Meu nome é rio da desgraça, imperfeito ser de tão trágica raça que não esconde o desencanto, a virtude de se ser maldição mordaz onde já viveu a esperança, onde já brilharam olhos de criança e caíram as pétalas de amargura sem leito a colher...
Vi-me distante de toda a luz, apenas por ser da minha cor o cinzento esparso que tomou a dor como pátio de abraços já frios, onde já houve riso mas desde há muito que já não existe os sorrisos que criaram estradas de apaixonadas cantigas que em bem estar me adormeciam...
Desde há muito, sou a palidez de um espelho envelhecido pela insónia do viver, o tormento de tanto desejar e em mágoa saber... já não rio, já não brilho... espera-me apenas morrer...
Os contos que dei a conhecer são já pálidas lágrimas da minha alma pois este futuro inquietante, desconhecido e, mesmo assim, hesitante, traz tão cruéis palavras que transpiram sonolência exacerbada, por querer desaparecer antes da próxima madrugada.
Sem vida nos pulmões, seda que dê cor à imaginação, tenho apenas a prova de tudo o que fui, ruiu há instantes, por nada do nada conseguir criar, nada do nada ter para amar…
Aprisionado na caverna das lamentações, sou eremita da minha própria alma, a secura de noites mascaradas, um soluçar desperdiçado onde chove a todo o momento, onde nem um fio de luz se queda. Não há momento onde não me sinta o confuso, o desgraçado, o recluso, o indesejado, o morto cujas pernas são escolhos e os olhos ruínas…
São estes gritos que me cortam, que me transformam em restos de um passado que já era cinzas, que tragam a água que os meus lábios desejam… sei o que é perder… estive lá, nesse recanto furibundo que transformou a maldita luz em nada, na saga de um silêncio aprisionado…
Sou o corpo abatido que sabe como ler a noite escura e que conhece o sono dos empoeirados, aquele que diz o que é ridículo e aquele que diz que quem quiser conhecer o que é ser podridão, acorde-se ao espelho de manhã, veja as rugas que o Tempo criou… e morra… tal como ontem morri…
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segunda-feira, março 08, 2010
Remorsos e outras leis
Tenho a alma talhada em finos cortes de um certo sabor… A mágoa e outras más sortes pintam o íntimo com o que houver de mais irritante e retiram da delicadeza qualquer fulgor como se já não houvessem promessas a cumprir e todas as noites tivessem névoas e outros desastres a sorrir.
Já não ardo no seu recanto e cismo ser a quietude abatida que, outrora, já foi, por outros nomes, tão querida mas, agora, é um passo parado à espreita de um empurrão.
Se alguém já conheceu o meu sorriso, sabe agora que este é falso pois não há bela virtude na alma e todas as flores que me cobriam os sonhos são restos, estão secas, inevitavelmente murchas pelo estropiar do que era terno calor. A discórdia sendo um minuto congelado, uma lágrima de um triste passado, o Verão com um toque a Morte…
A minha esperança se foi e, com ela, toda a delicadeza de um apaixonado, ficando o ócio do desanimado, o pranto de quem seduz o acaso com preguiça e comiseração.
Maldita a hora em que dei o meu coração!!!
A plenitude ébria que pinta gritos na minha memória é a vertente mais irrisória de quem quis feitiços e acabou com maldições. Pois… antes pensava que era somente “ser”, o Verbo e seus tesouros iria ter e algo mais do que indelicadas fantasias seria encanto onde me recolher.
Neste momento, conheço mais do que a beleza desfalecida onde cair… A Vida e todas as verdades sabem muito bem como me deixar de rastos e o mundo é o palco mais cinzento que a Morte sabe morder. E eu mordo o vazio pois já não tenho forças para outra coisa fazer…
A paga de tantos anos a beber da mesma loucura são as entranhas de uma fétida imponência qual pesadelo inconsciente que me deixa embriagado, os espasmos de dor de quem já não tem asas e padece de tudo o que é sinistro, de toda a luz afogada, estropiada pelo cansaço de tanta espera, de tanta ansiedade, de tanta miséria…
De tamanha imundície já estou farto!!!
Abandonado, caminho pela noite insegura, deixando, com cada passo, a inocência que antes me abrigava. Sou, finalmente, uma espécie de fantasma que não tem casa nem futuro onde viver e apenas as cinzas de outras eras guarda.
De tanto amar, tornei-me poeta sem cuidado, triste e adulterado pelo espectro de tantos males que preenchem a alma de quem só quis sorrir.
Cabisbaixo, paralisado perante o vale das minhas recordações, peço a quem me desejar bem:
“Rasguem-me o coração de uma vez por todas pois fartam-me as lágrimas, os gritos, os soluços desesperados que a alma asfixiam!!!”
E espero…
E lamento…
E durmo…
O silêncio e outras coisas podres já não me fazem ouvir e o meu nome estará sempre mais além…
Já não ardo no seu recanto e cismo ser a quietude abatida que, outrora, já foi, por outros nomes, tão querida mas, agora, é um passo parado à espreita de um empurrão.
Se alguém já conheceu o meu sorriso, sabe agora que este é falso pois não há bela virtude na alma e todas as flores que me cobriam os sonhos são restos, estão secas, inevitavelmente murchas pelo estropiar do que era terno calor. A discórdia sendo um minuto congelado, uma lágrima de um triste passado, o Verão com um toque a Morte…
A minha esperança se foi e, com ela, toda a delicadeza de um apaixonado, ficando o ócio do desanimado, o pranto de quem seduz o acaso com preguiça e comiseração.
Maldita a hora em que dei o meu coração!!!
A plenitude ébria que pinta gritos na minha memória é a vertente mais irrisória de quem quis feitiços e acabou com maldições. Pois… antes pensava que era somente “ser”, o Verbo e seus tesouros iria ter e algo mais do que indelicadas fantasias seria encanto onde me recolher.
Neste momento, conheço mais do que a beleza desfalecida onde cair… A Vida e todas as verdades sabem muito bem como me deixar de rastos e o mundo é o palco mais cinzento que a Morte sabe morder. E eu mordo o vazio pois já não tenho forças para outra coisa fazer…
A paga de tantos anos a beber da mesma loucura são as entranhas de uma fétida imponência qual pesadelo inconsciente que me deixa embriagado, os espasmos de dor de quem já não tem asas e padece de tudo o que é sinistro, de toda a luz afogada, estropiada pelo cansaço de tanta espera, de tanta ansiedade, de tanta miséria…
De tamanha imundície já estou farto!!!
Abandonado, caminho pela noite insegura, deixando, com cada passo, a inocência que antes me abrigava. Sou, finalmente, uma espécie de fantasma que não tem casa nem futuro onde viver e apenas as cinzas de outras eras guarda.
De tanto amar, tornei-me poeta sem cuidado, triste e adulterado pelo espectro de tantos males que preenchem a alma de quem só quis sorrir.
Cabisbaixo, paralisado perante o vale das minhas recordações, peço a quem me desejar bem:
“Rasguem-me o coração de uma vez por todas pois fartam-me as lágrimas, os gritos, os soluços desesperados que a alma asfixiam!!!”
E espero…
E lamento…
E durmo…
O silêncio e outras coisas podres já não me fazem ouvir e o meu nome estará sempre mais além…
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Jorge Ribeiro de Castro
Errantes...
Rasgam rios de passos descoloridos onde trovejam os anjos há muito caídos e o vazio lacrimeja de tanto rir... Nas desalinhadas margens, cruza-se o orgulho e o luto como se um fosse vivo e o outro filho de um qualquer esgoto que não sabe sonhar, antes a podridão de outros chorar, e a incerteza do belo que é dia despir...
Ao cair da treva que a Lua conhece, soluça o coração já ébrio, treme a mão que o espelho toca e torna sinistro o mais estranho mistério... Sim! Sou eu quem colhe a claustrofobia das noites pequenas, a bofetada que rasga a carne desamparada e a perturbação que a imagem rege...
Como singelo penhor das coisas sublimes, tenho frases em louvor e outras que envergonha o rancor como se da montanha ao vale apenas fosse preciso um grito, uma exclamação pelos braços caídos, uma pérola desfocada pela cegueira de túmulos que os desertos tanto guardam...
Trocando passos e palavras, atritos e suspiros, ainda há luz no órgão pelo qual o Sol está enamorado e o hábito já não carrega as dores de outras feridas, antes se aventura e desfalece...
Das feridas que os gritos sabem tão bem criar, vêm demónios e outros loucos que obrigam as árvores a se despir da esperança. Afinal, quem manda à noite tem odes e outras falas que mordem os que querem lamentar, pois quem se esquece que é mortal, depressa saberá que não são os segredos que fazem os mistérios mas as mortes que são esquecidas.
As máscaras de bel – prazer, às quais correspondiam o incerto e o maldizer, confessaram ter a podridão como companhia, fazendo com que paisagens já em saudades desfeitas, tivessem o penhor da mortalidade. Sim, essa tão insana verdade!!!
Os suspiros que a intimidade provoca são prazeres imaculados pois têm tudo o que está perto e em lugar algum, uma sensual perturbação que refere a carne comendo o espírito. Quando sós, envolvem o silêncio em sangue, a inocência num estranho calor…
É o despir de uma queda que rasga os tormentos e procura na garganta o murmurejar de sonhadores onde vêm vis e pecadores cortejar o ventre das que eram virgens e das que não tinham amores.
Por ser de uma realeza sem igual, tépida, divina e até desigual, a vontade foi deixada ao largo como dança espectral de corpos sem caminho… e o agreste destino? O agreste destino foi sacudir a prova da incerta palidez e ver, de uma só vez, o que é fulgurante e majestoso ruir… deixando os demónios a rir!!!
Ao cair da treva que a Lua conhece, soluça o coração já ébrio, treme a mão que o espelho toca e torna sinistro o mais estranho mistério... Sim! Sou eu quem colhe a claustrofobia das noites pequenas, a bofetada que rasga a carne desamparada e a perturbação que a imagem rege...
Como singelo penhor das coisas sublimes, tenho frases em louvor e outras que envergonha o rancor como se da montanha ao vale apenas fosse preciso um grito, uma exclamação pelos braços caídos, uma pérola desfocada pela cegueira de túmulos que os desertos tanto guardam...
Trocando passos e palavras, atritos e suspiros, ainda há luz no órgão pelo qual o Sol está enamorado e o hábito já não carrega as dores de outras feridas, antes se aventura e desfalece...
Das feridas que os gritos sabem tão bem criar, vêm demónios e outros loucos que obrigam as árvores a se despir da esperança. Afinal, quem manda à noite tem odes e outras falas que mordem os que querem lamentar, pois quem se esquece que é mortal, depressa saberá que não são os segredos que fazem os mistérios mas as mortes que são esquecidas.
As máscaras de bel – prazer, às quais correspondiam o incerto e o maldizer, confessaram ter a podridão como companhia, fazendo com que paisagens já em saudades desfeitas, tivessem o penhor da mortalidade. Sim, essa tão insana verdade!!!
Os suspiros que a intimidade provoca são prazeres imaculados pois têm tudo o que está perto e em lugar algum, uma sensual perturbação que refere a carne comendo o espírito. Quando sós, envolvem o silêncio em sangue, a inocência num estranho calor…
É o despir de uma queda que rasga os tormentos e procura na garganta o murmurejar de sonhadores onde vêm vis e pecadores cortejar o ventre das que eram virgens e das que não tinham amores.
Por ser de uma realeza sem igual, tépida, divina e até desigual, a vontade foi deixada ao largo como dança espectral de corpos sem caminho… e o agreste destino? O agreste destino foi sacudir a prova da incerta palidez e ver, de uma só vez, o que é fulgurante e majestoso ruir… deixando os demónios a rir!!!
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domingo, março 08, 2009
"A comédia de um teatro desvairado" - Romance (excerto)
“ Quem falou??? – perguntei, surpreendido, porque o meu raciocínio tinha sido apenas para mim, tão silencioso como o pensamento pode ser.
~ Olha para o arbusto ao pé de uma rocha que parece a face de um homem, perto de um lago menor…
“ Qual arbusto? Qual rocha? Qual lago? Quem és???
~ Oh, palerma destrambelhado, não és o narrador e, por tal, omnisciente? Não consegues ver um lago, uma rocha e um arbusto… juntos??? Estão mesmo debaixo de ti!!!
“ Não tenho corpo, como é que algo pode estar abaixo ou acima de mim?
~ Tantos narradores… E logo o mais bronco veio parar a esta história… Escuta lá… Não disseste antes que tinhas te afastado de um local onde os demónios tinham saído da terra, após fazeres com que tudo ficasse igual ao que antes era?
“ Sim… Como narrador, dou a conhecer ao leitor o que está a acontecer…
~ E porque raios pensas que eu não estou a ler a história????
“ Mas… Não és uma personagem?
~ Todos os leitores são personagens quando lêem a história e imaginam o que está a acontecer…
“ Não sei se isso funciona assim porque é o escritor que surge com as personagens e estas têm sempre uma certa estética física, espiritual, sentimental, moral… O leitor apenas… lê.
~ Raios e rastos de parvalhões!!! Acaba com a baboseira, se faz favor!!! Sou uma personagem da história mas também um leitor e já me farta estares sempre com pirosices que a nada levam!!! Aliás, qualquer personagem da história poderia saber o que está a narrar se quisesse mas nem todas têm o condão de poder se imiscuir pelos pensamentos do narrador como eu tenho.
“ Mas… Quem és???
~ Alguém que te pode ajudar a conquistar o teu devido lugar nesta história… se o quiseres.
“ Então mostra-te.
~ Já te disse onde estou!!! Procura-me se achares que te posso ajudar…
Perante um vasto recinto multicolor onde milhentas árvores, flores e plantas surgiam como prova de que os arco – íris podem existir sem ser no céu, pus-me a procurar o que parecia quase impossível de fazer. Afinal, quantos arbustos, rochas e lagos existem por aqui?
~ Palerma de uma tosca imbecilidade, não existem muitos lagos por aqui!!! Em vez de estares a procurar para além do horizonte, procura debaixo de ti!!!
“ Já estou farto que me chames de palerma e outros nomes!!! Toma muito cuidadinho com as palavras porque, como narrador…
~ Podes fazer com que desapareça da história, pôr outro no meu lugar blá blá blá A tua conversa da treta nem sequer amedrontou o estúpido Alexander, ia fazê-lo a mim que tenho um quociente de inteligência de 2000???
“ Isso é ridículo!!! Nunca ouvi falar de tal quociente!!! Como é que sabes que és assim tão inteligente???
~ Sou o único a falar contigo, não sou???
“ Isso não tem nada a ver com a inteligência! Sorte ou experiência em outras histórias é o que se pode pressupor. Com essa lenga – lenga toda só podes ser um convencido…
~ Como quiseres, também não te estou a pagar para falares bem de mim.
“ Nem iria pagar porque para ouvir tontices é só abrir bem os ouvidos e escutar.
~ Nem sequer vou perguntar como é que alguém sem corpo consegue ter ouvidos…
“ Humpf… Já agora, diz-me como é que me podes ajudar.
~ Não queres ter um corpo de modo a ser respeitado como uma personagem merece em vez de alguém que só tem uma voz?
“ Sim… Como é que conseguirias isso?
~ Não seria eu mas alguém que conheço e só te irei dizer se me encontrares.
“ E porquê teria de te encontrar primeiro? Porquê é que não podes dizer onde estás?
~ Porque caí dentro de uma cova próxima do arbusto que está ao lado da rocha perto de um lago inferior!!!!
“ É assim tão grande para saíres de lá?
~ Tenho a perna partida e… Então, vais me ajudar ou não?????
“ Estou a ponderar…
~ Cortes e malfadadas sortes de demências encardidas!!! A ponderar o quê??? Instantes atrás, querias ter um corpo e agora estás a ponderar???
“ Sim… Sendo um narrador sem corpo posso ir depressa para muitos lugares e ver a tudo e todos sem ser visto. Agora, se tiver um corpo…
~ O quê??? Agora queres ser um pervertido voyeur??? Que raio de homem és tu???
“ Sou um narrador sem corpo por isso não sei o meu sexo…
~ Não digas asneiras!!! Já todos sabem que…
“ Todos?
~ Sim, eu, os leitores e leitoras…
“ Ah! Pois… Isso, se alguém quiser comprar o livro…
~ Isso não interessa agora! Como estava a dizer… Se tiveres um corpo, és do sexo masculino, afinal, és o narrador e não a narradora!!!
“ Sim, tens razão mas…
~ Palerma inculto desfragmentado, aqui não há mas nem meio mas!!! Além disso, como narrador, não podes experimentar o contacto corpo a corpo e bem sabemos o que certas mulheres te fizeram sentir.
“ Bem…
~ Então? Não gostavas de sentir o toque ternurento de uma mulher que te aquecesse com as suas partes íntimas? Os seus lábios ternurentos e mãos apaixonadas a passearem pelo teu corpo como mel e fogo invocando prazer atrás de prazer…
“ Está bem! Está bem! Vou te ajudar!!! Mas parece ser difícil porque a paisagem é muito grande…
~ Caramba e aranhões descuidados!!! Já estou a ver que tenho mesmo de fazer tudo… Consegues parar o vento?
“ Sim, consigo, sou o narrador…
~ Sim, isso já se sabe, não precisas de dizer isso sempre! E depois eu é que sou o convencido… Para o vento agora!
Sem muito esforço, fiz com que o vento parasse, nem um silvo de descontentamento se ouvindo. Parecia até que tinha adormecido, deixando toda a flora sem razão para se balançar de um lado para o outro, parada, resolutamente convencida de que estava a ser concedida uma razão prodigiosa para descansar. Até parecia que o Paraíso tinha…
~ Oh podre rima sem fortuna!!! Vais parar de narrar ou observar atentamente???
“ Desculpa… É que, como narrador…
~ Blá Blá Blá Observa atentamente, oh amostra sem corpo…
Já me estava a fartar esta vozinha estúpida. Quem raios pensava que era para estar sempre a me chamar nomes??? Já não me chegava ter de estar a narrar esta história sem qualquer sentido e agora tinha de escutar desaforos??? Sinceramente, que se metam nas suas vidas e as tornem pacatas sem me meterem ao barulho!!! Quando tivesse um corpo, iria sair tentar desaparecer daqui, ir para os confins do mundo onde pudesse viver bem. Se eu… Que raios é aquilo??? Um fumo preto está a subir de um emaranhado de árvores e arbustos!
~ Já estás a ver o fumo???
“ Sim…
~ De onde surge é onde estou. Depressa, ajuda-me a sair daqui.
Uma vez mais usei o meu poder de persuasão para com a Natureza. As folhas, os ramos e os troncos das poucas árvores que antes cobriam o lugar de onde o fumo surgia, depressa desapareceram deixando surgir uma pequena clareira onde… Mas… Quem é aquela estranha criatura??? Parece um bebé com duas estranhas cabeças mas sem olhos, orelhas, nariz ou lábios, a parte debaixo da mesma sendo uma confusão de tecido e fartos cabelos castanhos!!! De repente, como se a surpresa não fosse grande, algo ainda mais inusitado aconteceu…
~ Oh disfarçada graça de trambolhos endemoninhados!!! O que estavas a ver era o meu rabo!!! A única forma de saberes onde estava era dar uns fraques - disse, após se endireitar, um homem tão pequeno que nem sequer chegava ao joelho de um ser humano normal. Da sua cabeça pendia uma farta cabeleira acastanhada, as suas roupas sendo uma mistura de diferentes tons de verde.
~ O meu nome é Hop Sory! – disse, de forma eloquente, enquanto os olhos brilhavam com o esplendor de esmeraldas.
~ Agradeço-te por me descobrires. Agora só falta me ajudares a sair daqui e irei te ajudar.
“ Gostava de saber como é que antes poderia tê-lo descoberto se não existe algum lago perto de onde está, mas, enfim… - um tanto aborrecido, lá fiz com que uma parte da cova caísse de modo a que surgisse um caminho até ao topo.
~ Não estás a ver o lago ao lado de uma rocha em forma da face de homem???? – disse, fazendo com que desviasse o olhar para uma grande poça de água e uma pedrinha. – E já agora, não estava à espera de uma miserável estrada de terra! Não te disse antes que tinha a perna partida??? Se fizeste o caminho, faz com que a minha perna volte ao seu lugar sem consequências para o meu desempenho físico de modo a depois eu poder te ajudar.
Ainda mais chateado do que antes com a sua estúpida forma de proceder, fiz do seu pedido realidade pois quem ganharia mais com a sua ajuda era eu. Afinal, tendo a forma de um homem, poderia cortejar as mulheres que quisesse, embora houvesse uma em especial a quem não me importava de conceder especial atenção. O que estaria a fazer agora a Lady Lenore Francesca Scarlet Hood? Será que estava a praticar a esgrima, a tomar um outro banho ou…
~ Vais parar com as tuas fantasias??? – disse Hop Sory, enquanto subia o caminho de volta até ao leito superior dando saltos quase gigantescos.
“ Todos temos direito a fantasias, não é verdade? Os teus pais devem ter uma grande imaginação para virem com um nome tão… estranho.
~ Sou um duende e temos os nomes que têm a ver com a nossa natureza.
“ O teu pai, quando a tua mãe lhe deu a conhecer que estava grávida, disse: “Ooops sorry”???
~ Palerma enjoado filho de uma mosca sem asas!!! Não brinques!!! Não foi isso que aconteceu!!! O meu sobrenome já tem muitos séculos, mais do que aqueles que contabilizam este em que vivemos!!!
Enquanto ria, via o duende sacudindo a terra da sua roupa, pondo depois uma pequena cartola esverdeada na cabeça, dando-lhe um ar distinto embora um tanto… sujo.
“ Está bem, está bem! Desculpa se ofendi, era para aliviar a situação. Já agora, não sei quem são os meus pais mas de certeza que provenho de uma família de ilustres narradores… Agora, como é que me podes ajudar???
~ Pois… Bem, como antes disse, não tenho poderes para te ajudar a te tornares um ser humano mas conheço quem pode.
“ Quem?
~ O Diabo.
~ Olha para o arbusto ao pé de uma rocha que parece a face de um homem, perto de um lago menor…
“ Qual arbusto? Qual rocha? Qual lago? Quem és???
~ Oh, palerma destrambelhado, não és o narrador e, por tal, omnisciente? Não consegues ver um lago, uma rocha e um arbusto… juntos??? Estão mesmo debaixo de ti!!!
“ Não tenho corpo, como é que algo pode estar abaixo ou acima de mim?
~ Tantos narradores… E logo o mais bronco veio parar a esta história… Escuta lá… Não disseste antes que tinhas te afastado de um local onde os demónios tinham saído da terra, após fazeres com que tudo ficasse igual ao que antes era?
“ Sim… Como narrador, dou a conhecer ao leitor o que está a acontecer…
~ E porque raios pensas que eu não estou a ler a história????
“ Mas… Não és uma personagem?
~ Todos os leitores são personagens quando lêem a história e imaginam o que está a acontecer…
“ Não sei se isso funciona assim porque é o escritor que surge com as personagens e estas têm sempre uma certa estética física, espiritual, sentimental, moral… O leitor apenas… lê.
~ Raios e rastos de parvalhões!!! Acaba com a baboseira, se faz favor!!! Sou uma personagem da história mas também um leitor e já me farta estares sempre com pirosices que a nada levam!!! Aliás, qualquer personagem da história poderia saber o que está a narrar se quisesse mas nem todas têm o condão de poder se imiscuir pelos pensamentos do narrador como eu tenho.
“ Mas… Quem és???
~ Alguém que te pode ajudar a conquistar o teu devido lugar nesta história… se o quiseres.
“ Então mostra-te.
~ Já te disse onde estou!!! Procura-me se achares que te posso ajudar…
Perante um vasto recinto multicolor onde milhentas árvores, flores e plantas surgiam como prova de que os arco – íris podem existir sem ser no céu, pus-me a procurar o que parecia quase impossível de fazer. Afinal, quantos arbustos, rochas e lagos existem por aqui?
~ Palerma de uma tosca imbecilidade, não existem muitos lagos por aqui!!! Em vez de estares a procurar para além do horizonte, procura debaixo de ti!!!
“ Já estou farto que me chames de palerma e outros nomes!!! Toma muito cuidadinho com as palavras porque, como narrador…
~ Podes fazer com que desapareça da história, pôr outro no meu lugar blá blá blá A tua conversa da treta nem sequer amedrontou o estúpido Alexander, ia fazê-lo a mim que tenho um quociente de inteligência de 2000???
“ Isso é ridículo!!! Nunca ouvi falar de tal quociente!!! Como é que sabes que és assim tão inteligente???
~ Sou o único a falar contigo, não sou???
“ Isso não tem nada a ver com a inteligência! Sorte ou experiência em outras histórias é o que se pode pressupor. Com essa lenga – lenga toda só podes ser um convencido…
~ Como quiseres, também não te estou a pagar para falares bem de mim.
“ Nem iria pagar porque para ouvir tontices é só abrir bem os ouvidos e escutar.
~ Nem sequer vou perguntar como é que alguém sem corpo consegue ter ouvidos…
“ Humpf… Já agora, diz-me como é que me podes ajudar.
~ Não queres ter um corpo de modo a ser respeitado como uma personagem merece em vez de alguém que só tem uma voz?
“ Sim… Como é que conseguirias isso?
~ Não seria eu mas alguém que conheço e só te irei dizer se me encontrares.
“ E porquê teria de te encontrar primeiro? Porquê é que não podes dizer onde estás?
~ Porque caí dentro de uma cova próxima do arbusto que está ao lado da rocha perto de um lago inferior!!!!
“ É assim tão grande para saíres de lá?
~ Tenho a perna partida e… Então, vais me ajudar ou não?????
“ Estou a ponderar…
~ Cortes e malfadadas sortes de demências encardidas!!! A ponderar o quê??? Instantes atrás, querias ter um corpo e agora estás a ponderar???
“ Sim… Sendo um narrador sem corpo posso ir depressa para muitos lugares e ver a tudo e todos sem ser visto. Agora, se tiver um corpo…
~ O quê??? Agora queres ser um pervertido voyeur??? Que raio de homem és tu???
“ Sou um narrador sem corpo por isso não sei o meu sexo…
~ Não digas asneiras!!! Já todos sabem que…
“ Todos?
~ Sim, eu, os leitores e leitoras…
“ Ah! Pois… Isso, se alguém quiser comprar o livro…
~ Isso não interessa agora! Como estava a dizer… Se tiveres um corpo, és do sexo masculino, afinal, és o narrador e não a narradora!!!
“ Sim, tens razão mas…
~ Palerma inculto desfragmentado, aqui não há mas nem meio mas!!! Além disso, como narrador, não podes experimentar o contacto corpo a corpo e bem sabemos o que certas mulheres te fizeram sentir.
“ Bem…
~ Então? Não gostavas de sentir o toque ternurento de uma mulher que te aquecesse com as suas partes íntimas? Os seus lábios ternurentos e mãos apaixonadas a passearem pelo teu corpo como mel e fogo invocando prazer atrás de prazer…
“ Está bem! Está bem! Vou te ajudar!!! Mas parece ser difícil porque a paisagem é muito grande…
~ Caramba e aranhões descuidados!!! Já estou a ver que tenho mesmo de fazer tudo… Consegues parar o vento?
“ Sim, consigo, sou o narrador…
~ Sim, isso já se sabe, não precisas de dizer isso sempre! E depois eu é que sou o convencido… Para o vento agora!
Sem muito esforço, fiz com que o vento parasse, nem um silvo de descontentamento se ouvindo. Parecia até que tinha adormecido, deixando toda a flora sem razão para se balançar de um lado para o outro, parada, resolutamente convencida de que estava a ser concedida uma razão prodigiosa para descansar. Até parecia que o Paraíso tinha…
~ Oh podre rima sem fortuna!!! Vais parar de narrar ou observar atentamente???
“ Desculpa… É que, como narrador…
~ Blá Blá Blá Observa atentamente, oh amostra sem corpo…
Já me estava a fartar esta vozinha estúpida. Quem raios pensava que era para estar sempre a me chamar nomes??? Já não me chegava ter de estar a narrar esta história sem qualquer sentido e agora tinha de escutar desaforos??? Sinceramente, que se metam nas suas vidas e as tornem pacatas sem me meterem ao barulho!!! Quando tivesse um corpo, iria sair tentar desaparecer daqui, ir para os confins do mundo onde pudesse viver bem. Se eu… Que raios é aquilo??? Um fumo preto está a subir de um emaranhado de árvores e arbustos!
~ Já estás a ver o fumo???
“ Sim…
~ De onde surge é onde estou. Depressa, ajuda-me a sair daqui.
Uma vez mais usei o meu poder de persuasão para com a Natureza. As folhas, os ramos e os troncos das poucas árvores que antes cobriam o lugar de onde o fumo surgia, depressa desapareceram deixando surgir uma pequena clareira onde… Mas… Quem é aquela estranha criatura??? Parece um bebé com duas estranhas cabeças mas sem olhos, orelhas, nariz ou lábios, a parte debaixo da mesma sendo uma confusão de tecido e fartos cabelos castanhos!!! De repente, como se a surpresa não fosse grande, algo ainda mais inusitado aconteceu…
~ Oh disfarçada graça de trambolhos endemoninhados!!! O que estavas a ver era o meu rabo!!! A única forma de saberes onde estava era dar uns fraques - disse, após se endireitar, um homem tão pequeno que nem sequer chegava ao joelho de um ser humano normal. Da sua cabeça pendia uma farta cabeleira acastanhada, as suas roupas sendo uma mistura de diferentes tons de verde.
~ O meu nome é Hop Sory! – disse, de forma eloquente, enquanto os olhos brilhavam com o esplendor de esmeraldas.
~ Agradeço-te por me descobrires. Agora só falta me ajudares a sair daqui e irei te ajudar.
“ Gostava de saber como é que antes poderia tê-lo descoberto se não existe algum lago perto de onde está, mas, enfim… - um tanto aborrecido, lá fiz com que uma parte da cova caísse de modo a que surgisse um caminho até ao topo.
~ Não estás a ver o lago ao lado de uma rocha em forma da face de homem???? – disse, fazendo com que desviasse o olhar para uma grande poça de água e uma pedrinha. – E já agora, não estava à espera de uma miserável estrada de terra! Não te disse antes que tinha a perna partida??? Se fizeste o caminho, faz com que a minha perna volte ao seu lugar sem consequências para o meu desempenho físico de modo a depois eu poder te ajudar.
Ainda mais chateado do que antes com a sua estúpida forma de proceder, fiz do seu pedido realidade pois quem ganharia mais com a sua ajuda era eu. Afinal, tendo a forma de um homem, poderia cortejar as mulheres que quisesse, embora houvesse uma em especial a quem não me importava de conceder especial atenção. O que estaria a fazer agora a Lady Lenore Francesca Scarlet Hood? Será que estava a praticar a esgrima, a tomar um outro banho ou…
~ Vais parar com as tuas fantasias??? – disse Hop Sory, enquanto subia o caminho de volta até ao leito superior dando saltos quase gigantescos.
“ Todos temos direito a fantasias, não é verdade? Os teus pais devem ter uma grande imaginação para virem com um nome tão… estranho.
~ Sou um duende e temos os nomes que têm a ver com a nossa natureza.
“ O teu pai, quando a tua mãe lhe deu a conhecer que estava grávida, disse: “Ooops sorry”???
~ Palerma enjoado filho de uma mosca sem asas!!! Não brinques!!! Não foi isso que aconteceu!!! O meu sobrenome já tem muitos séculos, mais do que aqueles que contabilizam este em que vivemos!!!
Enquanto ria, via o duende sacudindo a terra da sua roupa, pondo depois uma pequena cartola esverdeada na cabeça, dando-lhe um ar distinto embora um tanto… sujo.
“ Está bem, está bem! Desculpa se ofendi, era para aliviar a situação. Já agora, não sei quem são os meus pais mas de certeza que provenho de uma família de ilustres narradores… Agora, como é que me podes ajudar???
~ Pois… Bem, como antes disse, não tenho poderes para te ajudar a te tornares um ser humano mas conheço quem pode.
“ Quem?
~ O Diabo.
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sábado, fevereiro 21, 2009
"Sob a neblina que me corta o sangue" - Excerto
" Observando o jardim que era seduzido pela fantasmagórica dança de uma leve brisa, comecei a ponderar sobre a beleza que este mesmo lugar possuía à noite, a luz das lanternas desenhando intrigantes sombras no edifício de pedra e nas árvores circundantes. Ah! A facilidade com que se pode ordenar o caos, transpor uma certa seriedade para o que antes era confusão, deixando a alma tecer uma fascinante atmosfera que privilegie a sensatez. Embora haja pouco a que nos podemos agarrar quando a imaginação é desenfreada, talvez não seja pecado assumir que algumas formas sombrias possam parecer um corpo feminino, a sua sensualidade assumindo maior preponderância quando já temos gravado no íntimo um outro mais real do que a conjugação de luz e escuridão.
Deixando o Tempo voltar para trás, o meu pensamento caiu em Helanya, a formosa mulher que tinha vindo me servir o jantar. O seu encanto juvenil era por demais condizente com aquela que já tinha visto em certos quadros que retratavam deusas ou ninfas. Os seus longos cabelos castanhos apanhados num penteado singular, os olhos azuis esverdeados brilhando como se o céu diurno estivesse crivado de esmeraldas, os lábios vermelhos como se tivesse um grande fogo interior, o corpo escultural ficando-lhe bem.
Minutos passaram e quanto mais pensava nela mais me apercebia de que não conseguia deixar de pensar. Por mais que os livros me tivessem antes deliciado com os casos e acasos do destino, agora havia um outro fulcro da minha atenção e, estranhamente, esperava ansioso pelo dia a seguir.
Se fervia com uma outra loucura, a ansiedade de poder ouvir uma gentil voz que enaltecesse ainda mais a minha existência, talvez tal não me fizesse bem já que vim para este lugar para ter uma certa paz e não descobrir que, mesmo sozinho, não a podia ter.
Cansado, tentei esvaziar a mente de longos pensamentos sobre Helanya mas se a realidade se deseja de uma forma, a alma tem uma estranha capacidade para influenciar o corpo a acordar cansado, como se tivéssemos sonhos que, por nos lembrarmos, não pudéssemos impedir de nos influenciar.
Nesse tépido momento de abstracção, sentia o meu corpo ser acariciado, beijos e suspiros insinuando presenças etéreas que motivavam arrepios. Um som estranho fazia-se ouvir ao longe como uma interminável queda sobre a placidez, um gorgolejar repetindo-se a cada segundo como resposta ao desespero…
Tentava me acalmar pois o prazer que sentia com as carícias que me estavam a fazer eram sublimes mas a exaustiva repetição de outros sons tocavam-me de uma tal forma que parecia que iria enlouquecer. Queria abrir os olhos, conhecer quem estava a me tocar de forma tão doce mas também descobrir o que estava a provocar tais sons. Não sei quanto tempo me quedei preso a essas sensações de prazer pois, quanto mais as carícias se insinuavam mais confortável me sentia só que, de repente, comecei a sentir um gosto estranho na boca como se provasse sangue.
Levantando-me de repente, atormentado por tal provação, o pior dos calafrios cruzou-me o corpo ao descobrir que, à minha frente, estava uma tão grande monstruosidade que nem o mais horrível dos contos que tinha lido, até então, podia descrever. Um ser esguio de pele negra, o corpo coberto pelo que parecia escamas enquanto da cabeça surgia uma cabeleira também negra, e das costas umas asas que rivalizavam em forma com as dos morcegos. O mais aviltante era que, da sua boca, uma língua comprida tinha acabado de se soltar do meu peito que possuía, tal como os braços e pernas, inúmeros vergões como se tivessem sido submetidos a um chicote.
Enquanto tentava fazer o possível para não me sufocar com o sangue, vi a besta desaparecer rumo às sombras, um alívio que não me trouxe o verdadeiro estado que tal palavra representa pois o meu coração continuava a bater muito rápido, os nervos causando uma tal agonia que sentia que nem com a luz do sol poderia respirar normalmente. Fechando os olhos dado ao cansaço, senti que o sono vinha…
E acordei… Era já de dia e conseguia ouvir os pássaros entoando as melodias que só eles conseguiam compor, o corpo cansado pela minha provação nocturna. Num gesto rápido, olhei para o meu peito esperando ver os vergões que o ser tinha induzido mas o espanto e descanso foi maior ao me aperceber q$ue o meu corpo estava incólume. Um sonho, um horrível e pestilento sonho que me tinha causado um tal incómodo que havia parecido a crua realidade.
Foi então que, para minha surpresa, ouvi um leve toque na porta e a doce voz que tanto esperava surgiu. "
Deixando o Tempo voltar para trás, o meu pensamento caiu em Helanya, a formosa mulher que tinha vindo me servir o jantar. O seu encanto juvenil era por demais condizente com aquela que já tinha visto em certos quadros que retratavam deusas ou ninfas. Os seus longos cabelos castanhos apanhados num penteado singular, os olhos azuis esverdeados brilhando como se o céu diurno estivesse crivado de esmeraldas, os lábios vermelhos como se tivesse um grande fogo interior, o corpo escultural ficando-lhe bem.
Minutos passaram e quanto mais pensava nela mais me apercebia de que não conseguia deixar de pensar. Por mais que os livros me tivessem antes deliciado com os casos e acasos do destino, agora havia um outro fulcro da minha atenção e, estranhamente, esperava ansioso pelo dia a seguir.
Se fervia com uma outra loucura, a ansiedade de poder ouvir uma gentil voz que enaltecesse ainda mais a minha existência, talvez tal não me fizesse bem já que vim para este lugar para ter uma certa paz e não descobrir que, mesmo sozinho, não a podia ter.
Cansado, tentei esvaziar a mente de longos pensamentos sobre Helanya mas se a realidade se deseja de uma forma, a alma tem uma estranha capacidade para influenciar o corpo a acordar cansado, como se tivéssemos sonhos que, por nos lembrarmos, não pudéssemos impedir de nos influenciar.
Nesse tépido momento de abstracção, sentia o meu corpo ser acariciado, beijos e suspiros insinuando presenças etéreas que motivavam arrepios. Um som estranho fazia-se ouvir ao longe como uma interminável queda sobre a placidez, um gorgolejar repetindo-se a cada segundo como resposta ao desespero…
Tentava me acalmar pois o prazer que sentia com as carícias que me estavam a fazer eram sublimes mas a exaustiva repetição de outros sons tocavam-me de uma tal forma que parecia que iria enlouquecer. Queria abrir os olhos, conhecer quem estava a me tocar de forma tão doce mas também descobrir o que estava a provocar tais sons. Não sei quanto tempo me quedei preso a essas sensações de prazer pois, quanto mais as carícias se insinuavam mais confortável me sentia só que, de repente, comecei a sentir um gosto estranho na boca como se provasse sangue.
Levantando-me de repente, atormentado por tal provação, o pior dos calafrios cruzou-me o corpo ao descobrir que, à minha frente, estava uma tão grande monstruosidade que nem o mais horrível dos contos que tinha lido, até então, podia descrever. Um ser esguio de pele negra, o corpo coberto pelo que parecia escamas enquanto da cabeça surgia uma cabeleira também negra, e das costas umas asas que rivalizavam em forma com as dos morcegos. O mais aviltante era que, da sua boca, uma língua comprida tinha acabado de se soltar do meu peito que possuía, tal como os braços e pernas, inúmeros vergões como se tivessem sido submetidos a um chicote.
Enquanto tentava fazer o possível para não me sufocar com o sangue, vi a besta desaparecer rumo às sombras, um alívio que não me trouxe o verdadeiro estado que tal palavra representa pois o meu coração continuava a bater muito rápido, os nervos causando uma tal agonia que sentia que nem com a luz do sol poderia respirar normalmente. Fechando os olhos dado ao cansaço, senti que o sono vinha…
E acordei… Era já de dia e conseguia ouvir os pássaros entoando as melodias que só eles conseguiam compor, o corpo cansado pela minha provação nocturna. Num gesto rápido, olhei para o meu peito esperando ver os vergões que o ser tinha induzido mas o espanto e descanso foi maior ao me aperceber q$ue o meu corpo estava incólume. Um sonho, um horrível e pestilento sonho que me tinha causado um tal incómodo que havia parecido a crua realidade.
Foi então que, para minha surpresa, ouvi um leve toque na porta e a doce voz que tanto esperava surgiu. "
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Sentiam os meus passos na escuridão - Conto (Excerto)
" Sentia-me deliciado pela montanha de gélidas cores que percorriam a noite, as folhas voando sob um tétrico sentido num linguajar próprio do Outono onde a fome de sorrir já se tinha perdido com o final do Verão que, embora tivesse muito de encanto para adornar a alma singela, nada me dizia.
Considerava-me mais um amante do abismo do que daquele turbilhão multicolor que a Primavera criava e que a estação seguinte pintava com mais luz. Afastar-me do embaraço causado pela poesia de tais terrenos pueris era a minha vontade embora soubesse o quão difícil seria verter as lágrimas da inspiração quando tudo o que via me seduzia a caminhar parado, perdido, estagnado.
Era nas estações mais frias que vigorava o meu olhar, a presença de uma insinuante corte riscando da mente os provérbios de gerações sem empenho em enaltecer a razão e a alma, apenas desenhando contrastes simplórios entre as inglórias conquistas e a palidez existencial.
A pródiga nostalgia firmava o mais belo enaltecer de tudo o que não se conseguia ver perante a mais gloriosa das luzes, essas sendo tão toscas e delirantes que sucumbiam a inteligência a farrapos sem cores a ter qualquer substância a apregoar.
Era o meu humilde serviço ter de riscar desta existência aqueles que não possuíam capacidades para seduzir as palavras a ter mais acção do que as avistadas pela mera comunhão da carne com a realidade. O Universo não precisava de lamentar a sua existência com as falácias de quem não lhe trazia algo de valor!!! A idade, a idiotice, a rústica banalidade eram óbvias atribulações para completar o meu destino…
Eu, como todos os que me conheceram vieram a saber, era a Morte. Um cortejo de infindáveis apetrechos vertendo da minha esquelética mão para levar, àqueles que pretendia adormecidos no leito da eterna obscuridade, a minha magnânima vontade.
Normalmente era à noite que os levava a terminar a sua existência, firmando um contrato permanente com a realidade que comandava, um manto de espectros e inquietas sensações povoando o meu mundo que rivalizava em grandeza com toda a beleza que diziam pertencer a este tão singelo mundo.
Claro que haviam quem me ajudava, meros servos que estavam em todo o lado lembrando a uns e outros que nada havia de os fazer prender à Vida pois, no final de tudo, esta saía vencida. Afinal, podia contar muitas mais vivências no meu reino do que em toda a população que a História poderia enumerar… "
Considerava-me mais um amante do abismo do que daquele turbilhão multicolor que a Primavera criava e que a estação seguinte pintava com mais luz. Afastar-me do embaraço causado pela poesia de tais terrenos pueris era a minha vontade embora soubesse o quão difícil seria verter as lágrimas da inspiração quando tudo o que via me seduzia a caminhar parado, perdido, estagnado.
Era nas estações mais frias que vigorava o meu olhar, a presença de uma insinuante corte riscando da mente os provérbios de gerações sem empenho em enaltecer a razão e a alma, apenas desenhando contrastes simplórios entre as inglórias conquistas e a palidez existencial.
A pródiga nostalgia firmava o mais belo enaltecer de tudo o que não se conseguia ver perante a mais gloriosa das luzes, essas sendo tão toscas e delirantes que sucumbiam a inteligência a farrapos sem cores a ter qualquer substância a apregoar.
Era o meu humilde serviço ter de riscar desta existência aqueles que não possuíam capacidades para seduzir as palavras a ter mais acção do que as avistadas pela mera comunhão da carne com a realidade. O Universo não precisava de lamentar a sua existência com as falácias de quem não lhe trazia algo de valor!!! A idade, a idiotice, a rústica banalidade eram óbvias atribulações para completar o meu destino…
Eu, como todos os que me conheceram vieram a saber, era a Morte. Um cortejo de infindáveis apetrechos vertendo da minha esquelética mão para levar, àqueles que pretendia adormecidos no leito da eterna obscuridade, a minha magnânima vontade.
Normalmente era à noite que os levava a terminar a sua existência, firmando um contrato permanente com a realidade que comandava, um manto de espectros e inquietas sensações povoando o meu mundo que rivalizava em grandeza com toda a beleza que diziam pertencer a este tão singelo mundo.
Claro que haviam quem me ajudava, meros servos que estavam em todo o lado lembrando a uns e outros que nada havia de os fazer prender à Vida pois, no final de tudo, esta saía vencida. Afinal, podia contar muitas mais vivências no meu reino do que em toda a população que a História poderia enumerar… "
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"Resquícios de estranhas sinfonias" (Excerto) 2º livro
" Diversos minutos após o início da minha caminhada, ouvi o progressivo aumentar de volume do que me pareceu ser uma voz humana. Assim, a doçura se fez sentir a partir do momento em que reconheci a voz como sendo a de Isanthya, chamando por mim…
Sentindo-me revitalizado, fui na direcção de onde a voz surgia ansiando ver aquela que ao meu coração tocava com ternura. A gentil presença do que era, para mim, a mais bela mulher alguma vez criada, fazia-me sentir bem, como se o paraíso estivesse mais perto do que alguma vez imaginado.
Já não me importava mais a neve, as árvores com os seus ramos dissolutos, as nuvens carregadas e as dores que o meu corpo transbordava. Apenas queria ver Isanthya, toca-la, abraça-la, beijá-la…
Não demorou muito a tal acontecer… Afastando-me do manto de verde-escuro adornado por sombras em diversos tons, descobri uma vasta planície acinzentada onde, ao centro, avistava uma luz difusa. Acercando-me, verifiquei que possuía forma humana. Era mesmo Isanthya e esta me chamava, perfumando o meu nome com algo mais digno de menção do que a criação humana.
Ao vê-la, fiquei estático… A sua beleza era agora ainda maior como se a elegância do seu porte conseguisse inebriar a quem a conhecia com dons mais divinos do que os céus ou a santidade. Se a agreste condição a que tinha sido antes conduzido tinha deixado as suas marcas, agora era tudo pertença de um passado sem requinte. Agora estava junto a Isanthya, abraçando-a, beijando-a…
Se era este o sentir da harmonia, o reencontro com a casa que sempre almejei encontrar, a verdadeira condição de paraíso adornando todo o meu sentir, então que me deixassem radiante, que a miséria soubesse derramar a sua soberba sobre o deserto e este a fizesse desaparecer mas que não fosse eu apanhado nessa torpe celebração pois merecia ser feliz.
Os seus beijos eram mares de rosas onde não existiam espinhos, o fôlego cortado por uma sensualidade primaveril, a pele mais alva do que toda a neve que pudesse ser criada, o ar sendo perfumado pela cortesia de um misticismo irresistível. Isanthya era aquela que sempre quis encontrar e nunca pensei existir, a bela com coração de ouro e alma serena, a diáfana presença de um anjo num reino de agressões e tristezas.
Era feliz entre a realidade e a fantasia, as lágrimas escorrendo não pela dor mas por uma felicidade sem igual. A paz sempre ausente, agora tão perto, nada havendo que ditasse febre a demónios, antes anjos nos observando e que louvavam o dialogo amoroso que trocávamos. Que dizer do cendal que cobre os apaixonados, o riso obedecendo a frases que saciem a loucura da saudade? É assim o mistério de um Verbo maior…
Enquanto nos beijávamos, a sede sendo aniquilada com cada segundo de paixão, não me apercebia que a natureza pregava uma outra partida. O solo onde nos encontrávamos era nada mais do que gelo que se ia partindo aos bocados até que fomos tragados pelas águas.
Descíamos em espiral, agarrados um ao outro, lábios tocando lábios, o amor que do nosso íntimo surgia emanando em luz os nossos corpos e cedendo protecção à injúria que a água fria pudesse trazer. O tempo que passava não nos era importante, caíamos como folhas soltas mas cheios de sabor a infinito, o abismo nunca sendo observado, apenas nós e o paraíso ao nosso lado.
Sentia-me feliz…
De repente, bati no chão duro. Atordoado, levantei-me aos poucos e poucos e procurei por Isanthya. Não a via…
Tinha, uma vez mais, desaparecido e levado o meu sorriso com ela. Para quando uma próxima vez? Seria possível que passaria por incontáveis tramas de esperança e desespero, nunca encontrando um fim que me trouxesse satisfação, desapego de qualquer tragédia?
Sentei-me um pouco e apoiei a cabeça nas mãos, os cotovelos em cima dos joelhos. Apetecia-me chorar, deixar sair rios de mágoa e desilusão e quedar-me por toda a eternidade nesse preciso lugar. Seria demasiado fácil desejar ser como uma das estátuas que tinha antes avistado, os seus corpos retorcidos em poses nada comuns para a vida. Se ao menos o esplendor da virtude concedesse a ousadia de me libertar…
- Ajudem-me… - ouvi uma trémula voz de homem entoando ao longe.
Levantando a cabeça, ouvi a mesma súplica. Caminhando na direcção da voz, esta nada reconhecível, reparei que o lugar onde me encontrava era em tudo igual ao sítio onde tinha antes estado após sair da casa em ruínas por artes desconhecidas.
As mesmas árvores esqueléticas, a mesma atmosfera dissonante, a mesma luz medrosa pairando no alto como se o amanhecer ou o entardecer tardasse num infinito pesar. Que raio de cenário aviltante era este onde tinha vindo parar??? "
Sentindo-me revitalizado, fui na direcção de onde a voz surgia ansiando ver aquela que ao meu coração tocava com ternura. A gentil presença do que era, para mim, a mais bela mulher alguma vez criada, fazia-me sentir bem, como se o paraíso estivesse mais perto do que alguma vez imaginado.
Já não me importava mais a neve, as árvores com os seus ramos dissolutos, as nuvens carregadas e as dores que o meu corpo transbordava. Apenas queria ver Isanthya, toca-la, abraça-la, beijá-la…
Não demorou muito a tal acontecer… Afastando-me do manto de verde-escuro adornado por sombras em diversos tons, descobri uma vasta planície acinzentada onde, ao centro, avistava uma luz difusa. Acercando-me, verifiquei que possuía forma humana. Era mesmo Isanthya e esta me chamava, perfumando o meu nome com algo mais digno de menção do que a criação humana.
Ao vê-la, fiquei estático… A sua beleza era agora ainda maior como se a elegância do seu porte conseguisse inebriar a quem a conhecia com dons mais divinos do que os céus ou a santidade. Se a agreste condição a que tinha sido antes conduzido tinha deixado as suas marcas, agora era tudo pertença de um passado sem requinte. Agora estava junto a Isanthya, abraçando-a, beijando-a…
Se era este o sentir da harmonia, o reencontro com a casa que sempre almejei encontrar, a verdadeira condição de paraíso adornando todo o meu sentir, então que me deixassem radiante, que a miséria soubesse derramar a sua soberba sobre o deserto e este a fizesse desaparecer mas que não fosse eu apanhado nessa torpe celebração pois merecia ser feliz.
Os seus beijos eram mares de rosas onde não existiam espinhos, o fôlego cortado por uma sensualidade primaveril, a pele mais alva do que toda a neve que pudesse ser criada, o ar sendo perfumado pela cortesia de um misticismo irresistível. Isanthya era aquela que sempre quis encontrar e nunca pensei existir, a bela com coração de ouro e alma serena, a diáfana presença de um anjo num reino de agressões e tristezas.
Era feliz entre a realidade e a fantasia, as lágrimas escorrendo não pela dor mas por uma felicidade sem igual. A paz sempre ausente, agora tão perto, nada havendo que ditasse febre a demónios, antes anjos nos observando e que louvavam o dialogo amoroso que trocávamos. Que dizer do cendal que cobre os apaixonados, o riso obedecendo a frases que saciem a loucura da saudade? É assim o mistério de um Verbo maior…
Enquanto nos beijávamos, a sede sendo aniquilada com cada segundo de paixão, não me apercebia que a natureza pregava uma outra partida. O solo onde nos encontrávamos era nada mais do que gelo que se ia partindo aos bocados até que fomos tragados pelas águas.
Descíamos em espiral, agarrados um ao outro, lábios tocando lábios, o amor que do nosso íntimo surgia emanando em luz os nossos corpos e cedendo protecção à injúria que a água fria pudesse trazer. O tempo que passava não nos era importante, caíamos como folhas soltas mas cheios de sabor a infinito, o abismo nunca sendo observado, apenas nós e o paraíso ao nosso lado.
Sentia-me feliz…
De repente, bati no chão duro. Atordoado, levantei-me aos poucos e poucos e procurei por Isanthya. Não a via…
Tinha, uma vez mais, desaparecido e levado o meu sorriso com ela. Para quando uma próxima vez? Seria possível que passaria por incontáveis tramas de esperança e desespero, nunca encontrando um fim que me trouxesse satisfação, desapego de qualquer tragédia?
Sentei-me um pouco e apoiei a cabeça nas mãos, os cotovelos em cima dos joelhos. Apetecia-me chorar, deixar sair rios de mágoa e desilusão e quedar-me por toda a eternidade nesse preciso lugar. Seria demasiado fácil desejar ser como uma das estátuas que tinha antes avistado, os seus corpos retorcidos em poses nada comuns para a vida. Se ao menos o esplendor da virtude concedesse a ousadia de me libertar…
- Ajudem-me… - ouvi uma trémula voz de homem entoando ao longe.
Levantando a cabeça, ouvi a mesma súplica. Caminhando na direcção da voz, esta nada reconhecível, reparei que o lugar onde me encontrava era em tudo igual ao sítio onde tinha antes estado após sair da casa em ruínas por artes desconhecidas.
As mesmas árvores esqueléticas, a mesma atmosfera dissonante, a mesma luz medrosa pairando no alto como se o amanhecer ou o entardecer tardasse num infinito pesar. Que raio de cenário aviltante era este onde tinha vindo parar??? "
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"De espectros e dor..." (Excerto) 1º livro
"Era noite ainda, e encontrava-me deitado na margem do lago. Um barco pesava sobre a margem e soube que de alguma maneira tinha alcançado o destino que me havia sido proposto alcançar. Aquele que me tinha deixado à mercê da dor, não se encontrava ao meu lado e julgo que sabeis que tal facto aliviou ainda mais o meu espírito…
Ao levantar-me, senti todo o meu corpo estremecer em meio a uma dor generalizada que teimava em envolver-me nos seus grilhões. A cada passo dado, visões de um vermelho vivo atingiam a minha mente como se tal cor fosse a que assombraria os mais próximos e os mais distantes momentos. Julguei, na altura, ser consequência de ter sido verdadeiramente exposto a uma luz de enorme intensidade, como se o que me tinha acontecido fosse mais uma das inúmeras realidades por onde poderia vaguear.
Sentando-me numa pedra, procurei distanciar-me de tudo o que me rodeava e encontrar algumas respostas para o meu infortúnio. No entanto, o que me atormentava não era somente o lugar onde me encontrava e o mistério em que me tinha inserido, mas também o facto de a minha alma não se encontrar completa, como se tivesse cometido um crime sem qualquer hipótese de redenção. Após uns minutos de descanso, senti a insanidade diminuir ao ponto de me poder novamente levantar e caminhar para onde fosse que eu devesse e pudesse caminhar…
Esperava que, durante a minha caminhada, o sol surgisse para mais uma era de luz, mas quis a noite que viesse algo mais.
Não é demais supor que neste lugar tão estranho, encontre algo ainda mais estranho embora a surpresa surja sempre impregnada num misto de ansiedade e descrédito. Uns bons passos para além da densa folhagem que torneava o lago, surgiu uma escadaria cujo propósito não me era possível conhecer pois o cimo da mesma encontrava-se coberto por ervas e folhas, e apenas a luz da lua cheia permitia observá-las. Curioso, subi os degraus que levavam ao cimo pois o Tempo a tudo permitia. Afinal, que mais poderia fazer neste recanto enlouquecido do Universo?
Que se poderá dizer da tranquilidade quando apenas a lembramos como uma memória já ida de séculos atrás? O fogo que nos aquecia nos meses de frio apartando-nos dos poemas de solidão, o manto de luz que resplandecia no alto simbolizando a fartura de tempos maduros, o sorriso angelical da bem – amada… Teria eu vivido tudo isso ou seriam sonhos que a solidão tece?
Aqui, neste vasto plano de cores acinzentadas, quedava-me pela brisa quente e tépida do sufoco que é sentir-se aprisionado e conhecia apenas o toque de um miserável desprezo sem sentido.
Com cada respirar, tombava uma ténue esperança, diminuía um pálido brilho, surgia o silêncio… Apenas os meus batimentos cardíacos ganhavam vida num compasso incerto, um misto de seriedade e embriaguez como se fosse, cada vez mais, hipnotizado pelo medo.
Não conseguia ver muito bem o que se escondia por detrás da densa folhagem que cobria a parte de cima da escada. No entanto, não sem alguma dificuldade, consegui abrir uma brecha de modo a avançar e descobrir se, de facto, a escada dava para algum edifício antigo. Os meus passos eram demorados e cautelosos pois o desconhecido de tal forma tem de ser penetrado. Incapaz de pintar uma imagem do que iria encontrar, os meus olhos procuravam ir mais além, embora a luz da lua tornasse impossível tal empreitada devido às nuvens que, por vezes, a cobria.
Embora cauteloso, não demorei muito em colocar um pé em falso e cair, uma vez mais, para a incerteza. A prudência muita vezes surge como falsa, levando-nos a crer ser apenas uma marioneta de um plano maior, um mero sacrifício da existência. No entanto, não levei muito tempo a encontrar o solo, e se me levantei incólume foi porque tive a sorte de este estar coberto por um manto de ervas e flores. No entanto, a luz da lua mostrou-me que o formato de tais plantas era incrivelmente aterrador.
As ervas mostravam-se altas e vistosas enriquecidas por um vermelho sangue que as seduzia para a vileza das mais torpes acções. As flores pareciam já murchas embora se mantivessem na vertical e assumissem uma cor tão escura que lembravam um abismo.
Nem nos meus piores pesadelos poderia imaginar encontrar-me em tal lugar… Um plano existencial em que tudo rugia à noite, em que o desprezo pelo dia tornava as palpitações cardíacas falíveis, ténues soluços que clamavam esperança… Meu Deus! Era tudo incrivelmente odioso!!!
De coração na mão, cobria os farrapos, que transfiguravam-se como plantas, com os pés, tentando isolar-me, procurando aliviar o desespero com uma pálida confiança de poder sair deste buraco imundo onde a Morte corteja até o ar…
A cada passo, uma sensação de cansaço abrigava o meu corpo, seduzindo-me para a impúdica magnitude de um reino que muito sofreria se acometido pelas visões da desregrada infâmia que tive, até agora, o horror de conhecer. Nunca tinha imaginado que ruína maior do que um cemitério pudesse existir!
Desejando apenas uns momentos de descanso, decidi deitar-me nesse manto de ervas e flores… Momentos que tão bem fariam ao meu corpo, não fosse o acordar…
Não sabendo contabilizar as horas que passaram desde o fechar e o abrir dos olhos (muito porque a noite, ao cair, pareceu nunca mais querer o Sol deixar subir), apenas foi-me permitido conhecer o facto de ser prisioneiro… Envolto por uma mortalha de ervas e flores, fungos e líquenes, era cativo deste enlouquecido cenário, um olho livre para me permitir conhecer tão maldita sorte…
Julguei estar perto do fim, que seria inteiramente coberto por esse manto de asquerosa podridão, que daí a uns momentos, o meu corpo desapareceria para sempre nos recônditos de uma insana Natureza. Pois… A mais preciosa das virtudes poderá ser a paciência, mas a fome de viver, se é que chamaria a isto de viver, não fica atrás.
Com um esgar de raiva, rasguei as ervas e flores, fungos e líquenes, estropiando os planos de quem quer que fosse que concedia o destino neste mundo arruinado. Se tivesse de morrer uma outra vez, seria de pé, pois ditaria os argumentos que antecedem o meu Juízo Final e não deixaria de urrar o que me conduz a caminhar!
Ainda estonteado pelo que me aconteceu, tardei em me pôr de pé. A raiva que me libertou, não era a suficiente para controlar os meus pensamentos e permitir-me uma acção ainda mais concreta em tão pouco espaço de tempo. Assim, após longos momentos, avancei num rumo incerto…
Nada se ouvia, a não ser os meus passos… O mesmo cenário de horas atrás e, com cada passo, uma nova sensação de sonolência que tentava, impiedosamente, combater por saber o resultado. Assim, pus-me a correr, gritando a todo o fulgor como se a adrenalina induzida me libertasse do cansaço.
Não era este o meu lugar! Não era este o meu destino! Não era esta a minha vontade! Os meus gritos soavam como trovões, a minha alma soava como Vida… Sairia deste recinto de malvadez e encontraria uma saída… Já bastava de tanta desolação! Se era este o Inferno dos suicidas, quem me dera nunca o ter cometido!!! "
Ao levantar-me, senti todo o meu corpo estremecer em meio a uma dor generalizada que teimava em envolver-me nos seus grilhões. A cada passo dado, visões de um vermelho vivo atingiam a minha mente como se tal cor fosse a que assombraria os mais próximos e os mais distantes momentos. Julguei, na altura, ser consequência de ter sido verdadeiramente exposto a uma luz de enorme intensidade, como se o que me tinha acontecido fosse mais uma das inúmeras realidades por onde poderia vaguear.
Sentando-me numa pedra, procurei distanciar-me de tudo o que me rodeava e encontrar algumas respostas para o meu infortúnio. No entanto, o que me atormentava não era somente o lugar onde me encontrava e o mistério em que me tinha inserido, mas também o facto de a minha alma não se encontrar completa, como se tivesse cometido um crime sem qualquer hipótese de redenção. Após uns minutos de descanso, senti a insanidade diminuir ao ponto de me poder novamente levantar e caminhar para onde fosse que eu devesse e pudesse caminhar…
Esperava que, durante a minha caminhada, o sol surgisse para mais uma era de luz, mas quis a noite que viesse algo mais.
Não é demais supor que neste lugar tão estranho, encontre algo ainda mais estranho embora a surpresa surja sempre impregnada num misto de ansiedade e descrédito. Uns bons passos para além da densa folhagem que torneava o lago, surgiu uma escadaria cujo propósito não me era possível conhecer pois o cimo da mesma encontrava-se coberto por ervas e folhas, e apenas a luz da lua cheia permitia observá-las. Curioso, subi os degraus que levavam ao cimo pois o Tempo a tudo permitia. Afinal, que mais poderia fazer neste recanto enlouquecido do Universo?
Que se poderá dizer da tranquilidade quando apenas a lembramos como uma memória já ida de séculos atrás? O fogo que nos aquecia nos meses de frio apartando-nos dos poemas de solidão, o manto de luz que resplandecia no alto simbolizando a fartura de tempos maduros, o sorriso angelical da bem – amada… Teria eu vivido tudo isso ou seriam sonhos que a solidão tece?
Aqui, neste vasto plano de cores acinzentadas, quedava-me pela brisa quente e tépida do sufoco que é sentir-se aprisionado e conhecia apenas o toque de um miserável desprezo sem sentido.
Com cada respirar, tombava uma ténue esperança, diminuía um pálido brilho, surgia o silêncio… Apenas os meus batimentos cardíacos ganhavam vida num compasso incerto, um misto de seriedade e embriaguez como se fosse, cada vez mais, hipnotizado pelo medo.
Não conseguia ver muito bem o que se escondia por detrás da densa folhagem que cobria a parte de cima da escada. No entanto, não sem alguma dificuldade, consegui abrir uma brecha de modo a avançar e descobrir se, de facto, a escada dava para algum edifício antigo. Os meus passos eram demorados e cautelosos pois o desconhecido de tal forma tem de ser penetrado. Incapaz de pintar uma imagem do que iria encontrar, os meus olhos procuravam ir mais além, embora a luz da lua tornasse impossível tal empreitada devido às nuvens que, por vezes, a cobria.
Embora cauteloso, não demorei muito em colocar um pé em falso e cair, uma vez mais, para a incerteza. A prudência muita vezes surge como falsa, levando-nos a crer ser apenas uma marioneta de um plano maior, um mero sacrifício da existência. No entanto, não levei muito tempo a encontrar o solo, e se me levantei incólume foi porque tive a sorte de este estar coberto por um manto de ervas e flores. No entanto, a luz da lua mostrou-me que o formato de tais plantas era incrivelmente aterrador.
As ervas mostravam-se altas e vistosas enriquecidas por um vermelho sangue que as seduzia para a vileza das mais torpes acções. As flores pareciam já murchas embora se mantivessem na vertical e assumissem uma cor tão escura que lembravam um abismo.
Nem nos meus piores pesadelos poderia imaginar encontrar-me em tal lugar… Um plano existencial em que tudo rugia à noite, em que o desprezo pelo dia tornava as palpitações cardíacas falíveis, ténues soluços que clamavam esperança… Meu Deus! Era tudo incrivelmente odioso!!!
De coração na mão, cobria os farrapos, que transfiguravam-se como plantas, com os pés, tentando isolar-me, procurando aliviar o desespero com uma pálida confiança de poder sair deste buraco imundo onde a Morte corteja até o ar…
A cada passo, uma sensação de cansaço abrigava o meu corpo, seduzindo-me para a impúdica magnitude de um reino que muito sofreria se acometido pelas visões da desregrada infâmia que tive, até agora, o horror de conhecer. Nunca tinha imaginado que ruína maior do que um cemitério pudesse existir!
Desejando apenas uns momentos de descanso, decidi deitar-me nesse manto de ervas e flores… Momentos que tão bem fariam ao meu corpo, não fosse o acordar…
Não sabendo contabilizar as horas que passaram desde o fechar e o abrir dos olhos (muito porque a noite, ao cair, pareceu nunca mais querer o Sol deixar subir), apenas foi-me permitido conhecer o facto de ser prisioneiro… Envolto por uma mortalha de ervas e flores, fungos e líquenes, era cativo deste enlouquecido cenário, um olho livre para me permitir conhecer tão maldita sorte…
Julguei estar perto do fim, que seria inteiramente coberto por esse manto de asquerosa podridão, que daí a uns momentos, o meu corpo desapareceria para sempre nos recônditos de uma insana Natureza. Pois… A mais preciosa das virtudes poderá ser a paciência, mas a fome de viver, se é que chamaria a isto de viver, não fica atrás.
Com um esgar de raiva, rasguei as ervas e flores, fungos e líquenes, estropiando os planos de quem quer que fosse que concedia o destino neste mundo arruinado. Se tivesse de morrer uma outra vez, seria de pé, pois ditaria os argumentos que antecedem o meu Juízo Final e não deixaria de urrar o que me conduz a caminhar!
Ainda estonteado pelo que me aconteceu, tardei em me pôr de pé. A raiva que me libertou, não era a suficiente para controlar os meus pensamentos e permitir-me uma acção ainda mais concreta em tão pouco espaço de tempo. Assim, após longos momentos, avancei num rumo incerto…
Nada se ouvia, a não ser os meus passos… O mesmo cenário de horas atrás e, com cada passo, uma nova sensação de sonolência que tentava, impiedosamente, combater por saber o resultado. Assim, pus-me a correr, gritando a todo o fulgor como se a adrenalina induzida me libertasse do cansaço.
Não era este o meu lugar! Não era este o meu destino! Não era esta a minha vontade! Os meus gritos soavam como trovões, a minha alma soava como Vida… Sairia deste recinto de malvadez e encontraria uma saída… Já bastava de tanta desolação! Se era este o Inferno dos suicidas, quem me dera nunca o ter cometido!!! "
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Jorge Ribeiro de Castro,
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