubre que poderia chamar-me como sua. Nem os meus tios e primos conseguiam me libertar daquele choro que era recordar…
O nascimento e aquele choro que é sair à força de uma casa que tão bem nos protege… Quando se tem a riqueza que uma família concede, é possível sentir que se pertence a algum lugar e que a outra casa já não importa. Os nossos passos são guiados pelo amor que os nossos pais nos dão e temos a confiança que é mostrar uma maior liberdade em falar, cantar e dançar até que o cansaço nos grite que, mesmo quando se é a jovem loucura, é bom descansar. Infelizmente, quando se perde tudo o que nos faz bem, é difícil conseguir sorrir, agarrar o momento com a sobriedade necessária que impele a alma a construir frutuosas melodias que digam que os sonhos são belos, como antes sentimos que foram.
Nesses momentos em que a solidão me chamava, as lágrimas apenas tentavam com que me esquecesse de que já me senti bem, que já tive uma família onde encontrava a fortuna de sentir-me agraciada pelas cores que somente a harmonia consegue pintar, aquela vontade tão grata que é de nada precisar.
Agora, de muito precisava… Sem conseguir reencontrar a calma, tinha o desalento como o pregar de convulsões e trágicas entoações a outros mundos, o afastar de uma realidade que se contorcia por dolorosos momentos em que tudo estava bem, uma gélida máquina que trabalhava sem piedade em seu próprio beneficio apenas para me martirizar e mostrar que eu merecia ser infeliz.
Por vários anos caminhei só, nunca sabendo o que era viver, tentando adormecer a mentira de já não poder me abraçar àqueles que moldaram o seu amor em mim, as suas vozes sendo ténues ecos do que já foi certeza e que agora eram fulgores lamentados. Cada pedaço de mim era uma morte ambulante, uma queda num recanto inglório de onde não havia fuga…
Um dia, escrevia as minhas angústias num jardim, presa ao passado e até a mim, as palavras caminhando cansadas pela noite em que o Tempo me tinha mergulhado, prova infértil de que nada parece ser glorioso, apenas eu e a morte dos meus pais, a minha passagem para um terreno sem paz. A palidez troteava o seu desespero queimando as parcelas de serenidade que a bela infância queria sorrir, a única forma de dizer ao mundo o quanto tinha sido feliz, a minha imortalidade lembrando a sedução de uma solitária existência.
Chorava, o meu peito mergulhado naquele mar que afoga a placidez, um abrigo que não desejava merecer, sem sequer saber que mais palavras poderia colocar na folha de papel cuja metade estava em branco como se estivesse à espera de um rasgo de luz para a embelezar.
A minha alma era vazia e ao longe apenas as nuvens pronunciavam serem ricas como se apenas elas pudessem ser livres… sentia-me condenada a vê-las vaguear sem a condição de humanas e, se choravam, imaginava que não era por mim. Quem choraria por mim se morresse e levasse todas aquelas recordações de infância, pensamentos destituídos de viçosos ecos que ninguém conhecia porque o que escrevia era só meu, as dores e clamores de quem já não sabe que mais iria perder.
Não me conhecia salvação até que apareceste, meu amor, e me cumprimentaste com o teu doce jeito de ser, dando-me a conhecer sorrisos atrás de sorrisos, enfeitiçando-me com as palavras e as melodias que pronunciavas. Eras poeta e sabias como preencher a minha alma…
A tua beleza tinha o favor dos anjos porque o sorriso era de alegre vida, aquele desenho que os lábios criam quando tecem uma tal majestosidade que não parece ser deste mundo. Oh, amor, foste o único a me seduzir com a força que é vaguear por cenários de magia onde se podia livremente dançar por serem prova de um paraíso, aquela cortesia que é criar beleza onde antes nada havia. A sensação de poder saciar a alma com os beijos que me davas, o calor do teu corpo sendo aquela riqueza que me fazia feliz pois contigo voltei a de nada mais precisar… tudo que eras, o que sempre quis agraciar.
Com os dias, conheci o terno encanto do teu olhar, a alma que sorri, um encontro com o mais doce que é gritar felicidade, o orgulho que é não proferir melancolia, o desejo de arder cada vez mais num recinto onde só nós os dois existíamos, aquela graciosidade que é permitir ao desejo gritar bem alto que a Vida é uma cortesia de um Verbo que anuncia ser rico. E rica me sentia contigo me beijando todos os dias…
Sim, era feliz e o mundo não me importava, o passado já não me repetia tanto a sua dor, a minha alma sendo a sinfonia que não se cansa, os olhos brilhando porque a alma continha esperança e a Vida lembrando que a sua magia já não era apenas gentileza. Contigo, tornei-me aquela que caminhava altiva, senhora de si, confiante que existia maior brilho no futuro porque o teu sorriso era vibrante e me fazias sentir segura neste mundo ingrato.
Eras a preciosa prova de que podia ser finalmente amada por quem merecia o meu amor!!!
“Trocaria o dia eterno pela noite eterna se, com ela, viesse a tua luz… Só preciso de ti… Encontrei-me no teu olhar… O mar profundo dos teus olhos e o desejo de nele mergulhar…”
Fazia-me bem ouvir-te, mergulhar em ti em todos os momentos com aquela ânsia que é sentir que o momento sabia deliciar, que os nossos corpos eram tão belos juntos e as nuvens que longe passeavam nunca mais me poderiam atingir. O meu poeta, aquele que fazia as palavras dançar e me compreendia nesta loucura que é o vazio a ser preenchido, o tecer de filamentos de ouro que compunham uma riqueza que somente a alma poderá conter.
Os nossos dias eram perfilhados com aquele sabor a amor e sexo, o delicado e delicioso reino de dois amantes que deixavam-se ir pelo que era o coração e a carne, o desejo de abrilhantar cada segundo com a homenagem à Arte, uma outra, a nossa, a mais verdadeira de todas antes conhecida. Contigo, sentia que criava os maiores poemas, que tu eras a minha inspiração, um momento que se compunha por belas estações e cuja descrição só podia começar e terminar pelo mais verdadeiro amor.
Por tanto tempo sorri ao acordar sabendo que era amada por um poeta e que poderia criar ricos textos onde a desejada altivez não poderia acabar. Infelizmente, chegou o momento em que me soube demasiado estúpida para antes perceber que o teu olhar não tinha o significado que lhe dava, que a tua poesia caía em pobres verdades por serem fantasias… Tantas palavras, frases que pareciam feitas para me seduzir mas que nenhum valor possuíam… Sim, nenhum valor possuíam!!!
Sempre me disseram que deveria ter sido actriz… Disfarçando o meu amor com o véu etéreo que surge dos sonhos, pensarias, se calhar, que estava completamente apaixonada por ti, cega para todos os teus outros movimentos… e estava mas, despindo o manto que é a ignorância que o coração cria comecei a reparar nos teus olhares para certas rapariguinhas. Pensavas que nada via mas uma mulher conhece muito bem quando o seu amado desvia a atenção nem que seja por segundos para admirar outra mulher mas elas nem isso eram… Faltava-lhes uma certa maturidade que os anos poderiam conceder e as rapariguinhas que parecias admirar eram apenas adolescentes que nada sabiam da vida e que estavam a dar os seus passos de modo a conhecer o seu corpo… e o de outros.
Lembro-me da noite em que me encurralaste entre a inquietação e a desolação, a vontade de fugir de tudo o que era vida levando-me quase à loucura… Pensava antes que me amavas verdadeiramente mas não, apenas querias um pedaço de carne fresca, quente, sentires-te desejado e nem entendo o porquê de me teres levado contigo para esse baile de máscaras que mostrava que eras um sádico, um pervertido sem alguma moral. Como péssimo actor, tinhas uma condição que desprestigiava as palavras, esses poemas que criavas e que eram belos mas que não tinham alguma verdade, pois mereciam ser declamados por quem conhecia a justiça do coração. Maldito seja quem te deu o dom de embelezar os cenários mais áridos com a poesia que a tua alma não possuía!!!

Molduras




Texto: escrito e declamado por mim, Jorge Ribeiro de Castro
Música: "The sweet hereafter" por Desiderii Marginis

Molduras

"De ruínas desesperadas que regem a noite com vis feitiços... De belezas escanzeladas que escapam ao manejar do Tempo... De tristeza, fragilidade e agonia que decidem adormecer na saudade de vida sem fulgor... De eu, tu e todos aqueles que não imaginam o que é ser feliz... apenas sofrer por tanto de momentos emprestados desejar...
De lamentos e suspiros que ganham bolor no mundo inferior De carícias já esquecidas que regem sonhos e nunca clamam por mais luz De templos, castelos e mosteiros onde foram criadas solenidades que se perderam em divinos cenários e uns outros tomados por demónios e serpentes De vida, morte e outras realidades que possuem o seu quinhão de dor a comédia de tragédias dementes
De toscas e aviltantes profecias que já há muito dançaram pelas covas de ríspidas e furtivas saudades De apatia e reles monotonia que dardejou esperança já escurecida pelo abraço de sonhos em ruína De cores sem luz nem calor que dominam as cavernas da minha alma, que cavam os insanos pesadelos de quem nunca foi contente De facadas, feridas e sangue as lágrimas de quem ama, as lágrimas de quem pela mais bela estrela clama, as lágrimas de quem arde e sofre
De caveiras e ossos desenhados pela Vida, atacados pela ingloriosa Morte e embriagados pela Desolação De espíritos humilhados pela Esperança que tantas vezes sorri mas raramente concede realidades, as certezas de haver lugar para tamanha vontade De marchas fúnebres, requiems ao passado já morto e funerais que prezam miséria e angústia De futilidades, banalidades e frivolidades sinónimos de um mesmo desprezo, de um nada que a ninguém importa, nem mesmo quem tenta se erguer
De esmolas nunca concedidas pelo Sol, raramente adornadas pela Lua e nem em sonhos oferecidas De passos sem força, enferrujados pela rispidez de quem já não tem coragem escrita no sangue De alentos desanimados, palidez esbranquiçada, mágoa por si própria magoada De tédio horrorizado por louca morbidez, vidas pela morte regidas e fios de prata partidos
De mil e um contos oferecidos à Humanidade e outras histórias, lendas e parábolas que surgiram de tudo o que o Tempo carrega De melodias que vivem na alma como se dançassem com todas as cores que nos foram oferecidas ao nascer De belas edificações, harmoniosas construções e tudo o mais que a imaginação nos deleitar De prazer, conforto, descanso, bem-estar e todas as sensações que à alegria nos quiser levar
De fotos já gastas com pobres já mortos O amarelo do Tempo que se esvai, que seduz a poeira de frutuosas recordações, as cantigas de milhares de maldições que fecham-me os olhos pedindo sono sem riso a acariciar
Sentado na rocha mais fria que a idade permite, tenho apenas a companhia de um fantasma que já não consigo tocar os lábios que se foram, os beijos que já não se unem ao meu amar a ousadia de se pensar que a Felicidade está viva e nos quer bem a profundidade de uma dor que preenche e não deixa espaço para a luz
E, finalmente, de portas, janelas e molduras De tudo o que nos importar"

domingo, março 28, 2010

A noite e a minha procura por ti - Jorge Ribeiro de Castro



- Prosa poética escrita e declamada por mim, Jorge Ribeiro de Castro http://darkenedserenity.blogspot.com
- Música "Smoke Signals" por Liquid Laughter Lounge Quartet

"Soube antes escrever o que o céu desenha, os traços escorrendo pela tinta como fragmentos de um pincel desnivelado, as formas divagando sobre a natureza que os teus olhos transmitem mesmo a vários quilómetros da minha realidade. Embebida em leves nuances de paixão e alegria, apenas conseguia revelar os vales que antecediam a montanha onde a tua alma vagueia, respirando os tons de névoa que, como segredos, corriam.
Éramos escuridão e toda a luz reaparecia com a palavra entoada, o medo sacudindo as asas e deitando para o abismo que fugia, a poeira que é o gelo e o sofrer. Existiam sorrisos que, por mais doces que fossem, revestiam as paredes da nossa casa com a esperança semeada e a inquietação angustiada.
- Seríamos felizes? perguntavas, as faces coradas, a cabeça baixa, as mãos resguardadas uma na outra procurando não a sua companhia mas um outro calor que colhesse as lágrimas e as tornasse amigas do esquecimento.
A beleza era mais do que a voz os gestos, os suspiros traduzindo a ânsia, o desejo revelando a natureza, o peso parecendo ser a pluma que acariciava a face.
A música irrompia pelas nuvens que bailavam ao ténue movimento de uma calma ainda infantil, a perda já distante de todos os cinzentos que a fragilidade usa quando nasce pelo valoroso toque da paixão. Éramos únicos e os nossos olhos consumiam os sóis de outras partes do Universo, vivendo o momento de um encontro cujos gemidos caíam através do toque de uma esbelta Primavera onde a diferença era um verde prado sem outras vozes que os amantes desaparecidos tinham evocado.
Sentado numa pedra que ladeava a margem de um lago onde a vida parecia dançar, conseguia ver o teu corpo manuseando o ar com movimentos tão serenos e fantasiosos que sabia que não haveria uma outra sedução capaz de me levar a alma. Era a eternidade respirando pelos meus poros, deixando o medo afundar-se na longínqua cova onde nem a História conseguia adentrar.
Aproximando-me, ladeei os meus braços ao redor da tua cintura, os meus olhos caindo nos teus, os meus lábios afundando-se na emoção de provar a forma vermelha que era o teu sorriso. Encontrar a paz, ser mais do que estranho, pintar a alegria nos nossos corpos...
Esperando ter a Vida ao nosso lado..."

sábado, março 20, 2010

De um encanto preso ao amanhecer (Excerto - Conto)

O que antes era um murmúrio, uma leve nota de grandeza, gradualmente se deu a conhecer como a doce voz da mulher que amava, a serenidade que antes conhecia abatendo-se com as palavras que soltou:
- Precisas de ajuda!!! Não vês que estou morta?
Por longos momentos a fitei, o silêncio contradizendo o turbilhão que troava pela minha alma. Vê-la tão bela quanto o primeiro dia em que a tinha conhecido, o seu longo cabelo preto adornando uma face oval onde os olhos azuis enunciavam elegância e cortesia. Entristeceu-me pensar que estava a ficar louca…
- Porque brincas? Acordo e em vez de um beijo, dizes tal coisa?
- Mas é verdade! Estou morta! Já morri há muito tempo mas não o sabes… Precisas de ajuda!!!
- Pára com isso!!! Já não estou a gostar da brincadeira!!!
- Não é brincadeira, amor… Tens uma vida para viver… Recomeçar a sorrir, esquecer este mundo… a mim…
- Pára!!! Se te queres divorciar então diz, não me faças isto… Eu amo-te… Amo-te imenso mas também saberei respeitar e compreender as tuas vontades…
- O que digo nada tem a ver com o amor… É a verdade… Já não existo… Estou morta há muito tempo…
- Nãooooooooooo!!!!!!!! Pára de me quereres enlouquecer!!! Deixa-me… Deixa-me sozinho…
- Sim, é o melhor… Irás descobrir por ti próprio…
- Descobrir? Apenas quero que me trates como antes e não como se tudo o que considerava que eras nada tivesse de belo para me fazer sentir bem…
- Sou a mesma que antes… mas tudo mudou… O mundo muda, sabias? Não podemos controlar o Tempo… enfim… talvez… um dia…
E com estas palavras saiu da sala, deixando-me sentado no sofá, os olhos lacrimejando por o intimo ter conhecido as palavras mais loucas que alguma vez a mulher que amava tinha pronunciado.
Não sabia o que estava a acontecer, a veracidade do que dizia sendo posta claramente em causa porque se a via respirar, tão bela como a tinha visto em outros dias, algo de certeza devia ter acontecido para agir de forma tão estranha. Enquanto conversávamos, não lhe tinha notado qualquer contusão na cabeça, uma pancada que mostrasse que algum acidente pudesse ter ocorrido. Então que outra explicação poderia haver para agir assim???
A minha mulher não estava nada bem e algo teria de ser feito para a ajudar. Tão jovem… Porquê é que, quando se pensa que a Vida nos concede bons frutos, quando o futuro surge risonho, existe sempre algo que nos mostra as portas da Loucura?
Só nos tínhamos casado há um ano e meio e éramos felizes após as agruras de pálidos momentos que não se mostraram tão belos assim para serem recordados, tempos difíceis em que éramos marcados pela dor que apunhalava a harmonia e o sorriso que vivia destroçado, uma trágica relíquia enunciada pela áspera existência e que nem o amanhecer conseguia enriquecer. Tal como eu, ela conheceu a nostalgia das lágrimas, a injúria de ter feito planos sempre que uma relação amorosa começava mas a verdade é que ninguém nos merecia mais do que nós os dois descobrimos merecer.
Talvez a Vida tivesse um plano em relação ao amor que merecíamos, dando-nos outras experiências de modo a podermos conhecer a nós próprios e ao que realmente desejávamos. As cicatrizes deixadas por segundos de angústia ainda perduravam mas já não tinham a força de quando eram feridas e latejavam inclemente dor.
Sim… Apesar da minha tristeza, ainda me lembro do seu sorriso quando a conheci, os olhos azuis brilhando ainda mais do que o céu límpido naquele dia de Primavera. Sentada num banco de jardim, lia um livro que continha a poesia de Baudelaire e parecia resplandecer ainda mais a cada página que lia como se cada verso contivesse uma riqueza que, naquele momento, era só sua, embora não pudesse haver maior beleza do que ela mesma.
Como escritor que sou, um amante das palavras que se apaixonam e que em magia se deleitam, perguntei-lhe se podia me sentar no banco de modo a ler calmamente um dos mais belos livros de Rose Tremain de nome “Música e Silêncio”. Agradou-me saber que ela conhecia a autora e que já tinha lido o livro e não durou muito até as palavras que surgiam não fossem aquelas presas às folhas de papel.
A sua delicadeza e paixão para com a literatura me fascinaram e quando descobri que também escrevia soube ter encontrado o sonho mais perfeito, pois em tudo ela respirava uma doce entoação, aquele brilho que surge quando já não nos sentimos sós. Talvez pareça fácil para quem escreve encontrar adjectivos para a mulher por quem nos estamos a apaixonar mas nem sempre nos conseguimos distanciar da mudez, do soluço, da quietude, do facto de que só conseguimos contemplar.... e mais nada.
Foram belos os dias que vieram, cada momento sendo uma forma de nos darmos a conhecer como ninguém o quis antes fazer embora tanto eu como ela conseguíssemos transmitir o que o íntimo criava com a brilhante escrita.
Ela, como a chama que lhe indicava o caminho a percorrer, escrevia uma rica poesia onde a emoção viajava por conturbados momentos onde a doçura deixava a sua fragrância. Eu, talvez como um anjo que sabe o que era a noite, era conhecido por conjugar estranhos enredos perfilhados de invulgares personagens e assim sintetizar de formas um tanto caóticas o que o pensamento, o sentimento e a imaginação produzem. Apesar disso, a minha vida fora dessas histórias não era assim tão brilhante pois, por dentro, sentia um vazio que era o coração que não tinha cor nem vontade de sorrir e ela, uma deusa sem igual, compreendia isso pois também já tinha tropeçado na decepção. Era o destino nos conhecermos…
Levou-nos um mês a sentir os lábios de cada um, pois o medo de termos outra vez o sofrimento fazia-nos quietos, tentando deixar a melodiosa agonia dormente, as palavras sendo todas excepto aquelas que já estávamos a sentir. Apesar disso, a partir do momento em que os nossos corpos tiveram a liberdade para se unirem, surgiu a paixão que é amar sem limites, invocando os mais poéticos dos adornos que apenas um harmonioso amanhecer conhece.
Suspirando, sentindo o corpo tremer devido ao nervosismo, deixei as recordações para trás, levantei-me e caminhei pela sala tentando diminuir a ansiedade que advinha dessa maldita preocupação que é descobrir que a minha amada estava enlouquecida.
Se saísse e espairecesse um pouco, talvez pudesse chegar a uma solução para o problema, a razão por detrás do acto tresloucado da minha mulher sendo algo que deveria ser investigado. Infelizmente, não era médico nem cientista, apenas um escritor, alguém que revestia as páginas em branco com o encanto e o desencanto da alma e que neste instante voltava a sofrer.
As minhas lágrimas tinham o sabor mais amargo que alguma vez provei pois eram prova da saudade dos doces tempos em que o amor me tinha concedido a verdadeira felicidade. Porque é que ela tinha enlouquecido? O que a tinha feito vir com tais loucas afirmações? Seria isto tudo um pesadelo e iria acordar sabendo que ela não estava morta, que a Vida ainda me oferecia a riqueza que apenas a sanidade concede? Se isto fosse um mundo etéreo preso ao sono, teria de seguir um plano superior e não aquele que pretendia?
Raios! Porque tantas indagações têm de aparecer? Nas minhas histórias, surge sempre a loucura como apanágio dos que vagueiam empobrecidos pela desilusão mas não a quero na minha vida! Que me deixem ser feliz como mereço, como todos merecemos!!! Já é tempo…

sábado, março 13, 2010

Penumbra

Fui fantasma numa outra vida, fogo sem chamas a arder,
salteador empobrecido, dolosa página esquecida, riqueza de pobre a morrer.
Ditei cansaço com os meus lábios, realidades de passos revoltados,
sofri nas mãos dos repelidos, para ser dos feios o adorado.

Fui a febre de vis loucuras que mereceram desilusão em versos cansados.
A arte de seduzir e, quem diria?... a tortura do pecado…
Adormeci sozinho e de madrugada acordei acompanhado
por seres terríveis, pesadelos inesquecíveis, os queixumes de desprezados.

Fui proibido à Primavera por ser tudo menos fértil alegria,
por ter nos olhos caveiras, vaguear por cavernas que nada tinham de beleza,
apenas uma gélida e profunda tristeza que murchava qualquer riqueza.

Assim, meus passos tombavam em pântanos de cansaço inebriante,
de volúpia por atmosferas irritantes onde já nada existia,
onde, se caísse, morria tal como o cego que já viu um dia.

Sem forças, sou flor já morta ao anoitecer…
O ridículo que impregna os jardins com piores pecados do que sonhar.
Sou manequim, boneco sem fios, privado de desafios,
abominável perante as estrelas, príncipe de becos sem saída,
enclausurado perante a mais reles vida…
Liberdade?
Impossível tê-la pois não a sei merecer!

Rigor Mortis

Toquei a pedra embrutecida por lágrimas de desespero e solidão,
a perda de alegre vida, a audaciosa melodia
que povoa sonhos que a Saudade não quer ter em vão...

Mutilei a minha alma com arrepios de ruínas
aprisionadas pelo deslumbre de glórias passadas,
vi-me tosco e delirante, desencantado, errante,
o querer de cinzas espalhadas pela tragédia de nunca mais se ser como dantes...

Trinta segredos sem cor purificados pelo desenlace de histórias,
turbilhões de dor, tempestades sem força, beleza já rouca.
Estarei eu louco, possuído pelos sonâmbulos que acostam às memórias?
Ou serei eu nada mais do que a margem de um rio que, apiedado, chora?

Fustigado por olhares de maldade em tempos invernais,
trocado à nascença pela ríspida monotonia da solidão
em que lenta é a maldita marcha que me carrega,
lento é o pesar que me leva num caixão…

Envolto em sombras sem calor, vi-me frio, embrenhado em gélido torpor
onde a luz não se acende,
onde tudo é desmentido,
pois já não existe mocidade, já tudo se perde na idade,
nas memórias de outros tempos que torturam,
que vilmente gracejam da perda que foi o Amor…